Entrevista de Quinta – Alexandre Reinecke completa 30 anos de teatro: “Dando murro em ponta de faca”

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Alexandre Reinecke completa 30 anos de teatro e 50 peças – Foto: Bob Sousa

Por BRUNA FERREIRA*

Ele começou aos 15 anos, completa 30 anos de carreira com 50 peças. Dez delas como ator e 40 dirigindo. No ano passado, ele tinha 12 espetáculos em cartaz, sendo que metade entrava no segundo ano de temporadas. Só que Alexandre Reinecke não gosta de pensar em números, ou estipular metas.

Se fosse me aprofundar nos projetos futuros do diretor, daria um segundo, terceiro post (e olhe lá, pois podiam ser mais). Só a comédia TOC TOC completa seis anos de estrada e vai inaugurar a temporada 2014, no Teatro APCD, no sábado (8), às 21h. Ele parece incansável, mas é um trabalhador determinado: “Essa é a minha vida. Continuo aí dando murro em ponta de faca”.

Em entrevista ao Atores & Bastidores, ele fala sobre as dificuldades em colocar uma montagem em cartaz, o que mudou nesses 30 anos e dá sua opinião sobre a educação para cultura no Brasil.

Reinecke também adianta uma novidade que vem por aí: A Besta, com os ornitorrincos e os parlapatões, o que ele descreveu como um “p*** espetáculo”. Já bateu aquela ansiedade, não é?

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Alexandre diz que “fez escola” com Paulo Autran para a direção – Foto: AgNews

Atores & Bastidores — Então este ano você completa 30 anos de carreira? Quando?
Alexandre Reinecke — Não tem bem uma data. Este ano eu completo 30 anos de carreira e 50 peças de teatro. Dez como ator e quarenta dirigidas e essa quadragésima vai ser uma coisa, uma marca. É uma junção dos ornitorrincos com os parlapatões, com Cacá Rosset e Hugo Possolo,mais Iara Jamra, Priscila Fantin. Serão dez atores, vai ser uma p… peça, que ainda vai falar sobre teatro. Ela se chama A Besta e começamos a ensaiar na segunda-feira passada.

Como foi o início de tudo?
Eu comecei a carreira como ator.Eu tinha 15 anos e foi lá em Campinas [interior de São Paulo]. Minha mãe foi uma grande incentivadora, quando eu falei que queria ser ator, ela logo me disse para fazer um curso.

Nossa, isso é quase raro, né? Tantas entrevistas que eu faço com atores e a gente não vê esse estímulo. É um privilégio, não?
É mesmo. Com certeza é um privilégio. Ela sempre foi muito ligada à cultura. Ela fez parte do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional de Estudantes), tem uma formação intelectual, foi advogada de todos os atores do filme do Eduardo Coutinho, Cabra Marcado para Morrer, esteve presa lá na Paraíba.

Ela ainda é viva?
Sim e trabalha muito. Só para de trabalhar aos sábados e acompanha sempre o meu trabalho.

Aí você começou em Campinas…
Minha primeira peça escrevi lá, mas vim para São Paulo tentar a vida. Tive o imenso prazer de fazer Trair e Coçar, É Só Começar no auge da montagem durante quatro anos, com a Denise Fraga e todo o elenco. Eu fazia aquele vendedor de joias que virava uma bichona. Em 1993, fui dirigir a minha primeira peça, Os Alquimistas, e graças a Deus, a experiência foi boa, teve boa crítica e bom público. No ano 2000, trabalhei como assistente de Paulo Autran, que foi minha grande escola na direção de atores. Em 2002, tive o prazer de dirigir Beatriz Segall e Myriam Pires, que depois que veio a falecer, foi substituída por Nicette Bruno. Três grandes nomes. E aí as coisas começaram de vez.

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Alexandre Reinecke e a filha, Julia – Foto: AgNews

Você acha que hoje está mais fácil realizar projetos no teatro?
Está mais difícil! Está mais difícil conseguir patrocínio e mais difícil fazer com que o público vá ao teatro. Para o ator, acho que as oportunidades são maiores, pois existe muita teledramaturgia, séries, cinema, tanto que você pode conversar com qualquer diretor, que eles vão te falar sobre a dificuldade que é formar um elenco, pois estão todos ocupados.
Mesmo com esse cenário, você tem uma meta de peças para colocar em cartaz ao ano?
Eu nunca penso em números, mas ano passado eu montei seis peças. Tinham outras seis que vieram de 2012 e seguiram em cartaz. No total, ano passado eu tive 12 peças. Acho que nenhum diretor do mundo faz isso. Era para eu estar superbem ou milionário…

E não está nenhum dos dois?
Nenhum dos dois. Eu garanto. Muito pelo contrário. É sempre uma luta muito grande.

De todos os problemas que dificultam o acesso ao teatro no Brasil, qual deles é mais urgente?
Tem que começar com a educação para o povo. Em um País que trata as pessoas como um lixo, a educação vai ser um lixo. É preciso que as pessoas se interessem pela cultura, a gente está formando um País sem educação. Isso é gravíssimo. E não temos qualquer perspectiva de mudança.

O que você mudou nesses anos todos de carreira?
A gente vai amadurecendo. Não digo que acaba, mas ficamos menos ansiosos. A gente trabalha com mais serenidade e mais segurança. Esta peça que vou fazer, por exemplo, para dirigir Cacá Rosset e Hugo Possolo… Bom, para dirigir esses caras é preciso um pouco de bagagem, né? A relação do diretor com o elenco é sempre de amor e ódio.

E o que vem por aí?
Esse ano vou ter A Besta, que é esse encontro bacanérrimo, vou montar uma peça com Norival Rizzo e Thiago Fragoso, que conseguimos os direitos. Aqui ela vai se chamar O Sucesso a Qualquer Preço, que já foi um filme com o Al Pacino. Escrevi um musical sobre capoeira em cima da música Domingo no Parque, e está tudo certo, o Gilberto Gil já aprovou. Também quero montar uma peça do mesmo autor de TOC TOC, chama-se Cego, Surdo e Mudo. E estou buscando entrar para o cinema e a televisão. Estou com o roteiro de uma comédia e ainda quero adaptar um romance.

Ou seja, você não vai parar de trabalhar.
Olha, essa é a minha vida. Eu sempre estou tomando mais “não” do que “sim”, mas continuo aí dando murro em ponta de faca.

*Bruna Ferreira é repórter do R7. É formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Universidade de São Paulo), onde cursa mestrado. Ela escreve interinamente neste blog até 18/2/2014, período de férias do colunista Miguel Arcanjo Prado.

TOC TOC
Quando: Sábados, 21h; domingos; 19h. Até 30/03/2014
Onde: Teatro APCD (r.Voluntários da Pátria, 547, Santana, São Paulo, tel. 0/xx/11 2223-2424)
Quanto: R$ 60 até R$ 50. Sócios APCD têm desconto
Classificação indicativa: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Alexandre está correto quando afirma que um país que trata pessoas como lixo terá uma educação que vai ser um lixo. E está 100% certo quando diz que estamos formando um país sem educação. Sem dúvida! A educação é a base para a convivência em sociedade, pois se a pessoa não é capaz de respeitar o semelhante, dificilmente o diálogo será produtivo. “Obrigado”, “com licença” e “por favor” cabem em qualquer lugar. E, sobretudo, o respeito ao sentimento alheio.

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