Entrevista de Quinta – “Tenho Chico Buarque na veia”, diz Lucinha Lins, atriz de Palavra de Mulher

Lucinha Lins canta no espetáculo Palavra de Mulher, que estreia em SP – Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Os 70 anos de vida de Chico Buarque, que serão completos em 19 de junho de 2014, serão celebrados com sua música a partir deste sábado (18)  em São Paulo. Para isso, um time de atrizes que tem tudo a ver com universo do compositor assume suas canções no palco.

Clássicos como Folhetim, Olho nos Olhos, Tango de Nancy e Atrás da Porta estão no repertório do espetáculo que tem direção e concepção de Fernando Cardoso, que procurou fazer um recorte do universo feminino nas canções de Chico.

Estreia no Teatro Renaissance, o espetáculo musical Palavra de Mulher, após temporadas de sucesso em Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Vitória, Santos e Sorocaba.

Em clima de cabaré, Virgínia Rosa, Tania Alves e Lucinha Lins interagem com o público, que se identifica com as músicas que elas cantam.

Esta não é a primeira vez que Lucinha Lins se aventura no universo de Chico Buarque. Lúcia Maria Werner Vianna de Carvalho Lins já viveu Vitória-Régia, a vilã de Ópera do Malandro, e a prostituta Nancy, de O Corsário do Rei, ambos espetáculos do compositor. No cinema, ainda fez interpretação definitiva para a Gata de Os Saltimbancos, no filme Os Saltimbancos Trapalhões.

Lucinha Lins conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta. A atriz de 60 anos falou sobre essa familiaridade com o músico, o mundo dos musicais e o espetáculo.

Leia com toda a calma do mundo:

Miguel Arcanjo Prado – Você acaba de fazer o musical Rock in Rio, que lhe rendeu elogios da crítica. Agora você volta com mais um musical a São Paulo?
Lucinha Lins – Pois é. Mas são espetáculos completamente diferentes. Rock in Rio era uma megaprodução, com bailarinos, orquestras, com raízes na produção de Broadway. Já Palavra de Mulher é completamente diferente. Não é um musical. É um show teatralizado. São três cantoras, Virígina Rosa, Tania Alves e eu, e três músicos, que fizeram arranjos maravilhosos. Estar ao lado deles é um privilégio. O repertório é lindo e faz parte da vida de todo mundo!

Chico sabe falar para as mulheres…
O Chico entra no universo feminino. Ele diz que é porque ele não sabe, que ele não conhece, mas é curioso. E isso nos encanta completamente. É um universo de músicas passionais, dor de cotovelo, amor, tesão, paixão. Tudo se passa num cabaré. É um espetáculo muito simples e simpático.

Chico na veia: Tania Alves, Lucinha Lins e Virgínia Rosa em Palavra de Mulher – Foto: João Caldas

Vocês brincam com as músicas?
A partir das letras, brincamos com certos personagens, sou a madame, a cafetina. As meninas seriam as garotas do cabaré. Ao mesmo tempo, a gente sai desses personagens e conversa com a plateia. A gente mostra um pouco da influência de Chico na nossa vida e interage com o público. A plateia canta junto, e isso me emociona.

Lucinha nos tempos do casamento com Ivan Lins – Foto: Amílton Vieira/AgNews

Você foi casada com o Ivan Lins [atualmente a atriz é casada com o ator Claudio Tovar]. Você tinha muito contato com o Chico nesta época?
Quando eu fazia parte do mundo da música, quando era casada com o Ivan, a minha casa foi um ponto de referência. Porque lá se faziam encontros da nata da música popular brasileira. O Chico é extremamente carinhoso comigo. Não é alguém que eu encontre toda hora, mas quando a gente se encontra é um carinho, uma maravilha, um abraço gostoso.

O Chico é muito importante na sua trajetória no teatro?
Cantei Chico primeiro em Os Saltimbancos Trapalhões. Depois, tive a sorte de fazer Corsário do Rei, com direção do Augusto Boal, ao lado do Marco Nanini, com música feita por Edu Lobo e Chico Buarque para a minha personagem, o Tango de Nancy. E depois fiz a Vitória-Régia na Ópera do Malandro, direção do Charles Möeller e do Claudio Botelho. E agora, Palavra de Mulher. Tenho Chico na veia! O Claudio Botelho falou que eu sou buarquena demais.

Você é a eterna Gata de Os Saltimbancos…
Tive a sorte de cantar profissionalmente Chico, quando fiz Os Saltimbancos Trapalhões. Sempre me dizem isso, que eu sou a eterna Gata. Mexer com criança é uma coisa muito boa, muito séria, muito bonita e muito simples.

Lucinha Lins com Os Trapalhões: interpretação definitiva para a charmosa Gata no filme Os Saltimbancos Trapalhões – Divulgação

Eu jamais vou me esquecer de você naquele filme. Eu era pequenino quando vi…
Com o passar dos anos tomei consciência dessa responsabilidade. O que você pode dar essa criança é muito sério e é muito lindo. Eu tenho declarações de amor em estacionamento de shopping, farmácia, festas. Já entrei em consultório que o médico olhou pra mim e ficou vermelho. E foi maravilhoso porque ele não resistiu e falou: “Antes de qualquer coisa eu preciso lhe dizer que você foi uma das paixões da minha vida. Eu tenho 34 anos, sou casado, tenho filhos, e você é inesquecível no meu coração”. Eu comecei a chorar. Trabalhei muito com criança no teatro e também na TV, onde cheguei a ter um programa infantil na Manchete. Na peça, quando eu brinco e canto “Nós gatos já nascemos pobre…”, independentemente da idade, a plateia exala um som que eu acho que é o som do carinho, um som de alma, do coração. Todos cantam.

Lucinha com o filho Claudio Lins – Foto: AgNews

Seu filho com o Ivan Lins, o Claudio Lins, também está fazendo carreira no teatro musical. O que você acha?
O Claudinho é um artista muito especial. Com todo orgulho de mãe, ele é extremamente determinado e disciplinado. Ele fez Ópera do Malandro também. E entrou no último mês no Rock in Rio, quebrando um galho, ele fez o pai e eu a mãe! E agora está fazendo Elis, a Musical. Ele canta muito bem. Ele está dançando também. Ele faz parte de uma geração de atores espetacular. Eles vão abrindo portas e possibilidades.

Você acha que o musical veio para ficar?
Sim. Mas a gente pode esquecer do circo teatro. Musical sempre existiu no Brasil. Nos filmes da Atlântida, as atrizes sempre dançavam e cantavam. Eu acho que o musical no Brasil sempre existiu. Houve um tempo em que ele foi considerado cafona, e a gente ia lá para fora para ficar babando. Aos poucos, foram voltando muito baseado nos moldes da Broadway. Fomos trazendo isso e abrindo espaço para que estes espetáculos falassem também de nós. E estamos crescendo cada vez mais. Hoje, o público quer ver musicais com temas do Brasil. Fazer musical é barra pesadíssima. São extremamente cansativos e são caríssimos. É difícil fazer musical, mas isso está acontecendo no Brasil porque agora está se voltando para essa coisa brasileira. Os produtores querem produções brasileiras. E eu acho isso muito bom. Acho gostoso o público querer ver musicais cada vez mais brasileiros.

Lucinha Lins em seu trabalho mais recente na TV, a Zizi da novela Vidas em Jogo – Foto: Munir Chatack/Record

E quando você volta para a TV?
Eu sou contratada da Record, emissora que eu adoro. Sou uma mulher de muita sorte. Trabalhei em todas as emissoras de televisão. Tudo que eu fiz na televisão até hoje foi muito bom. Sempre. Eu tive muita sorte com autores, personagens e diretores. Eu sou autoditada, eu aprendi na raça. E foi me dada uma confiança que hoje eu agradeço muito, e eu corri atrás para honrar essa confiança. Na Record, fiz três trabalhos até hoje: Vidas Opostas, Chamas da Vida e Vidas em Jogo, todas as três novelas de sucesso. Pela primeira vez na minha vida eu aceitei a ser contratada por uma emissora. Eu não fui contratada da Globo, ao contrário do que muita gente pensa, lá sempre fiz obra certa. Na Record, tenho a possibilidade de trabalhar a minha vida no teatro sendo contratada. E sempre fui presenteada com grandes personagens. Estou ansiosa para minha próxima personagem!

Vocês estão celebrando os 70 anos do Chico. Nem parece…
Este é o ano Chico Buarque, porque tem os 70 anos dele. Ano que vem são os 70 anos de Ivan Lins.

Você está com 60 anos, apesar de não parecer. Como foi fazer esta idade?
Olha, Miguel, eu prefiro começar pelos 40. Aos 40, eu me achei importantíssima, poderosa, gostosa. Cinquenta eu fiz assim: “então, tá. Agora eu sou uma adulta entrando na terceira idade, é assim. Não encham meu saco, não tenho mais paciência para certas coisas”. Agora, aos 60 anos, eu levei um susto, não fiquei confortável.

Por quê?
É um pouco assustador fazer 60 anos. Eu já vivi mais de 50% da minha existência. Você leva um susto e pensa: “caramba, será que eu entrei na reta final?”. Tem o encontro que lhe diz que a imortalidade não existe, a mortalidade bate na sua cabeça, e eu acho morrer muito chato. Não é que eu esteja sendo mórbida. É uma real que você faz assim: “caramba, eu preciso pensar melhor, jogar menos fora, ligar menos para as coisas. Não quero desperdiçar”. Aprendi que preciso me ligar mais em mim.

Palavra de Mulher
Quando: Sexta, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. 85 min. Até 2/3/2014
Onde: Teatro Renaissance (alameda Santos, 2.233, Cerqueira César, São Paulo, metrô Consolação; tel. 0/xx/11 3069-2286)
Quanto: sextas (inteira R$ 50,00 e meia R$ 25,00), sábado (inteira R$ 80 e meia R$ 40) e domingo (inteira R$ 70 e meia R$ 35)
Classificação etária: 12 anos

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2 Resultados

  1. Paulo Teixeira disse:

    Olá Lucinha! Espero que esse e-mail lhe seja encaminhado.
    Fui o organista que lhe acompanhava no velho programa “Show do meio-dia” na antigo canal 9 Excelsior na Nestor Pestana.
    Se não me engano, o seu pai era o Sr. Perão de Castro e lhe pergunto:
    Será que você não teria algum material gravado que fosse possível mandar por e-mail?
    Eu sei que naquela época, tudo era feito em video-tape, mas sabe, às vezes pode ser que você tenha alguma coisa guardada.
    Eu tocava um órgão de 2 teclados + pedaleira e mais um piano elétrico cedido pela Hering aos Titans.
    Espero que você consiga lembrar porque realmente esse pedido cheira até pó das Pirâmides do Egito.
    Obrigado de antemão, e lhe agradeço por responder.
    Atenciosamente
    Paulo

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