Entrevista de Quinta – Ediana Souza largou o mundo corporativo pelo teatro: “Sonho de criança”

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Ediana Souza interpreta Rebecca Gibbs em “Nossa Cidade” – Foto: Divulgação

Por BRUNA FERREIRA*

Se no palco ela pode viver uma criança, na vida real, essa jovem atriz é uma mineira decidida, de 26 anos, que desbravou a cidade de São Paulo buscando o próprio caminho. A Entrevista de Quinta de hoje é com Ediana Souza, que interpreta a personagem Rebecca Gibbs, no espetáculo Nossa Cidade, de Antunes Filho, que está em cartaz no Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo.

Ediana também é formada em publicidade, criação e marketing. Chegou a encarar o mundo corporativo, mas nunca conseguiu se afastar dos palcos. Um sonho que nasceu quando ela ainda era uma menina, que brincava nas ruas de Belo Horizonte.

Em entrevista ao Atores & Bastidores, Didi, como é mais conhecida pelos amigos, conta um pouco dos seus sonhos e trajetória e mostra que para ser atriz, é preciso um tanto de perseverança e humildade: “Estou dando meus primeiros passos e tenho muito para aprender”.

Para ler com o brilho no olho das pessoas que são realmente apaixonadas pelo que fazem.

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Atores & Bastidores – Ediana, você é mineira, não é? Onde nasceu e passou a infância?
Ediana Souza – Sim, nasci e cresci na capital mineira, Belo Horizonte. Passei minha infância à moda antiga, brincando na rua, subindo em árvore e aproveitando os pratos que minha mãe fazia.

Desde criança você queria ser artista?
Sempre. E isso é algo em que eu penso muito, às vezes a gente tem um sonho de criança, mas que depois passa, se transforma em outra coisa. No meu caso isso não aconteceu, ainda bem [risos].

Você tem uma outra formação?
Sim. Fiz minha graduação em publicidade, criação e marketing pelo Mackenzie. Ganhei uma bolsa integral e vi ali, uma boa oportunidade de continuar estudando. Nessa mesma época, tive que optar em continuar em BH e terminar meu curso de teatro ou me mudar para São Paulo e começar uma vida nova. Foi uma decisão muito difícil, mas da qual não me arrependo. Continuei estudando teatro esse tempo todo.

Como foi a experiência trabalhando na área?
Trabalhei durante toda a faculdade. Fiz estágio durante um ano em uma agência que atende distribuidoras de filmes no País. Depois fui estagiar em um banco e fiquei lá por quatro anos na área de projetos culturais e patrocínios. Nesse período conheci o tal “mundo corporativo” e pessoas maravilhosas por quem eu sempre terei um carinho enorme. Ao mesmo tempo, sentia uma profunda falta do teatro, de viver como atriz. Continuei estudando, mas sentia que meu mergulho como artista deveria ser completo.

Hoje você está morando em São Paulo?
Moro há oito anos na cidade e mais da metade deste tempo com amigas que se tornaram minha família paulista [risos].

Como foi a decisão de sair de Minas Gerais e morar em São Paulo? Você sofreu algum perrengue com essa mudança?

De alguma forma eu sabia que esse momento chegaria, mas foi tudo muito de repente. Quando terminei o colégio fiz o Enem e acabei indo bem na prova, o que me garantiu uma bolsa de estudos em São Paulo. Foi um processo difícil, me senti muito sozinha, não tinha grana e, por algum tempo, ninguém em quem me apoiar. Mas cheguei a conclusão de que minha vida dependia de mim e eu teria que correr atrás de muita coisa. Tive que amadurecer rápido.

Quando se acostumou?
Com o tempo você vai se tornando dono da própria vida, vai conhecendo as ruas e os bairros da cidade, fazendo amigos, criando laços.

Em que lugar da cidade podemos esbarrar com você?
Sou muito caseira,mas frequento os bares e restaurantes de Pinheiros e da Augusta e também os cinemas dessa região. E principalmente o Sesc Consolação, que tem sido minha segunda casa.

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Elenco de “Nossa Cidade” – Foto: Emidio Luisi/Divulgação

Qual foi sua primeira experiência como atriz? Ficou nervosa?
Ah, acho que foi aos cinco anos quando fiz a Dona Baratinha na escola [risos]. Tinha uma caixa onde eu colocava a cabeça, o disco com a história ficava tocando atrás, um clássico! [risos]. Sempre fiz teatro na escola, mas comecei a levar mais a sério em 2002, mesmo ano em que montamos o Auto de Natal do colégio interno onde estudei. Fiquei nervosa, sem ar, e ao mesmo tempo muito feliz, e ainda fico!

Você fez o CPT (Centro de Pesquisa Teatral), que exige muita dedicação do ator. Foi difícil fazer o curso?
Eu sempre quis estar no CPT por saber que ali é uma grande escola. Tentei o CPTzinho algumas vezes, mas não passei. Um dia o Fê [Felipe Hofstatter, diretor de palco de Nossa Cidade] me ligou para fazer o teste para a Rebecca, fui, fiz o teste, voltei para o trabalho, uma hora depois ele me ligou de novo e no mesmo dia já comecei a ensaiar com o Antunes e o elenco. Não passei pelo curso, mas sabia que era uma grande oportunidade. Eu queria muito estar ali.

Como foi a experiência com o Antunes Filho? Quais lições vai levar para toda a vida?
Ser dirigida pelo Antunes é uma experiência única e muito profunda. Ele é um mestre, aprendi muito, comecei do zero. Não é fácil, é preciso ter persistência, coragem e muita vontade, eu não trocaria o que vivi ali por nada neste mundo. Aprendi que é essencial estudar muito, sempre, ter técnica, domínio do que você está fazendo no palco. É preciso evoluir como artista e ser humano, alimentar o espírito, ver bons filmes, ouvir música, ler muitos livros. Ele sempre manda a gente visitar as exposições de arte que estão na cidade [risos]. E acima de tudo, que não podemos perder a alegria que é viver.

Em que momento você percebeu que ser atriz era a sua verdadeira vocação?
É difícil dizer, estou dando meus primeiros passos e tenho muito para aprender. Sempre ouvi com muita atenção os grandes artistas, suas entrevistas e depoimentos. Lembro de uma entrevista com a Fernanda Montenegro em que perguntada sobre qual conselho ela daria a um jovem ator, ela disse que para descobrir sua vocação, essa pessoa precisa se distanciar, fazer outras coisas, mas se por estar longe do palco, isso lhe trouxer tamanho desassossego, então volte, meu caro, volte. Isso me tocou muito.

Quais as maiores dificuldades que um ator encontra no teatro?
Sinto que conseguir se manter financeiramente e viabilizar os próprios projetos são grandes desafios para o ator.

Você tem vontade de produzir seus próprios espetáculos?
Sim, muita. Acho importante saber todas as etapas do processo da criação à produção, acredito que isso também faz parte da arte de se fazer teatro, assim como no cinema e na televisão, áreas que me interessam muito.

É mais difícil ser atriz ou produtora?
Acredito que ambos tem seus desafios.

Em Nossa Cidade, você interpreta uma menina. Quantos anos você tem? O que você acha quando te oferecem personagens mais novos que você?
Estou com 26 anos. Em um primeiro momento isso me assustava um pouco, mas hoje acho bom ter uma aparência que me dá liberdade de interpretar tanto uma menina quanto uma mulher da minha idade. Faço uma participação como um índio também, e gosto muito.

Para você, sobre o que é, na essência, Nossa Cidade?
Para mim Nossa Cidade tem muitos elementos em sua essência. Fala sobre a grandeza da simplicidade dos eventos cotidianos, da vida humana. Ao mesmo tempo, percebo que a reconstrução feita para essa montagem aponta para as consequências dos nossos atos ontem, hoje e sempre.

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Ediana também é formada em publicidade, criação e marketing – Foto: Divulgação

O espetáculo foi muito elogiado pela crítica. Qual é o clima entre os atores do elenco? Estão mais tranquilos após os elogios ou o nervosismo da estreia permanece?
O elenco de Nossa Cidade é formado por pessoas muito queridas e o clima entre nós é muito bom, estamos sempre ajudando uns aos outros. Bom, é difícil falar por todos, ficamos felizes em saber que a peça está sendo bem recebida pela crítica. O nervosismo da estreia diminuiu um pouco, sim, o que é natural, mas em contrapartida estamos mais atentos ao nosso processo de pesquisa, entendemos que o trabalho não terminou e o Antunes faz questão de frisar isso. A cada dia nossa responsabilidade com o espetáculo se torna maior.

O que pensa fazer depois de Nossa Cidade?
Como estou mergulhada na temporada que reestreou, não pensei muito, mas espero que venham boas oportunidades. Também quero estudar dramaturgia e dar continuidade a alguns projetos pessoais.

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado. Ela escreve interinamente neste blog até 18/2/2014, período de férias do colunista Miguel Arcanjo Prado.

Nossa Cidade
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 18h. 90 min. Temporada de fim indeterminado
Onde: Teatro Anchieta do Sesc Consolação (r. Dr. Villa Nova, 245, Vila Buarque, Metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 32 (inteira); R$ 16 (meia-entrada): e R$ 6,40 (comerciários e dependentes)
Classificação etária: 12 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Só pelo sorriso franco já dá para perceber que Ediana é boa gente.

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