Crítica: Selma Egrei e texto de David Lindsay-Abaire são os destaques do espetáculo A Toca do Coelho

Elenco da peça A Toca do Coelho, em cartaz em São Paulo: Selma Egrei (à esq.) é o destaque – Foto: Jairo Goldflus

Por Miguel Arcanjo Prado

Um luto cotidiano assombra os personagens de A Toca do Coelho, peça do norte-americano David Lindsay-Abaire ganhadora do Prêmio Pulitzer em 2007. A montagem brasileira, em cartaz em São Paulo, é dirigida por Dan Stulbach. A obra gira em torno de um casal (Maria Fernanda Cândido e Reynaldo Gianecchini) que perdeu o filho pequeno em um acidente estúpido na rua de casa. A falta da criança e a dor irreparável estão na atmosfera no palco do Teatro Faap.

O texto é simples e ao mesmo tempo inteligente ao expor seu drama familiar e dá possibilidade aos atores de aumentarem ou anularem sua potência. E teatro sem atores que consigam veracidade para seus personagens é tarefa inglória.

No elenco, quem se sobressai é Selma Egrei. Atriz experiente e talentosa, mesmo comedida, consegue tornar crível sua personagem, a mãe da mãe enlutada. Vítima também de uma perda cruel no passado, ela se refez e tem um olhar irônico para a vida. Já chegou à idade na qual é possível falar todas as verdades sem maquiá-las, coisa que todos almejamos. E a atriz faz sua personagem dizer com gosto o que quer, conquistando a plateia de imediato. Sua personagem é um alívio, com seu excesso de humanidade. Na companhia do texto, Selma Egrei é o alento da montagem.

Felipe Hintze, que faz o adolescente com papel crucial na história, surge em tom introspectivo, que condiz com a culpa que seu personagem carrega, mas falta-lhe peso. Já Simone Zucato, como a jovem e desbocada irmã da personagem de Maria Fernanda Cândido, carrega sua personagem no histrionismo. Ela só encontra um tom mais convincente e menos estridente no embate com o personagem de Gianecchini.

Os protagonistas da obra, Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido, apesar da beleza que os fizeram ídolos da televisão e do mercado publicitário, custam a convencer o público da verossimilhança de seus personagens neste espetáculo.

Em Gianecchini os sentimentos de do pai parecem superficiais e fica difícil de crê no que sai se sua boca, sobretudo porque a fala não condiz com o gestual do corpo, exagerado e mecânico.

Já Maria Fernanda vai pelo caminho de uma introspecção exacerbada – em alguns momentos ela até acerta.  Sua personagem está em luto e em depressão, isso é evidente; o problema é que falta um algo a mais na atriz que faça com que o público se identifique com sua Rebeca e não veja apenas a caricatura da dor.

Dan Stulbach faz uma direção estreante que pelo menos não incorre na tentativa de maquiar a fragilidade de seus protagonistas. Afinal, A Toca do Coelho é um espetáculo para bons atores e quase não há espaços que possam ser preenchidos por uma direção inventiva. O diretor até tenta fazer provocações, como um relato feito em microfone de ar pós-moderno que invade a obra supostamente naturalista ou o rápido delírio que representa o mergulho da protagonista em seu inconsciente, mas estas acabam soando mais como ruído na proposta vigente do que inovação estética.

Assim, a versão brasileira de A Toca do Coelho é um drama pretensioso em sua simplicidade, mas que não encontrou atuadores capazes de fazer chegar ao público a dor real que os personagens vivem.

Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido vivem casal Paulo e Rebecca – Foto: Jairo Goldflus

A Toca do Coelho
Avaliação: Regular
Quando:
Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. 110 min. Até 15/12/2013
Onde: Teatro Faap (r. Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, tel. 0/xx/11 3662-7233)
Quanto: R$ 80 (sexta e domingo) e R$ 100 (sábado)
Classificação etária: 12 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Lamento os problemas de ordem médica que Gianecchini passou. Lamento realmente, por questões de humanidade e pelos meus princípios cristãos. Mas, como ator, do que já vi dele, acho-o meio raso. A única vez em que realmente achei que ele estava ótimo foi quando ele fez aquele personagem na novela AS FILHAS DA MÃE. Por ter sido modelo, o papel caiu como uma luva para ele. Dava para sentir que o texto dele fluía com perfeição, ele entendia tudo o que estava falando porque conhecia aquele universo. Mas, de seus outros trabalhos, achei tudo bem ruim.

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