Coluna do Mate – Quantidade e qualidade fez de São Paulo a capital do teatro brasileiro em 2013

Destaques do teatro em 2013: Folias Galileu, Eu não Dava Praqulo e Relampião – Fotos: Divulgação

Variedade, quantidade e qualidade estiveram presentes na cena vibrante da capital paulista durante o ano que passou

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE*
Especial para o Atores & Bastidores

O pesquisador paulistano de teatro José Cetra filho apresenta uma análise surpreendente. Segundo o pesquisador, foram apresentados 578 espetáculos cujos textos foram criados por dramaturgos brasileiros.

Sem sombra de dúvida, trata-se de número importantíssimo, sobretudo se se levar em consideração o fato de os autores brasileiros, com raríssimas exceções, terem permanentemente brigado para que seus textos pudessem ser montados. Essa luta vem de muito longe. Também na área teatral, foi preciso vencer a tese perversa segundo a qual “o melhor sempre vem de fora!”

Os pesquisadores da área teatral encontram documentos e informações desse tipo de luta desde o período colonial. Em um encontro sobre dramaturgia, ocorrido na década de 1980, Jorge Andrade, um de nossos mais importantes dramaturgos, em um encontro sobre dramaturgia, denunciava a luta permanente contra os autores estrangeiros. Segundo o autor, que também escrevia telenovelas, ele estava cansado de escrever textos de teatro para ficarem engavetados.

Segundo o dramaturgo, um capítulo de telenovela conseguia um número maior de público à melhor e mais bem sucedida peça em cartaz. Evidentemente, o autor sabia que o teatro, naquele momento histórico, não era tão importante quanto, culturalmente, eram as telenovelas. Do mesmo modo, ainda que as telenovelas continuem a ter alguma importância em todo o Brasil, o número de espetáculos apresentados, pelo menos na cidade de São Paulo, é bastante relevante e significativo. Apesar de vivermos em uma megalópole, serem mais de 700 estreias por ano é um dado fundamental de certa mudança de perfil do público.

Diversas são as causas para a mudança: término da ditadura civil-militar, o teatro aproxima-se mais das necessidades das pessoas, novas leis de incentivo ao teatro foram criadas… Enfim, a linguagem teatral na cidade é surpreendente. Há espetáculos sendo apresentados em espaços tradicionais, em novos e mais diversos espaços alternativos: nas ruas e praças, em salas de visitas, em janelas de apartamentos… Se, como apresentam os documentos oficiais, a cidade foi fundada por um padre dramaturgo (José de Anchieta), o desejo pela linguagem continua vivo e muito intenso.

Barafonda percorreu ruas de tradicional bairro paulistano com a Cia. São Jorge de Variedades – Foto: Bob Sousa

A temporada teatral em 2013, como costuma acontecer, apresentou obras antológicas… O mais importante representante na montagem de bons espetáculos é o que atualmente se denomina por teatro de grupo. Em tese, e de modo bastante sucinto, o conceito teatro de grupo se refere aos coletivos teatrais, fundados e gestados por conjunto de pessoas, cuja sociedade é cooperativada e o processo de criação é chamado colaborativo. Trata-se, portanto, de um tipo de sociedade cuja forma de produção é rigorosamente coletiva e fora do modo de produção empresarial.

Atualmente, são perto de 300 grupos de teatro que podem ser inseridos nessa categoria de agrupamento. Um ou outro espetáculo na cidade tem destaque fora dessa proposta, mas as obras que tem destaque e que surpreendem pela inventividade, forma relacional, modo singular de usar as técnicas e características teatrais são aquelas criadas pelos teatros de grupo. É extremamente difícil destacar, desse imenso número, mas quem gosta de bom teatro, pelo tema/ assunto, interpretação, inventividade, modo de acolhimento e recebimento do público, tenderá ao encantamento com alguns dos espetáculos destacados abaixo. Muitos descritos, nem sempre ligados ao teatro de grupo, já cumpriram carreira, mas a maioria deverá retornar à cena:

Antígona Recortada – apresentada pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, na sede do grupo (bairro Pompeia, na zona oeste paulistana) e apresenta o antigo mito grego vivendo na periferia da cidade; A Morte de Ivan Ilitch, tem interpretação impecável de Cácia Goulart; A Mandrágora, apresentada pelo grupo Tapa, surpreende por estetização objetiva e poética; A Ópera do Trabalho, o grupo de teatro de rua, depois do excepcional Ser tão ser: Narrativas de Outra Margem, apresenta seu último trabalho pelas ruas da cidade, expondo, por intermédio da música, o constante processo de exploração da classe trabalhadora; Avental Todo Sujo de Ovo, melodrama cuja inspiração veio da música Mamãe, mamãe, de Herivelto Martins; Barafonda – apresentada pela Companhia São Jorge de Variedades. Esta última sai da Praça Marechal Deodoro e percorre dois quilômetros pelo bairro da Barra Funda, em São Paulo. Com quatro horas de duração, o espetáculo, em determinado momento, para na sede da companhia: serve café, água e guloseimas.

Após a pausa, volta para as ruas e segue até o coração do bairro, depois do leito da estrada de ferro; em projeto surpreendente, denominado Baú de Arethuzza, Fernando Neves, da Companhia Fofos Encenam, adapta e dirigi cinco espetáculos ligados à tradição do circo-teatro. São eles: “Antes do Enterro do Anão, Vancê Não Viu Minha Fia?, A Canção de Bernardete, A Ré Misteriosa e Se o Anacleto Soubesse.

Cais ou da Indiferença das Embarcações, apresentada pela Velha Companhia, é ambientada em cais da Ilha Grande (RJ); Cantata, para um Bastidor de Utopias, ao tomar texto clássico de Federico García Lorca, a Companhia do Feijão apresenta obra magistral, revolucionando o espaço onde a encenação ocorre; Eu Não Dava Praquilo, apresentado pelo ator Cassio Scapin, que apresenta de modo espetacular a saudosa atriz e diretora Myriam Muniz; Ficção obra constituída por monólogos apresentados excepcionalmente por ator e atrizes da Companhia Hiato, mescla vida pessoal e cultural, de modo articulado demonstrando, de certo modo, que tudo é, rigorosamente, ficção; Folias Galileu, apresentada pelo Galpão do Folias, tem intérpretes excelentes, que apresentam seus pontos de vista sobre Galileu Galilei (que não aparece em cena) e uma cenografia heliocêntrica, que gira em torno de uma “maestrina” aristocrata, que estabelece os deslocamentos das cenas apresentadas em diversos espaços do teatro (e fora dele).

Nossa Cidade, espetáculo de Antunes Filho, também foi destaque em 2013 – Foto: Emidio Luisi

Nossa Cidade, de modo absolutamente pousado na interpretação, Antunes Filho, classiciza o importante texto de Thorton Wilder, no Teatro Anchieta; O Patrão Cordial, último espetáculo da Companhia do Latão, articula o texto O sr. Puntila e seu Criado Matti, de Bertolt Brecht e o texto O Homem Cordial, de Sérgio Buarque de Holanda; Os Adultos Estão na Sala espetáculo escrito e dirigido pela promissora e (já potente) Michelle Ferreira; a Companhia do Miolo e a Companhia Paulicea, juntas, apresentam nas ruas da cidade, o surpreendente Relampião; Ricardo III, um dos textos de Shakespeare mais montados no Brasil, insere-se em projeto ousadíssimo, que tem produção de Alexandre Brasil e Erike Busoni, cuja pretensão vislumbra a montagem de todas as obras do texto. Chico Simões é o ator protagonista e apresenta trabalho surpreendente; em releitura repleta de bons achados, Vestido de Noiva deverá continuar em cartaz no Núcleo Experimental.

Evidentemente, o que fica patente com esse breve texto, além da riqueza da linguagem teatral, é que se deixou, simplesmente de fora, mais de outros tantos e excelentes trabalhos bem realizados, naquela que se pode chamar (sem pretensão de estarmos sendo imperialistas): capital do teatro brasileiro.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), pesquisador de teatro e integra o júri do Prêmio Shell de Teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Certamente São Paulo é a capital da produção teatral brasileira.

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