Tiago Leal, o menino tímido do interior gaúcho que virou ator e conquistou a metrópole paulista

Gaúcho da fronteira, Tiago Leal chamou a atenção dos internautas do R7 – Foto: Eduardo Enomoto

Por Miguel Arcanjo Prado
Fotos de Eduardo Enomoto

Tiago Leal é gaúcho de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, divisa com o Uruguai. Foi criado em fazenda, longe de gente e bem mais perto da natureza. Talvez, por isso, seja ainda tímido diante de uma equipe de reportagem. Ele foi eleito Muso do Teatro R7, por conta de sua atuação no espetáculo Adormecidos, do grupo Os Satyros, em São Paulo — a obra volta ao cartaz em janeiro de 2014.

Caçula e único homem dos três filhos do fiscal rural Alberto Leal e sua esposa, Vania, ele confessa: “Sempre tive fobia de gente”. Quando era menino e chegava visita em casa, se escondia. Aos 17 anos, quando era hora de partir da cidade pequena em busca de estudo universitário, que não havia por lá, resolveu repetir o terceiro ano do ensino médio para adiar a decisão. “Gostava de ir de bicicleta para a escola. Sempre fui bicho do mato”.

Costumava brincar no teatro abandonado da sua cidade, sem saber que um dia faria do palco sua profissão.

Tiago Leal estudou teatro em Porto Alegre e também no CPT de Antunes Filho – Foto: Eduardo Enomoto

Aos 18, não teve jeito, foi estudar direito em Porto Alegre, para alegria de sua mãe. Do lado do apartamento onde se instalou, no boêmio bairro do Bonfim, havia o Teatro Escola de Porto Alegre. Resolveu dividir seu tempo entre o estágio no Tribunal de Justiça e o palco vizinho.

Logo se enturmou e foi chamado para fazer a peça A Guerra dos Ratos, com direção de Zé Adão Barbosa, com Cia. das Índias. “Foi lá também que a Cléo De Páris começou”, revela, sobre sua hoje companheira na Cia. Os Satyros.

Neste tempo, “dormia seis horas por dia e trabalhava que nem um cavalo”. Mas fazia o que queria. “Meu diretor falava que quem nasceu para fazer teatro tinha uma maldição [risos]”.

Formou-se advogado, mas nem foi buscar o diploma. Enveredou-se de vez pelos palcos. “Fui emendando uma peça atrás da outra”, lembra. Foi dirigido por Marco Fronchetti, até que Júlio Conte lhe chamou para fazer a remontagem da peça Bailei na Curva, que tinha também no elenco o hoje consagrado ator de cinema Júlio Andrade. Viveu o sucesso.

Tiago Leal é integrante há oito anos do grupo teatral Os Satyros – Foto: Eduardo Enomoto

“Aproveitei para juntar um dinheiro e vir para São Paulo tentar pela segunda vez o CPT [Centro de Pesquisa Teatral] de Antunes Filho”. Dessa vez, o grande diretor lhe aprovou. “Mudei com a cara, a coragem e a grana do espetáculo”, recorda.

Sobre como foi sair da posição confortável de ator de uma peça de sucesso em Porto Alegre para o posto de jovem pupilo de Antunes na capital paulista, ele opina: “Sempre fui de um lugar muito pequeno, então, não tinha nada a perder”. Ficou dois anos no CPT, até que o dinheiro acabou e ele precisou sobreviver na metrópole.

“Dividia um quarto com quatro pessoas e precisava pegar água no Sesc para beber”, lembra, sobre a fase difícil. Surgiu a possibilidade de atuar no infantil É o Bicho, dirigido por Rosi Campos. “Passei como substituto do Kayky Brito. Então, o público ia vê-lo e dava de cara comigo [risos]”. Ele recorda que foi divertido fazer o teste. “De repente, estavam todos os ‘atores sérios’ do Antunes vestidos de mosquito da dengue, de urso, de criança na audição, porque todo mundo precisava sobreviver. Lembro-me que rimos muito daquela situação”.

E aí o grupo Os Satyros surgiu em sua vida. Está há oito anos na trupe fundada por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. “Fiz muitas coisas com eles, como a peça Hipóteses para o Amor e a Verdade, que virou filme depois”.

Bem-humorado, o ator Tiago Leal ainda se lembra dos tempos difíceis de quando chegou em São Paulo: “Já dividi muito sofá e animei muita criança no Sesc Itaquera” – Foto: Eduardo Enomoto

Hoje, mora sozinho em uma região nobre do centro paulistano, o que considera uma conquista. “Já dividi muito sofá velho e animei muitas crianças no Sesc Itaquera [risos]”. Com campanhas publicitárias aliadas ao posto fixo no grupo teatral, conseguiu se estabilizar. Mas sabe que tudo sempre é imprevisível nesta profissão. “Eu gosto muito de interior. Gosto de assistir ao Globo Rural de domingo. Quem sabe um dia eu não vá criar galinhas em um sítio?”, especula.

Está se preparando para uma maratona de peças com os Satyros em 2014, ano em que o grupo vai celebrar seus 25 anos. “Estou ensaiando muito e também dou aulas na oficina de atores do grupo”.

Aos 39 anos, diz que os amigos brincam, dizendo que ele é uma senhora inglesa muito fina e um maloqueiro aprisionados juntos em um corpo de playboy. Sobre o corpo sarado e os braços fortes que chamam a atenção e fizeram dele Muso do Teatro R7, desconversa. “Estão me zoando com essa história de ser muso. Até parei de nadar, porque acho que estou muito grande”. A quem interessar possa, ele nada todos os dias às 7 da manhã na piscina do estádio do Pacaembu.

Acanhado, diz que não entende por que desperta o interesse dos outros. “Acho a minha vida tão sem graça. Sempre achei a vida do outro mais interessante. Acho que por isso virei ator”.

“Acho a minha vida tão sem graça. Sempre achei a vida do outro mais interessante. Acho que por isso eu virei ator”, diz o ator Tiago Leal, que sonha em um dia poder voltar para o interior – Foto: Eduardo Enomoto

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Não votei por ele, mas, depois desse “post”, concordo com a eleição. Ele é um “muso”, em múltiplos níveis. Cara bacana, sorriso bonito, poderia ser uma pessoa pedante e, no entanto, é uma pessoa descontraída e sem afetação. Tudo de bom para ele, pois merece!

  2. Alef Rodrigues disse:

    Parabéns Tiago também sou daqui de Jaguarão,te adicionei no Face me aceita lá o nome é Aleff Klyu.abraço
    Tiago vc merece tudo de bom saiu do fim para chegar na ponta.

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