Domingou: Bandeira besta ou a alma de Minas

Pode até ter virado moda nas ruas, mas bandeira dos EUA na roupa é mesmo uma besteira – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado*

Uma coisa tem chamado minha atenção ultimamente nas ruas de São Paulo: a quantidade de pessoas vestidas com roupas estampadas com a bandeira dos Estados Unidos.

Não quero parecer extremamente antiamericanista, mas acho tal moda um atestado de ignorância. Penso comigo: será que os amigos da terra do Tio Sam saem por aí saltitando com roupinhas em verde e amarelo pelas ruas nova-iorquinas?

Além de essa nova moda ser cafona até não mais poder – a opinião vale para quem se veste com a bandeira da Inglaterra também –, o que está por trás dela é o que assusta realmente: o sentimento de entrega cultural barato e sem resistência de quem usa tais indumentárias.

Será que estas pessoas não conseguem ter um mínimo de senso patriótico antes de sair comprando as blusas e calças americanizadas? Será que jamais leram ou assistiram a reportagens dos últimos tempos contando que os EUA nos espionam sem nenhuma vergonha?

Fico pensando se um dia os filhos de Tio Sam realmente invadissem o Brasil – num futuro distante, mas absolutamente possível –, em busca da nossa Amazônia ou de nosso petróleo.

Pelo que vejo hoje nas ruas, penso que eles não encontrariam resistência alguma. Boa parte da população empunharia, empolgada, as bandeirolas dos EUA pelas ruas brasileiras, deslumbrada com o novo líder.

Gente besta, isso sim.

Coisa do Brasil: Milton Nascimento é a voz da alma de Minas – Foto: Divulgação

Ah, se você, como eu, tem absoluta preguiça de ver esse povo vestido com a bandeira norte-americana, corra então para ver o DVD novo de Milton Nascimento, Uma Travessia, que celebra seus 50 anos de carreira.

Milton é Brasil puro. E para puxar mais sardinha para minha terra, ela é a voz da alma de Minas. Todo mineiro tem nele um parente. A gente escuta Milton e os meninos do Clube da Esquina e entende tudo.

O show, gravado ao vivo pelo Canal Brasil, contou com participação mais do que especial de Lô Borges, em um bonito e comovente encontro com Bituca. Vale a pena comprar e ouvir.

E ainda tem um charme a mais para este vosso escriba. O show foi produzido pela Marolo Produções, que é da minha amiga Maria Dolores, em sociedade com o músico Flávio Duarte. Maria também é jornalista e foi minha veterana no curso de Comunicação Social da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Sacudida, escreveu a biografia Travessia – A Vida de Milton Nascimento (Editora Record), e desde então não para de criar coisas boas e inteligentes.

Hilda e Malthus: reprise no Viva – Foto: Divulgação

Já que estamos tão mineiros, um último aviso: o Canal Viva está reprisando a minissérie Hilda Furacão, de 1998. Imperdível.

Além das belezas estonteantes de Ana Paula Arósio e Rodrigo Santoro, a minissérie escrita por Glória Perez a partir do livro de Roberto Drummond tem atores de peso como Paulo Autran e Walderez de Barros em cenas antológicas.

Ambientada em Belo Horizonte e no interior mineiro, a minissérie é uma das poucas vezes que Minas foi representada com dignidade e qualidade na TV.

Lembro-me que, quando era calouro na Fafich, o Roberto Drummond apareceu por lá, um ano antes de morrer, para falar sobre sua carreira. Claro que todo mundo só queria saber de Hilda Furacão.

Perguntei-lhe se ela estava viva ainda e se mantinham algum contato após o sucesso televisivo de sua história. Mineiramente, Roberto fez mistério. Falou muito e não me entregou nada. Faz falta.

Para Juan, aniversariante do dia.


*Miguel Arcanjo Prado é jornalista e tem orgulho de ser mineiro e brasileiro. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Miguelito, parabéns efusivos! Também notei e acho que isso é a prova maior de que somos realmente uma nação com histórico de colonialismo. É preciso que haja mais identidade própria para que as pessoas não precisem assumir como suas a vida alheia. Reproduzo um trecho do seu texto que achei brilhante: “Penso comigo: será que os amigos da terra do Tio Sam saem por aí saltitando com roupinhas em verde e amarelo pelas ruas nova-iorquinas?” É exatamente isso: enquanto brasileiro sai pelas ruas com bandeira americana estampada na camisa, mostrando uma neoescravatura e dominação cultural ianque, americano, quando olha para brasileiro chegando na terrinha deles, já olha com certo desprezo, pensando “mais um não documentado” (não todos, obviamente).
    Sim, é uma moda cafoníssima, pois é realmente a VENDA não só do produto, mas até, em certo sentido, de uma identidade ou a evidência da falta de uma. O Brasil tem problemas? Claro! Mas ainda é o nosso país. Até quando já não sei. Vai ver esse povo que anda badalando por aí com a bandeira americana estampada na camisa queira que o Brasil seja rebaixado à condição de Porto Rico, estado sem personalidade jurídica dos EUA.

  2. Paulo Jorge Dumaresq disse:

    Salve, Miguel. Infelizmente, o colonialismo ainda é muito forte no Brasil. A conduta dos jovens vestindo indumentária com a bandeira norte-americana ou com as cores da tal bandeira é extremamente cafona e nociva. Enfim, pensei que com o crescimento econômico do país, a rapaziada fosse dar mais importância ao Brasil. Qual o quê. Continuamos com o velho complexo de vira-latas, tão bem anotado pelo mestre Nelson Rodrigues. Na minha opinião, é uma questão cultural que tem que ser mudada. Abraço.

    PS: Bituca é o máximo!

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