Artista acusa comissão do Fomento ao Teatro de não ler projeto enviado; Prefeitura de São Paulo nega

Diretor Ruy Filho acusou, nesta semana, comissão julgadora do Programa de Fomento ao Teatro da Prefeitura de São Paulo de não ler projeto enviado por ele — e recusado — em 2012 – Fotos: Reprodução

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Uma polêmica em torno da Lei de Fomento ao Teatro de São Paulo movimenta a classe teatral. O detonador do estopim foi o diretor paulistano Ruy Filho, da Cia. Antro Exposto, que também edita a revista teatral Antro Positivo – leia entrevista exclusiva com ele ao fim desta reportagem.

Filho acusou a comissão julgadora da Lei de Fomento ao Teatro de São Paulo – que concede ajuda financeira para projetos na área teatral – de não ler o projeto enviado por ele. A declaração, feita no Facebook, é contestada pela Prefeitura de São Paulo, que reitera que todos os projetos enviados foram analisados. Diz Ruy Filho:

— Fiz uma pequena provocação. Mandei as vias todas lacradas […]. O curioso é que quando fui retirá-los, nenhum havia sido aberto, pois não teriam como ver os projetos sem rasgar os envelopes. Tenho todos intactos aqui comigo. Ainda lacrados. Guardo-os como uma espécie de alerta sobre algumas pessoas que participaram daquela comissão.

Apesar de não mencionar em sua acusação, feita no último dia 15, o R7 apurou que o projeto ao qual Filho se refere foi inscrito no ano de 2012. O artista não explicou por que só agora trouxe a questão ao conhecimento público.

Acusações despertam polêmica

As declarações de Filho já geram repercussão na classe teatral. Carlos Canhameiro, diretor da Cia. Les Commediens Tropicales, resolveu entrar no assunto, também na mesma rede social, e questionou a acusação do colega, incluindo as fotos dos envelopes fechados postadas pelo editor da Antro Positivo.

— Qualquer investigação séria descartaria as fotos como prova da acusação feita. Fotos como as portadas por Ruy Filho podem ser forjadas facilmente.

Os membros da comissão julgadora da 20ª edição da Lei do Fomento, implicitamente acusados por Ruy Filho, são Berenice Raulino, que assumiu a função de presidenta da comissão na 20ª edição, Valmir Santos, Expedito Araújo, Silvia Fernandes, Beth Néspoli, Mirian Rinaldi, Tin Urbinatti.

Após as declarações de Canhameiro, Ruy Filho manteve sua fala de que os envelopes nunca foram lidos.

— Peguei fechado, vou fazer o quê? Eu só tenho dúvidas, e espero que Carlos encontre as respostas […] Se tivermos respostas para tudo será realmente incrível. E falo isso de peito aberto.

“Cretinice”

Kil Abreu, crítico teatral e curador de teatro do Centro Cultural São Paulo e que já participou de comissões julgadoras da Lei de Fomento ao Teatro, saiu em defesa dos acusados por Filho.

— Só a cretinice pode justificar que alguém fantasie que há má fé no trabalho de uma comissão que tem Berenice Raulino, Valmir Santos, Silvia Fernandes, Beth Néspoli, Mirian Rinaldi e Tim Urbinati – artistas, pesquisadores, críticos e mestres conhecidos de todos os que trabalham com o teatro em São Paulo. […] Já havia decidido parar de dar gás a essa estupidez, mas quando a coisa começa a fazer escola a melhor ação, sempre, é tentar esclarecer.

Beth Néspoli, jornalista especializada em teatro que integrou a comissão acusada, pediu calma aos integrantes da classe artística e lembrou da importância da Lei de Fomento ao Teatro, criada em São Paulo há 12 anos e referência em todo o Brasil.

—O Programa de Fomento ao Teatro é importante, é uma conquista da cidade e do teatro. Quem sabe disso não será nunca leviano ou negligente no trato com os projetos. Tenho certeza disso. Eu conheço um professor que quando a turma está agitada diz em tom grave e manso: serenai, serenai. É o meu apelo.

Procurada pelo R7, a assessoria da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo, responsável pelo Fomento ao Teatro, se manifestou por meio da seguinte nota.

— A Divisão de Fomentos da Secretaria Municipal de Cultura esclarece que o processo de seleção dos projetos inscritos nos editais do Programa Municipal de Fomento ao Teatro respeitou integralmente a Lei nº 13.279/2005, que institui esta modalidade de fomento no âmbito municipal. Uma comissão formada por sete membros com notório saber em teatro analisou todos os projetos inscritos.

Atualizado às 16H45:

“Não é uma denúncia”, diz Ruy Filho ao R7

Em entrevista exclusiva ao Atores & Bastidores na tarde desta quinta (20), Ruy Filho comentou a polêmica.

— Quando peguei os envelopes, sim, estavam fechados. Uma pessoa foi agora à secretaria e pesquisou que eles mantêm o registro da inscrição com o valor do projeto, o que significa dizer que sim, ao menos um foi aberto. O que me dá um certo alívio. Não tenho todos mais, venho usando os materiais que lá estavam para outras coisas. Não tenho como dizer se foram ou não avaliados, pois o Fomento não tem obrigação de dar esse retorno. Por isso, dizer algo sobre a comissão significaria dizer sobre nada.

Ruy Filho ainda explicou por que não procurou os órgãos competentes para fazer a denúncia.

— Não tem sentido, quando não se pode provar. E nem eu posso provar que me entregaram fechados, nem o edital pode provar que me entregou abertos. Então pra quê? Não me interessou procurar ninguém, assim como não me interessa agora qualquer satisfação. Todos os meus trabalhos foram feitos sem o Fomento e continuarei a realizá-los da mesma maneira, por um motivo simples. Esse projeto envolvia uma série de desdobramentos públicos para a cidade. A imensa maioria dos meus trabalhos não faz isso. Não vou enviar aos editais, algo que seja unicamente do meu interesse produzir. Particularmente, não acho isso ético. Por isso, só enviei este, duas vezes. E só depois de tê-lo experimentado e realizado uma vez, ouvido o público e enxergado na prática sua proposição.

Filho ainda afirmou que sua primeira fala no Facebook questionando a não abertura do projeto “não é uma denúncia”.

— O que eu escrevi não é uma denúncia, é um relato. Assim como outras pessoas escreveram contando que também tiveram envelopes fechados de volta, ou que souberam dos resultados antes da divulgação. Todos são relatos. Mas parece que só o meu incomodou. Curioso isso. Denúncia se faz aos órgãos competentes, relato se faz entre amigos e onde bem se quiser.

O diretor também falou sobre ter reclamado só agora do projeto rejeitado em 2012.

— Eu disse que achava ter sido a última inscrição, mas me equivoquei. Já expliquei [no Facebook] que, na última, conversei com os jurados que me explicaram a questão dos projetos mínimos exigidos pelo edital e o alto custo do meu, o que tornava incompatível. Foi com o primeiro, então. Sinceramente, não faz a menor diferença tudo isso pra mim.

Para concluir, o artista afirmou que não quer acabar com a Lei do Fomento de São Paulo.

— Não sou contra o Fomento. Em nenhuma hipótese. Mas o formato precisa ser revisto. Não há pluralidade nos resultados, e isso é triste que aconteça. Tenho muitas questões de ordem estrutural e prática sobre o Fomento. Sobre isso escrevi a matéria para a Antro Positivo, está na edição 3. E sim, a matéria foi enviada à Secretaria de Cultura, assim como enviei ao Juca Ferreira, quando este assumiu a cadeira, e está disponível para qualquer que a queira ler.

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3 Resultados

  1. Felipe disse:

    O assunto foi muito bem esclarecido no blog. Com um trabalho de dignidade e ética e com o profissionalismo peculiar ao blog, as partes envolvidas deram suas versões para os fatos. Para mim, ficou tudo claríssimo.

  2. Danilo disse:

    favor publicar também a resposta a este cidadão, os fatos foram apurados e a acusação dele é infundada!
    https://dl.dropboxusercontent.com/u/59717133/fomento_20_edicao.pdf

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