Entrevista de Quinta – J.C. Serroni faz panorama histórico da cenografia brasileira em livro

J.C. Serroni: um dos maiores cenógrafos da história do teatro brasileiro – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Foto de Bob Sousa

O livro Cenografia Brasileira – Notas de um Cenógrafo [Edições Sesc] foi lançado nesta quarta (27), na livraria Martins Fontes, em São Paulo. A obra de 376 páginas, apresenta um panorama da cenografia brasileira no século 20, feito por um dos maiores nomes da área: José Carlos Serroni, ou J.C. Serroni, como ele assina.

O arquiteto formado pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP (Universidade de São Paulo) traçou um panorama da sua profissão a partir de apontamentos pessoais e também da trajetória de 31 cenógrafos brasileiros, no maior levantamento já feito nesta área.

Serroni, que criou sua própria escola, o Espaço Cenográfico de São Paulo, e coordena os cursos de cenografia e figurino da SP Escola de Teatro, conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta sobre este seu novo trabalho.

Leia com toda a calma do mundo:

Capa do livro Cenografia Brasileira, lançado pelas Edições Sesc por J.C. Serroni – Divulgação

Miguel Arcanjo Prado – Como surgiu o livro?
J.C. Serroni – A ideia do livro é antiga. Logo que acabei o livro sobre os teatros do Brasil [Teatros – Uma Memória do Espaço Cênico no Brasil], há dez anos, já comecei a pensar nisso. Sempre nos meus cursos, meus alunos entrevistaram cenógrafos e fui guardando este material, porque achava importante um dia fazer um livro que fosse um panorama da cenografia brasileira. Tínhamos livros que mostravam a trajetória de um cenógrafo, mas não tínhamos um com o panorama geral.

Você demorou muito para fazer o livro?
Organizei o projeto há cinco anos. Acabei mandando para o Sesc, instituição com a qual tenho relação muito grande. Depois de quase um ano, aprovaram o livro. Acho que escrevi e levantei o material em um ano e dois meses. Contudo, fiquei quase três anos para conseguir as autorizações de imagens.

Foi difícil?
Acho que é justo que se cuide do direito autoral, mas é um trabalho insano. Elenquei 31 cenógrafos e tem umas 300 imagens… Tem de ter autorização do autor, do fotógrafo, do retratado… Muita gente já morreu, muitas famílias moram no exterior… Por essa dificuldade, eu acabei fazendo ilustrações a partir do que via, de fotos, para conseguir fechar o livro.

Serroni autografa seu livro durante a noite de lançamento em São Paulo nesta quarta (27) – Foto: Divulgação

O que você fala no livro?
É um panorama da cenografia brasileira. Falo das Quadrienais de Praga [maior evento da cenografia mundial], que eu acompanhei pelo menos sete, e levantei 20 exposições na área da cenografia. Claro que no início faço uns apontamentos sobre a cenografia e apresento o trabalho destes 31 cenógrafos. É isso. Foram quase quatro anos e todos com uma base anterior, de coisas que vi, de cenógrafos que trabalhei junto. Efetivamente, o trabalho foi feito.

Qual a importância para a história do teatro de um livro como o seu?
Acho que é da maior importância este tipo de livro. Fazer um panorama do último século, que é o período que a cenografia existiu no Brasil realmente. Tive dificuldades em levantar o material, porque as imagens estão muito ruins. Já estava atrasado este livro. Dei uma contribuição para tentar minimizar essa dificuldade. Pretendo pensar em outro projeto, um livro mais didático, com técnica e projeto. Ultimamente temos muitos livros documentando o teatro. Isso é muito bom.

Por que você virou cenógrafo?
Eu diria um pouco que foi sem querer. Eu sou de São José do Rio Preto [interior de São Paulo]. Lá, até 18, 19 anos, não tinha ninguém da área artística na família. Só tinha visto teatro no circo que era montado em frente à minha casa. Mas aos 14, 15 anos, eu comecei a pintar. Eu tinha uma professora que me estimulou muito. Comecei a participar de exposições na praça lá em Rio Preto [risos].

E como veio a cenografia?
Aí o [José Eduardo] Vendramini me convidou para pintar uns telões para uma peça dele; eram cinco de quatro por oito metros. A partir daí fui fazendo adereço, entrei para o grupo, fui ator pela primeira, última e catastrófica vez [risos], mas vi que queria fazer cenografia de teatro. Vim para são Paulo e entrei na faculdade de arquitetura.

Noite de autógrafos: J.C. Serroni recebeu amigos como os atores Eric Lenate e Cléo De Páris, colegas na SP Escola de Teatro na livraria Martins Fontes, em São Paulo – Foto: Cristiane Camelo/SP Escola de Teatro

Você já entrou na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo] pensando em ser cenógrafo?
Sim. Ainda na USP, entrei para a TV Cultura, onde conheci o [Antonio] Abujamra e o Antunes [Filho]. Vim para a arquitetura porque me falavam que eu deveria fazer arquitetura ou artes plásticas para ser cenógrafo. Até hoje, só fiz uma casa para meu irmão em Rio das Outras. Hoje, me especializei em arquitetura de teatro. Tenho feito muitos projetos.

Como era a FAU no seu tempo de estudante?
Peguei um período da FAU muito interessante, se formava de tudo, menos arquiteto [risos]. A gente tinha Claudio Tozzi, o Flávio Império dando aulas. Era tudo muito aberto na década de 1970. Formavam-se artistas. Na minha turma, tinha o Guilherme Arantes, que depois virou cantor, o Tales Pan Chacon, que virou ator, o Gal Oppido, que virou fotógrafo, o Felipe Crescenti, que exerce a arquitetura.

Serroni trabalhou por 11 anos com Antunes Filho e fez cenários de importantes obras como Paraíso Zona Norte – Foto: Divulgação

Quais são os cenários que você mais gostou de fazer e por quê?
Falo muito para meus aprendizes que temos de exercitar o desapego. Porque cenógrafo não é ator que fica no espetáculo. Você faz e entrega. Agora, tem projetos que marcam. Todos os que fiz com o Antunes são espetáculos muito significativos, o mais curto que a gente fez lá durou oito, nove meses de processo. Tenho Paraíso Zona Norte que considero muito importante porque foi marcante. Sou um cenógrafo que me envolvo muito. Gosto de ver ensaio, acompanhar o processo.

Você trabalhou no Carnaval no começo da carreira?
Sim, isso foi lá atrás. Quando tinha acabado de me formar, o José Roberto Arduim, meu amigo que é de Rio Preto também, havia entrado na arquitetura em Santos e se envolveu com a escola de samba X-9. Ele me chamou para trabalhar com ele. Fizemos cinco Carnavais e ganhamos quatro. Fiquei muito envolvido na época, cheguei a ir para o Rio, acompanhei o trabalho da [carnavalesca] Rosa Magalhães… Foi uma experiência interessante. Hoje, o Carnaval mudou muito, você precisa ser quase um contratado exclusivo da escola, então não dá mais para fazer. Foi só uma experiência mesmo. Meu foco sempre foi o teatro.

Qual dica você dá para jovens cenógrafos?
A gente tem muito problema de formação. Sempre achei importante pensar no outro lado da cenografia. Da infraestrutura, da formação, de melhorar o nível de nossos espaços teatrais. Sempre me envolvi muito com isso e trabalhei neste sentido. Foram muitas turmas. Onze anos com o Antunes, dez no Espaço Cenográfico e agora estou há cinco anos na SP Escola de Teatro. Tem de ter paixão pela profissão, porque ela é muito dura. São noitadas, fim de semana, viagens. E também saber que cenografia e teatro são artes conjuntas. Você quer ser um artista que assina sua obra de imediato não vem fazer teatro. Isso só vem com o tempo. É preciso ter a generosidade para ouvir muito, porque senão não vai para frente. É preciso estudar muito, exercitar o olhar, ver de outra maneira a cidade e a natureza. É preciso ter muita força de vontade, porque as oportunidades não são muitas, embora você tenha muito trabalho hoje. Só depende de saber que tipo de cenógrafo você quer ser. Mas, antes de tudo tem de ser apaixonado pela coisa. No teatro isso é muito latente, ele mexe muito com as relações humanas. Se não é apaixonado você não aguenta aquele ensaio que dura seis horas e nada acontece [risos].

J.C. Serroni posa com a mulher, Ana Paula, no lançamento do livro – Foto: Cristiane Camelo/SP Escola de Teatro

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Nossa, Miguelito! Essas últimas entrevistas estão encerrando o ano com chave de ouro. Todas as fotos de J. C. Serroni ficaram excelentes e a entrevista dele foi sensacional. Uma verdadeira aula. Primeiro foi Bob Sousa com o registro fotográfico do Teatro e agora J. C. Serroni com o registro em livro do panorama da Cenografia Teatral brasileira. Excelente! Parabéns merecidos ao J. C. Serroni pelo livro e pela iniciativa!

  1. novembro 29, 2013

    […] Bob Sousa, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, mas antes deu uma passadinha rápida no lançamento do livro Cenografia Brasileira, de J.C. Serroni, na livraria Martins Fontes da avenida […]

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