Crítica: Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete faz de sanha consumista patético fracasso

Ed Moraes e Daniel Tavares em cena de Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete – Foto: Bob Sousa

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Bob Sousa

Sabe quando aquela sensação de fracasso iminente paira no ar? E que qualquer tentativa de fugir dele só o tornará mais forte e palpável? Pois no espetáculo Limpe Todo o Sangue Antes que Manche o Carpete, da Cia. dos Inquietos, isso está mais do que evidente, quase sufocante.

E o fracasso ganha contornos irônicos que beiram o ridículo. Porque assim ele o é. Quem duvidar do patético da peça, pode dar uma voltinha na vida real e ver o quanto ela é encenada e absurda também.

A primeira montagem paulista para um texto do carioca Jô Bilac, considerado autor promissor da nova geração, ganha encenação inventiva de Eric Lenate. O diretor se apropria do discurso do texto e cria formas que o acentuam, tornando-o mais forte e impactante.

A peça conta a história de Wilson, um jovem que tenta inserir-se no mercado de trabalho, após ter se tornado uma espécie de celebridade escolar infanto-juvenil como menino gênio, coisa da qual ninguém se lembra mais, para sua decepção. Ele namora uma ambiciosa cuidadora de idosos, cujo sonho maior é um apartamento de frente para o mar – conjugado nem pensar.

Outros dois personagens completam a história: um jovem bonitão que disputa com Wilson uma vaga importante em uma grande empresa; e a amiga de sua noiva, também cuidadora de idosas – representadas por velhas vitrolas, em um grande achado da direção.

O texto é uma grande alegoria que explicita a sanha pós-moderna que vivemos, na qual é preciso se encaixar no sistema de mercado como forma de sobrevivência e status, e a vida mais se define pelo ter do que pelo ser.

A força empresarial sobre a vida das pessoas, que são capazes de tudo para manter um posto de trabalho – incluindo aí humilhar-se a si próprias e aos outros ao redor –, é encenada em cenas hilárias de impacto profundo.

Lenate impõe sua forma diante do bom texto de Bilac. E o resultado é um espetáculo teatral envolvente e que segura o espectador até o fim.

Ed Moraes constrói seu Wilson com propriedade. Faz o personagem patético, do qual ninguém tem pena, sobretudo diante da mediocridade que o mesmo exala.

Já sua noiva, que antes estava a cargo de uma inspirada Luna Martinelli, que deu interpretação definitiva à personagem, agora é assumida por Rita Batata – Luna precisou se ausentar desta temporada da montagem para integrar o projeto Puzzle, de Felipe Hirsch. Rita segue o rastro deixado por Luna, mas é complicado assumir uma personagem consagrada por outra atriz. Mesmo assim, demonstra coragem em fazê-lo e assumir o risco.

Daniel Tavares faz o jovem almofadinha concorrente de Wilson, que crê em sua predestinação em dominar o mundo corporativo. Ele encarna uma figura conhecida de todos nós nos escritórios e repartições da vida, crentes de que o seu servir aos grandes lhe dá algum tipo de poder. Na realidade, um pobre coitado. E o personagem é desmistificado ao fim da obra, tendo suas vísceras expostas por um feroz e acuado Wilsinho, em um grande momento da obra com o embate entre os dois personagens no qual as máscaras caem.

Já o charme desta recente montagem figura em João Paulo Bienemann, que assume a colega cuidadora da noiva de Wilson. Ele faz uma jovem em faniquito, cujo maior sonho de vida é ser a Rainha de Sabá, sim, a monarca bíblica que encantou o Rei Salomão. É hilária a cena na qual a personagem é corrompida pelo sonho de consumo: é o melhor momento do ator em cena, no qual vai da doçura tenra à uma fome animalesca pelo dinheiro.

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete é mais um espetáculo que explicita o caos que vivemos, com relações subjugadas pelo sistema, onde o dinheiro domina sem alternativas e subir na vida é tarefa obrigatória. Contundente, o espetáculo joga na cara da plateia que o conto de fadas do consumismo pós-moderno, na verdade pode ser um pesadelo sem fim, um grande fracasso. Tal qual deixa claro a corda amarrada ao pescoço do protagonista. E é aí que mora seu grande mérito.

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete é dobradinha de Jô Bilac e Eric Lenate – Foto: Bob Sousa

Limpe Todo Sangue Antes que Manche o Carpete
Avaliação: Muito bom
Quando: Quinta e sexta, 21h. 70 min. Até 13/12/2013
Onde: CIT-Ecum (r. da Consolação, 1623, Consolação, metrô Paulista, tel. 0/xx/11 3255-5922)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Seja em ambientes luxuosos, seja em ambientes miseráveis, o consumismo capitalista cria uma série de pseudonecessidades. Isto é fato.

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