Crítica: Grupo Os Satyros transforma deficiência em estética em seu espetáculo Édipo na Praça

A diva e a musa: as atrizes Phedra D. Córdoba (à esq.) e Cléo De Páris (à dir.), em Édipo na Praça – Fotos: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

O diretor Rodolfo García Vázquez é astuto na arte de criar imagens impactantes e construir uma encenação interessante mesmo com poucos recursos.

Édipo na Praça, espetáculo no qual o grupo Os Satyros se encontra com o clássico da mitologia grega e termina temporada nesta Satyrianas, é um exemplo dessa característica do diretor e, por conseguinte, de sua trupe.

A peça tem a presença de um coro ao vivo, o Coral da Cidade de São Paulo regido pelo maestro Luciano Camargo, um diferencial que envolve o espectador, sobretudo na primeira parte, que se passa dentro do teatro – a segunda parte é feita na praça Roosevelt. A cena com o barulho advindo das taças com água é realmente impactante.

O roteiro obedece ao clássico, com pitadas fartas do contemporâneo como tempero. Édipo é o rei amaldiçoado, que matará sem saber o seu pai e se casará com sua mãe.

Maldito

Phedra D. Córdoba, a diva cubana dos Satyros, faz o profeta Tirésias, em uma aparição soturna e com o recurso tecnológico de sua boca em uma tela de celular. A cara dos Satyros.

Édipo é vivido por José Sampaio – antes, o papel era do ator português Óscar Silva, que dava, com seu sotaque carregado, outra tinta ao personagem, explicitando um pouco mais a confusão na qual está metido, com um ar próximo da esquizofrenia. Já Sampaio praticamente se concentra apenas em dizer o texto. Falta impacto a seu protagonista.

Cléo De Páris é Jocasta, a rainha que se casará com o filho sem saber; esta mistura sua figura de musa da praça Roosevelt à da matriarca. É dela uma das melhores cenas da peça, na qual a atriz canta Evidências, da dupla sertaneja Chitaozinho e Xororó, envolta em fumaça rosa e trancafiada em um grande aquário no centro da praça. Tal imagem, com Cléo ali, cantando desafinada e segurando uma latinha de cerveja, humaniza sua personagem, a faz crível e mais próxima dos espectadores. É uma cena tocante pela crueza poética de sua verdade.

Próximo à realidade

E é isso que faz a obra o tempo todo: procura aproximar o texto clássico da realidade da plateia. Há clara tentativa de diálogo com o seu tempo na montagem dos Satyros. Seja no diálogo entre os atores Robson Catalunha e Henrique Mello com a plateia dentro do teatro – no qual Catalunha se sobressai como uma espécie de comediante de stand-up que sabe lidar com o imprevisto e o improviso; seja na tentativa de abarcar os skatistas da praça em vez de demonizá-los.

Algumas associações parecem surgir à toque de caixa, com o tom pomposamente político nas referências às manifestações de junho que tiveram a praça Roosevelt como cenário de enfrentamento entre protestantes e polícia. Bem como a tentativa de fazer com que o público carregue cartazes de protesto na segunda parte da obra – com o clima de revolta já arrefecido atualmente, poucos espectadores se interessaram pela proposta na sessão vista pelo R7. Mesmo assim, só de buscar abarcar a temática – em vez de olhar para o próprio umbigo – e dialogar com seu tempo político, é algo que traz mérito à obra.

De volta ao elenco, Gustavo Ferreira faz Creonte, o tio ambicioso, e Dyl Pires fica com o posto de narrador. Ambos estão claramente entregues, por mais que o registro intenso de ambos destoe do todo. Aí cabe uma observação: não há uma unidade de registro no elenco. Cada um vai por um caminho. Talvez seja esta mesma a proposta da direção, em explicitar a diversidade de seus atores sem amarrá-los a uma unidade. O teatro dos Satyros, assim,  transforma o que seria deficiência em estética.

Poesia final

A peça vai bem enquanto está dentro do Espaço dos Satyros Um, mas sofre queda abrupta quando vai para fora. Afinal, teatro de rua é tarefa das mais complicadas. O público fica meio perdido diante das cenas, por mais que os atores se esforcem em fazer a todos seguir a bandeira branca que indica o caminho correto.

Phedra D. Córdoba, em sua última aparição em frente a um hotel barato, está pouco aproveitada. Sua figura é tão forte que ela poderia interagir mais com o público naquele momento derradeiro, em vez de apenas apontar.

A cena anterior, na qual o público vê Édipo comendo uma pizza e tomando cerveja com Catalunha e Mello em um boteco, também é de uma ironia que mais parece piada interna.

Contudo, na cena final, o coro volta com tudo e há o impacto da poética imagem de Cléo De Páris e seus balões vermelhos na cidade cinza, cuja visão é um alento ao que faltou.

Édipo na Praça
Avaliação: Bom
Quando:
Sexta e sábado, 20h. 100 min. Até 16/11/2013
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, Metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Cléo é musa! Ponto final. A cena com os balões tem um quê de Amélie Poulain.

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