Entrevista de Quinta – Satyros fazem peça com sexo ciborgue e diretor Rodolfo García Vázquez declara: “Nós não temos medo de polêmica”

Rodolfo García Vázquez, na mesa de luz do Espaço dos Satyros Um: aposta no teatro expandido – Foto: Eduardo Enomoto

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de EDUARDO ENOMOTO

O R7 chega ao escritório do grupo teatral Os Satyros, em cima de seu teatro, na praça Roosevelt, centro de São Paulo, e encontra o diretor Rodolfo García Vázquez em reunião com sua equipe. O relógio já passou das 14h e ele ainda não almoçou.

Assim que nos vê, aproveita a chegada da reportagem como desculpa para propor uma pausa para o almoço. Como o fotógrafo Eduardo Enomoto e eu já havíamos almoçado, aceitamos o convite para acompanha-lo em qualquer lugar onde se encontre comida nos arredores da praça que virou sinônimo da trupe de Rodolfo e Ivam Cabral, fundada há 25 anos.

Enquanto dá as últimas orientações, Rodolfo conta que mal teve tempo de comemorar seu aniversário, na terça-feira (4), tamanha a correria para a estreia do projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias, neste sábado (8), quando haverá uma maratona com as sete peças em sequência, cada uma representando um dos “sete mandamentos do mundo ciborgue”, criados pelo grupo. Depois, cada uma vai ocupar um dia da semana no Satyros com entrada gratuita. Cada espetáculo tem um tema diferente e dramaturgia escrita por nome tarimbado de nossa sociedade. Um deles terá até “sexo ciborgue”.

Assim que chega na calçada, Rodolfo se encontra com outro diretor, Alexandre Reinecke, que conta que também está ensaiando uma peça no teatro vizinho Parlapatões e dá um abraço de boa sorte no diretor dos Satyros.

Debaixo de chuva, chegamos a um restaurante na esquina da rua da Consolação com Nestor Pestana. Rodolfo pede bife à parmegiana com fritas e legumes salteados. A Entrevista de Quinta do Atores & Bastidores do R7 começa.

Leia com toda a calma do mundo.

Tarde nos Satyros, com a maquete iluminada por pedaladas na bicicleta: (a partir da esq.) José Sampaio, Evandro Carvalho, Suzana Muniz, Samira Lochter, Marcelo Maffei e Rodolfo García Vázquez – Foto: Eduardo Enomoto

Miguel Arcanjo Prado – Como foi ganhar o Fomento [verba municipal de incentivo ao teatro; o Satyros obteve R$ 729 mil] para fazer este projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias?
Rodolfo García Vázquez –
Ficamos felizes. Até porque ficamos quatro anos sem ganhar. A última vez foi em Cabaret Stravaganza. E ainda mais por ganhar nestes nossos 25 anos.

Como o projeto surgiu?
Em 2009, começamos a pesquisar o que resultou a peça Hipóteses para o Amor e a Verdade, que virou filme que será lançado neste ano. Aí começamos com a pesquisa do Teatro Expandido. Percebemos que a humanidade está vivendo um outro momento. Nós não somos só os nossos corpos.

E somos o quê?
Nós somos o corpo mais as extensões tecnológicas dele. Não se pode viver mais na sociedade sem próteses cibernéticas. Acho que se a humanidade existe hoje assim, o teatro não pode passar ileso a isso. Na época do Hipóteses, a gente trabalhou com telefonia, ligava para o público, abria a internet em cena. É uma coisa que já vínhamos desenvolvendo. Cheguei a escrever um artigo sobre isso no primeiro número da revista A[L]BERTO, que é publicada pela SP Escola de Teatro [Rodolfo faz parte do time de formadores da instituição].

Para quem o Teatro Expandido quer falar?
Para a humanidade expandida. Em Cabaret Stravaganza a gente falava de cirurgia plástica, de internet, de medicamentos que as pessoas tomam e que criam novas personalidades para as pessoas. Tudo isso tem impacto e cria uma nova forma de ser humano. A noção de identidade não é só mais física, é também digital.

A partir do alto, em sentido horário: Rodolfo García Vázquez se encontra com o colega Alexandre Reinecke na praça Roosevelt; o artista plástico uruguaio Pablo Benítez Tiscornia prepara os robôs; robô em cena no palco; e Fábio Ock e Bruno Gael terminam os vídeos do projeto – Fotos: Eduardo Enomoto

E quem compõe seu elenco?
Eu prefiro não chamar de elenco. Prefiro chamar de grupo de artistas. Temos umas 30 pessoas na equipe. São atores ciborgues falando para espectadores ciborgues. Os atores entram com celular em cena. Ele é uma prótese do ator.

Então, você não entrou na campanha contra o celular no teatro?
Eu não! Eu penso exatamente o contrário. O mundo está em outro momento. Não posso falar: “não ligue o telefone” para meu público. Eu tenho é de fazer um espetáculo tão bom que a pessoa não queira ligar o telefone!

A energia dos Satyros: ator José Sampaio pedala para iluminar cidade-maquete – Foto: Eduardo Enomoto

Como são os sete espetáculos?
No sábado agora, vamos fazer todos em sequência, para a estreia, e depois, no primeiro mês, vamos fazer um por cada dia da semana, com entrada gratuita. São peças curtas, entre 45 e 60 minutos. Cada espetáculo partiu de um binômio da questão ciborgue e teve um texto de um provocador convidado.

Como assim?
Por exemplo, o primeiro, Não Amarás, partiu do binômio “amor e solidão”. Os atores fizeram investigações a partir disso e o chamamos o psicanalista Contardo Calligaris para ser o provocador e escrever um texto. O segundo é Não Fornicarás, que aborda o sexo corporal e sexo digital, e teve texto da Rosana Hermann [colunista do R7]. O terceiro é Não Permanecerás, que aborda a relação espaço e tempo, com texto do jornalista Pedro Burgos. A quarta é Não Saberás, que fala de ciência e natureza, com texto do engenheiro genético Marcos Piani, que trabalhou no departamento de Defesa dos EUA. A quinta é Não Salvarás, que aborda fé e ateísmo e tem texto do escritor Xico Sá. A sexta é Não Morrerás, que aborda corpo e morte, com texto do médico Drauzio Varella. E, por último, a sétima é Não Vencerás, que fala de poder e individualidade, com texto da dramaturga Maricy Salomão.

Como você reuniu este time?
A gente já conhecia a maioria deles. Queríamos que escrevessem algo para eles mesmos. Lançamos um desafio e eles responderam.

Rodolfo García Vázquez no escritório dos Satyros em meio à cenografia de E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias – Foto: Eduardo Enomoto

E vai ter mais peça nestes 25 anos dos Satyros?
Sim, estamos ensaiando um texto do seu colega [o jornalista] Sérgio Roveri, que se chama O que Vem com a Maré, que terá três versões assinadas cada um por um diretor, um deles sou eu e os outros ainda estamos definindo. Vamos estrear em abril. E ainda vamos ter um infantil.

Agora vamos para a parte polêmica. Que história é essa de “peça do Satyros terá sexo explícito”?
O que é sexo explícito neste novo mundo? Se você ligar para uma mulher num telefone de bate-papo e fizer sexo com ela, ela ter um orgasmo, isso é sexo explícito?

Eduardo Enomoto [fotógrafo do R7] – Eu acho que não.

Rodolfo García Vázquez – Por quê?

Eduardo Enomoto – Porque acho que sexo tem de ter contato, pegação. Senão é sexo virtual, ninguém enconstou em ninguém.

Rodolfo García Vázquez – É isso que estamos questionando. Estamos falando de sexo expandido.

Miguel Arcanjo Prado – Deixa eu ser mais claro, então: vai ter sexo físico, com penetração?
Rodolfo García Vázquez – Eu te devolvo a pergunta: qual é o nome do projeto? E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias. Não é E Se Fez a Humanidade Física em Sete Dias. Então, vai ter sexo ciborgue. Será a primeira peça de sexo explícito cibernético do teatro brasileiro.

Houve muito burburinho quando se falou no tal “sexo explícito” na peça de vocês… Teve gente que já saiu condenando…
A gente já passou dessa fase de se assustar com sexo. Gente, o povo não viu nossa Trilogia Libertina? [peças dos Satyros com versões para os textos de Marquês de Sade que marcaram a trajetória do grupo]. Já fizemos isso de sexo há muito tempo. Falar sem ver é fácil. É preciso ver o contexto. As pessoas estão muito caretas. Quando estávamos começando em 1990 fizemos A Filosofia na Alcova. Uma amiga me falou: “duvido que você tenha coragem de montar isso”. Mas isso já tem 25 anos! Como as pessoas ainda se preocupam tanto com isso? Naquela época a gente tinha 20 e poucos anos e queria barbarizar mesmo. Hoje, eu não estou mais nessa fase, é o que eu posso te dizer.

Acha que há muita censura até mesmo dentro da classe artística?
Olha, eu vou defender sempre a liberdade de expressão. Porque a direita está se organizando muito e ocupando lugares que a esquerda deixou livre para a direita ocupar. E estou com medo deste mundo de hoje.

Rodolfo García Vázquez brinca com a boneca que integra a cenografia de sua obra – Foto: Eduardo Enomoto

Acha que as pessoas ainda não perceberam a força do mundo digital?
Eu sinto que as pessoas ainda não se deram conta do impacto brutal da ciência e da tecnologia em nossas vidas. Hoje você pode se confessar para o Papa pelo Twitter. A gente faz cenário com um aplicativo. Vou te mostrar [pega o celular e coloca um aplicativo que mostra o universo, com estrelas, planetas e constelações]. Olha isso, Miguel, se eu apontar para lá [virando-se para o balcão], ele me mostra que se eu for em linha reta eu chego em Júpiter. Isso é uma bússola astronômica.

O Galileu Galilei [astrônomo italiano, 1564-1642] iria cair para trás!
É isso que estou falando. Hoje qualquer um tem uma bússola astronômica! Você acha que tendo uma ferramenta como essa nas mãos eu vou me preocupar com pênis e vagina?

E como os atores reagiram à polêmica?
Eles ficaram com medo, é claro. Ficaram assustados. Porque teve gente de distorceu tudo. Olha, a gente já passou por muita polêmica na vida. E eu te digo uma coisa: Aqui nos Satyros nós não temos medo de polêmica!

Então me conta uma cena que você ainda não revelou para ninguém.
Está bom. Vou te contar. Tem dois atores vestidos de zebra. E eles simulam sexo. Aí, a gente transmite em tempo real para um site de encontros sexuais. E coloca essas pessoas que estão vendo no mundo todo ao vivo. Tem gente que gosta de ver duas pessoas vestidas de zebra transando. E até se masturba.

Trabalho nos bastidores dos Satyros: (a partir da esquerda) Daniela Machado, Carina Moutinho, Suzana Muniz, Rodolfo García Vázquez e Vinicius Alves – Foto: Eduardo Enomoto

É um novo teatro que você está propondo?
O teatro do jeito que as pessoas estão pensando vai morrer. Eu não quero mais falar da tradição. Daqui a 30 anos ninguém vai ser capaz de acompanhar a evolução dentro de sua própria área de atuação. A ciência e a tecnologia vão explodir o conhecimento humano. E eu não consigo pensar em uma arte que não esteja conectada umbilicalmente com seu tempo. Tem gente que fala que a gente é futurista. Estão errados. Gente, 2001 – Uma Odisseia no Espaço [filme de 1968 do cineasta Stanley Kubrick] já passou. Isso era futurismo. Estamos em 2014, no século 21.

Vi que você acaba de passar para o mestrado em artes cênicas da USP. Está gostando de voltar a estudar lá?
Eu fiz ciências sociais na USP, acabei não concluindo e fui fazer administração na Fundação Getúlio Vargas. Mas depois voltei nas sociais para fazer mestrado. Agora, ir para a ECA é um privilégio poder voltar a uma instituição tão desafiadora. Espero aprender muito.

O começo de uma história chamada Satyros há 25 anos: Ivam Cabral (de barba) e Rodolfo García Vázquez em uma mesa de bar no largo do Arouche, centro de São Paulo, em foto de 1989 – Foto: Arquivo pessoal

Outro dia o Ivam Cabral [cofundador do Satyros com Rodolfo] colocou na internet uma foto de vocês dois em 1989 no largo do Arouche. O que mudou daquele menino para este Rodolfo que está na minha frente?
Eu acho que aprendi a confiar mais em mim. Eu era muito ambicioso, o Ivam também, A gente ficava pensando em fazer algo importante. A gente era mesmo muito louco. Acho que com o tempo deixamos de dar ouvido a coisas que nos magoavam muito. Acho que estou mais feliz comigo agora.

E do que você morre de saudade naquele menino sonhador que você foi um dia?
O que eu sinto falta daquele período é ter um horizonte grande à frente. Naquela época eu tinha uma página em branco. Hoje a página já está metade escrita. Eu sinto saudade dessa página em branco!

Rodolfo García Vázquez em sua mesa de trabalho: “Sinto falta da página em branco” – Foto: Eduardo Enomoto

E Se Fez a Humanidade Ciborgue em Sete Dias
Quando: Sábado (8), maratona com todas as peças a partir das 16h até 1h; depois, uma peça a cada dia da semana, sempre às 19h. Até 28/9/2014.
Onde: Espaço dos Satyros Um (praça Roosevelt, 214, metrô República, São Paulo, 0/xx/11 3258-6345)
Quanto: grátis até 8/4/2014. Depois, R$ 20 cada peça.
Classificação etária: 16 anos

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