Grupo recebe cartas de homens negros para falar sobre homoafetividade em Cartas a Madame Satã

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Falar sobre a afetividade de mulheres e homens negros é o compromisso de Os Crespos – Foto: Divulgação

Por BRUNA FERREIRA*

Dando continuidade ao projeto Dos Desmanches aos Sonhos — Poética em Legítima Defesa, o grupo teatral Os Crespos vai receber até o dia 06/02 cartas (identificadas ou anônimas) de homens negros que querem falar sobre a própria homoafetividade.

As correspondências são parte da pesquisa para criação do espetáculo que tem como título provisório Cartas a Madame Satã ou Eu me Desespero sem Notícias Suas. O projeto chega ao seu terceiro espetáculo, em todos eles abordando a afetividade de mulheres e homens negros.

Em entrevista ao Atores & Bastidores, a co-diretora do espetáculo Lucélia Sergio conta que já foram feitas algumas entrevistas presenciais com homossexuais negros, que compartilharam suas experiências.

— Entrevistamos cerca de 30 homens, inclusive, no sistema prisional. Muitas pessoas que marcaram com a gente, não foram às entrevistas, pois é um assunto que ainda está quase na clandestinidade. Por isso, achamos que seria interessante receber as cartas.

Nos dois primeiros espetáculos, a companhia também usou depoimentos. Lucélia revela que o grupo sempre se surpreende com a pesquisa.

— No primeiro deles, a gente se deparou com uma ausência de amor na lista de prioridades. Os entrevistados colocam o amor sempre em segundo plano. Há uma preocupação com questões de sobrevivência, com o racismo, então o amor fica de lado. No segundo, ficamos impressionados com o número de mulheres violentadas no ambiente doméstico. Sempre sem denúncia, a violência é quase aceita como natural. Neste terceiro,também vemos muita violência dentro de casa.

As histórias de violência doméstica apuradas pela companhia teatral são tão assustadoras, que só reforçam o compromisso do grupo em trazer essas questões à tona. O texto quer discutir a homoafetividade de homens negros diante dos estereótipos sexuais de virilidade que cercam suas experiências afetivas. Temas como identidade, alteridade, reclusão e marginalidade serão relacionados com o racismo em enredo ficcional.

— Para este terceiro espetáculo, vimos histórias de abuso dentro de casa. Há casos de meninos que sofreram estupros aos oito, dez, 11 e 13 anos de idade. Do irmão. Do pai. Tem ocasiões em que as mães sabiam ou, pelo menos, desconfiavam. E assim vai se criando aquela relação doente com o parente. Só que também nos surpreendemos em como o homem negro, homossexual, dá vazão a sua feminilidade, mesmo neste cenário

Quem quiser participar deve mandar e-mail ou pedir informações para [email protected]

— A gente entra em estudos de orientação teórica agora. No dia 25 de fevereiro, teremos uma palestra pública sobre o tema, que vai acontecer na Funarte. Depois vamos fazer uma intervenção pública, que está marcada para o dia 9 de março, onde experimentamos algumas ferramentas que pensamos usar no espetáculo. Devemos estrear em abril, provavelmente no dia 18.

 

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado. Ela escreve interinamente neste blog até 18/2/2014, período de férias do colunista Miguel Arcanjo Prado.

 

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    A questão do abuso sexual, homossexual ou heterossexual, é dolorosa e traumática, daí porque deve ser respeitada. Creio que falta ainda acesso à educação, à informação, principalmente em comunidades periféricas em situação de risco social e/ou intimação por grupos criminosos. Daí porque não se pode banalizar a violência, considerá-la “charmosa” como alguns grupos que insistentemente se intitulam de “descolados” fazem. Até porque, em alguns casos, os tais grupos dos “Descolados de Plantão” na verdade são pessoas profundamente arrogantes, pois etiquetam tudo e todos de “cafona”.

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