Crítica: Em A Madrinha Embriagada, Miguel Falabella faz homenagem melancólica ao mundo dos musicais

Talentoso, Ivan Parente dá charme e vigor ao discurso melancólico de seu protagonista, o amargo Homem da Poltrona, espécie de alterego do autor da versão brasileira, Miguel Falabella – Foto: Caio Gallucci

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

No mundo mágico dos musicais tudo se resolve no final e todos ficam felizes e saem cantando e saltitando pelo palco, certo? Errado.

Pelo menos em A Madrinha Embriagada, que retorna aos palcos nesta quarta (8) após um breve recesso de fim de ano, as coisas não são bem assim. A obra tem direção e versão de Miguel Falabella para o musical norte-americano The Drowsy Chaperone.

A montagem, que ganhou indicação de melhor espetáculo no Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), faz sessões gratuitas até junho, dentro do projeto de teatro musical do Sesi-SP.

O objetivo alardeado é formar novo público para o gênero no País, bem como aproximá-lo de camadas da população que não têm recursos para pagar os costumeiros caros ingressos das superproduções do gênero.

Ao homenagear o mundo dos musicais, Falabella celebra também as próprias estrelas do gênero em sua retomada no País a partir da virada do século 21. Nomes que se tornaram estrelas da Broadway nacional, como Kiara Sasso, Sara Sarres e Saulo Vasconcellos, compõem o elenco.

Personagens ganham vida na sala de um apartamento em A Madrinha Embriagada – Foto: Caio Gallucci

O enredo apresenta o Homem da Poltrona, um solteirão gay de meia idade e de ar deprimido. Em casa, sozinho, resolve escutar pela enésima vez o velho vinil herdado de sua mãe que traz a gravação do musical A Madrinha Embriagada nos anos 1920.

Enquanto ele ouve o disco, os personagens ganham vida na sala de sua casa e são interrompidos no decorrer do enredo para que o homem possa traçar comentários de um aficionado pelo gênero que deseja demonstrar seus conhecimentos ao público.

O grande charme do musical é também seu maior problema: as interferências do protagonista com comentários ferinos e ressentidos com a vida, muitas vezes provocam mais incômodo do que graça.

Algumas falas do Homem da Poltrona reforçam preconceitos. Por exemplo, soam xenofóbicas as declarações sobre o personagem argentino, bem como sugerem um machismo retrógrado quando disserta sobre as mulheres. Assim, muitas vezes o que deveria causar riso gera certo constrangimento.

Falabella optou por transportar a história para a São Paulo da década de 1920, na qual a cidade começava a ganhar ares de metrópole cosmopolita com gente vinda de todos os lugares do mundo, e uma elite cada vez mais preocupada com expressões artísticas nacionais que culminou na Semana de 1922.

Por isso, a ópera ouvida na vitrola pelo protagonista se passa no Theatro São Pedro, no tradicional bairro paulistano da Barra Funda. Os “atores” que interpretam os personagens do musical também são uma homenagem de Falabella aos pioneiros nas artes dramáticas no Brasil. Todos ganham versões tupiniquins em sua versão para o original norte-americano com livro de Bob Martin e Don McKellar e músicas de Lisa Lambert e Greg Morrison.

Stella Miranda, Ivan Parente e Sara Sarres são alguns dos destaques do musical – Foto: Caio Gallucci

O elenco, mesmo diante da proposta de uma atuação de ares canastrões para todos, está afinado, entrosado e coeso.

Destacam-se Sara Sarres, que exibe técnica precisa de dança e canto ao compor a atriz que resolve abandonar a carreira para se casar, e também Kiara Sasso, que conquista o público como a engraçada esposa do produtor que sonha com o estrelato.

Stella Miranda confia na técnica precisa e também no carisma que tem ao construir sua madrinha bêbada. Saulo Vasconcellos, na pele do produtor, constrói um tipo cheio de charme canastrão – sobretudo quando sai fora das marcações e expõe os colegas para ganhar o público, artimanha típica dos atores-vedete do começo do século 20.

Já Cleto Baccic sai-se melhor como diretor geral de produção do que como ator, já que seu personagem argentino é uma caricatura elevada ao cubo – fora a falta de pesquisa na construção da linguagem do personagem, que mistura o castelhano argentino com termos só utilizado por espanhóis, o que é tão grave quanto se os norte-americanos colocassem um ator com sotaque português para fazer um brasileiro.

A direção encontra achados cruciais, como a bela abertura, com o protagonista falando no escuro com a plateia – criando uma experiência sensorial concreta – ou a forma divertida que ele “educa” os espectadores a desligarem o celular.

A parte técnica exibe trabalho bem amarrado e em integração. A cúmplice direção cênica de Floriano Nogueira, a delicada direção musical de Carlos Bauzys, as corretas coreografias de Kátia Barros, a impactante cenografia de Renato Theobaldo e Beto Rolnik, a iluminação envolvente de Fábio Retti, bem como os figurinos suntuosos de Fause Haten e a ambientação sonora de Gabriel D’Angelo, contribuem para envolver o espectador com a história.

Mas quem mais se sobressai é o autor e direção da versão brasileira: Miguel Falabella. O “João Canarinho”, versionista do musical em sua montagem, é um alterego de si mesmo. Bem como o autor também se imprime no personagem Homem da Poltrona – missão difícil encarada por um competente Ivan Parente, que dá leveza ao personagem mesmo em seus momentos mais escuros – uma atitude de depressão com a vida de um velho amargo.

E o clima melancólico – que vem acompanhando Falabella nos últimos tempos – paira no ar. Está ali, latente, certo inconformismo com a falta de amor, de reconhecimento, com a chegada da velhice, com o novo que vem atropelando tudo sem dar o devido crédito ao que veio antes.

A visão para o mundo do teatro musical presente na montagem soa em alguns momentos com a de um diretor do teatro underground que precisou se render à força econômica do gênero, mas que despertou com isso um inconformismo artístico. Por isso, o desconstrói com uma firmeza que chega a ser cruel em determinados momentos.

E essa visão turva é jogada na cara do público, desavisado, que entrou ali pensando em se entreter e se depara com um artista em conflito consigo mesmo e com seu público. Que provoca e exibe sua dor em meio a cantos e danças.

A Madrinha Embriagada é homenagem às próprias estrelas da “Broadway brasileira” – Foto: Caio Gallucci

A Madrinha Embriagada
Avaliação: Bom
Quando: Quarta a sexta, 21h. Sábado, 16h e 21h. Domingo, 19h. 120 min. Até 29/6/2014
Onde: Teatro Sesi (av. Paulista, 1.313, Cerqueira César, metrô Trianon-Masp, São Paulo, tel. 0/xx/11 3146-7405)
Quanto: Grátis (reservas pelo site); ingressos sobressalentes distribuídos 15 min. antes de cada sessão
Classificação etária: 10 anos

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3 Resultados

  1. Felipe disse:

    Sara Sarres está fortemente bela, não por acaso ganhou a última eleição de musa do Teatro.

  2. Mauro Matis disse:

    Caro Miguel,
    Quanto recalque com o Falabella. O espetáculo é muito bom, pena que você não entendeu a proposta. Viu a peça toda ou dormiu como fazem os críticos?

  3. Fernanda Santos disse:

    Realmente você fez uma crítica ao musical “A Madrinha Embriagada”? Acho que não assistíamos a mesma peça. Já vi esse musical por 4 vezes e como frequentadora dos musicais, posso dizer que esse não perde em nada com aqueles que os empresários cobram fortunas nos ingressos, essa atitude do Sesi é magnífica. Sobre a peça não vejo nada de irregular, trata-se de um elenco primoroso com os melhores atores do gênero que o Brasil tem, Sara, Kiara, Saulo, Stella, Frederico, Edgar, Ivanna, Andrezza, Elton, Daniel, Rafael, Ivan e o Cleto estão arrasando em cena, sem contar os bailarinos/ensambles que são perfeitos e substituem maravolhosamente bem a ausência de um dos mencionados. Brasileiro não gosta de argentino mas vejo todo mundo sair amando um argentino desse musical, veja sem preconceito querido crítico.

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