Entrevista de Quinta – Maurício Soares Filho mergulha em Drummond e provoca: “Quem nunca sonhou em ir para uma ilha deserta?”

O paulistano Maurício Soares Filho, em cena de Resíduo Drummond – Foto: Bia Serranoni

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator Maurício Soares Filho está mergulhado na obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Formado em artes cênicas e em letras pela Unicamp (Universidade de Campinas), ele se aventura no espetáculo solo Resíduo Drummond, em cartaz até 27 de abril no Teatro da Livraria da Vila do shopping JK Iguatemi, em São Paulo [veja serviço ao fim].

Com direção de Luciana Garcia, a obra é uma homenagem ao poeta itabirano. Em cena, a visão de mundo do grande mestre de nossa literatura, fruto de um ano de pesquisa, quando a dupla estudou em pormenores oito livros do poeta.

Apaixonado por Drummond, Maurício conversou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta. Falou de literatura, dos momentos marcantes nos palcos e ainda revelou o que deixa ele muito irritado.

Leia com toda a calma do mundo.

Ator e professor: Maurício Soares Filho é formado em letras e em artes cênicas pela Unicamp – Foto: Bia Serranoni

Miguel Arcanjo Prado – Qual a importância de ter feito letras além de artes cênicas?
Maurício Soares Filho – Primeiro entrei em Artes Cênicas na Unicamp, em 1987. Nossa, faz muito tempo! Logo, percebi que, embora o curso fosse ótimo e me atraísse muito, eu precisaria de uma base teórica maior para conseguir compreender os textos e mergulhar de cabeça na profissão de ator. O que eu não imaginava era que também seria tão feliz dando aulas e que me sentiria realizado na relação com os alunos por meio da literatura. No ano seguinte, 1988, prestei letras na própria Unicamp e consegui passar. Naquela época, era possível fazer dois cursos em uma universidade pública, desde que você fosse aprovado duas vezes no vestibular, que foi justamente o que aconteceu comigo. É claro que foi complicado, que vivi momentos de divisão e dúvida, mas, no final, deu tudo certo.

Como você vê a experiência de ser professor junto da profissão de ator?
Acho que a profissão de professor está diretamente relacionada ao trabalho de ator. A cada aula é como se estivéssemos representando um pouco e, especialmente em Literatura, o trabalho com textos também tem muito a ver com o teatro. O professor representa uma pessoa que ele não é, tem um texto na cabeça e precisa atingir seu público. Não é exatamente igual ao que acontece no teatro? Além disso, a movimentação dentro da sala de aula e a projeção vocal também são elementos que podem trazer um diferencial bem importante para o sucesso de uma aula.

Você tem uma história boa da época de aluno da Unicamp?
São muitas as histórias, é claro… Uma que posso destacar e que não é exatamente engraçada é justamente a do teste para o Macbeth que fiz quando estava terminando a Unicamp. Eu já dava muitas aulas e estava de casamento marcado, lua de mel e tudo! Aí apareceu essa chance e eu fui mais por desencargo de consciência do que por acreditar que conseguiria um espaço. Depois de um dia em Campinas, fui classificado para uma “segunda fase” em São Paulo que aconteceria durante uma semana, sempre das 14h às 23h todos os dias. Sem nenhuma garantia, sem nenhuma remuneração e tendo que “abandonar” provisoriamente o resto da vida inteira. Fui. E dei um jeito com as escolas, e consegui dinheiro (nem sei como) para ir e voltar de São Paulo todos os dias, e essa semana se transformou em três, porque o diretor Ulysses Cruz não se decidia… No final, fui o único escolhido de toda a leva que fez o teste em Campinas e foi um momento de realização que experimentei poucas vezes na vida! Eu nem comentei que iria casar e tal…

E como fez?
Bem pertinho do casamento eu pedi para faltar durante três dias, uma sexta, um sábado e um domingo para poder ir pelo menos até Campos do Jordão com minha esposa. Deu certo! Casei, fiz a peça, viajei muito com a companhia e consegui manter minhas aulas para o ano seguinte, porque sempre soube que o sucesso não duraria para sempre e que eu precisaria do dinheiro das escolas para sobreviver!

Quando você veio morar em São Paulo?
Sou de São Paulo. Nasci na rua Tamandaré (um dos locais em que trabalho hoje como professor), no bairro da Aclimação. Fui para Campinas apenas por causa da Unicamp e voltei para cá logo que me formei. Depois, fui me especializar em Londres, onde fiquei dois anos e meio estudando teatro. Voltei para o Brasil e passei de novo por Campinas. Atualmente moro em Perdizes, onde estou desde 2006 e não trocaria essa cidade por lugar nenhum! Mentira… Talvez pelo Rio de Janeiro, porque adoro uma praia [risos].

O que lhe atrai em São Paulo?
Gosto dos cinemas, dos restaurantes, da vida na avenida Paulista, gosto de me sentir no olho do furacão, onde tudo está acontecendo. Além disso, acho que este é o melhor lugar do Brasil para criar meus filhos, por todas as opções que uma cidade como essa oferece, apesar dos problemas!

Maurício Soares Filho é paulistano da Aclimação e vive em Perdizes, zona oeste de São Paulo – Foto: Bia Serranoni

Quem são seus pais?
Nasci em março de 1969, em São Paulo. Minha mãe é psicóloga e meu pai empresário e advogado. Ninguém tem qualquer relação com o meio artístico.

Quando você era criança o que mais gostava de fazer?
Sempre gostei de teatro e de televisão. Sempre! Gostava de decorar poemas, de fazer “showzinhos” para a família, de gravar músicas do rádio no gravador cassete e, você não vai acreditar, brincar de escolinha! Sempre fui um menino que preferia ficar dentro de casa, nunca gostei muito de esportes e nem de sair à noite. Embora seja muito extrovertido, sempre gostei de ler e escrever e passava muito tempo sozinho.

Por que você gosta do Drummond?
Eu gosto do Drummond porque ele traz respostas para as questões que me inquietam como homem contemporâneo. Ele fala sobre esse conflito que todos nós temos entre participação e alienação, o que não se refere apenas à questão social, mas também às atitudes que temos frente à vida. Podemos simplesmente construir uma vida tranquila, em uma ilha deserta e cuidarmos das nossas questões individuais sem olhar para o mundo em torno? Isso é possível? Como sobreviver em um ambiente tão árido como é a sociedade de hoje em dia em tantos aspectos? Quem nunca sonhou em abandonar tudo e ir para uma ilha deserta se isolar?

Todo mundo…
Aprendi a gostar de Drummond na sala de aula e tudo começou com o livro Rosa do povo, considerado uma das suas obras-primas. Preparei uma aula especial sobre essa obra e aquilo me instigou, me moveu muito. A partir daí, percebi o potencial teatral que aqueles textos traziam e resolvi transformar tudo o que sentia em um espetáculo que falasse, não sobre o Drummond, mas sobre tudo o que ele pode transmitir e representar para quem se dispõe e lê-lo ou, no nosso caso, a vivenciá-lo no teatro.

Qual poesia do Drummond você mais gosta?
Puxa! São tantos. Gosto muito do poema Resíduo, que dá nome ao espetáculo. Versos como “Abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória” falam diretamente à minha alma. Ainda mais no meu caso, que sou o tipo de cara que se lembra de tudo! Isso pode ser uma benção, ou uma praga! Gosto também bastante de um texto chamado Mãos Dadas, que termina com a afirmação: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente!” Como eu disse antes: gosto das obras que dialogam comigo, que respondem às minhas buscas mais íntimas!

Por que você resolveu ser ator?
Não resolvi ser ator. Sinto que isso estava resolvido desde a minha concepção. Não me lembro de algum dia em que tenha cogitado não representar, não fazer teatro. Tenho mesmo a sensação de que esta decisão é anterior à minha existência em si. Aliás, o amor pelo teatro é tão grande e tão complicado que, se pudesse decidir, provavelmente não faria uma opção tão complexa! Que eu seria ator, eu sempre soube, a questão era como. Optei pela universidade porque acredito no estudo e na preparação física e intelectual como um caminho para o artista se instrumentalizar. Afinal, como disse muitas vezes a Fernanda Montenegro: “o trabalho do ator é composto de 5% de inspiração e 95% de transpiração!”.

Você também escreve poesia?
Não escrevo poemas não. Não me sinto capaz de fazer isso. O contato com os textos do Drummond e do Fernando Pessoa me fez perceber que esse tipo de coisa não é pro meu bico! Gostaria muito de escrever um livro de ficção. Tenho planos e até metade de uma primeira incursão na literatura esboçada!

O que te irrita nas pessoas?
Muita coisa me irrita. Acho que sou um cara bem irritado! Talvez o pior seja aquele tipo de pessoa que vive como se não existisse mais ninguém. É o cara que olha as mensagens de celular no cinema, que estaciona o carro sem observar as faixas que dividem as vagas, que para o carrinho de supermercado no meio do corredor e que fica rindo e falando alto no restaurante. Aliás, falar durante um filme no cinema também é algo que me deixa irritadíssimo! Como eu disse, sou, em geral, bem irritado [risos].

Qual peça você mais gostou de fazer em sua carreira?
Vivi momentos inesquecíveis ao lado de Antonio Fagundes em Macbeth, de Shakespeare, dirigido por Ulysses Cruz. Viajamos o Brasil inteiro e éramos um elenco muito grande. Fiz vários amigos e tínhamos sempre casa lotada, além da oportunidade de falar o texto do Shakespeare, é claro! Isso foi em 1992 e eu tinha acabado de me casar e de me formar na Unicamp. Posso dizer que foi um período de sonho, de verdade! Mais recentemente tive a honra de trabalhar com Silnei Siqueira, um grande diretor de teatro recém-falecido e com quem fiz O Apocalipse ou o Capeta de Caruaru, de Aldomar Conrado. O texto é muito engraçado e foi encenado pelo Teatro do Largo, um grupo que nasceu dentro da faculdade de direito do Largo São Francisco e no qual trabalhei durante algum tempo. Mas é com o Resíduo que tenho tido as alegrias de hoje em dia. O trabalho de direção da Luciana Garcia trouxe uma linha para os poemas, criando uma história que conduz o espectador de uma maneira que eu nunca pensei que seria possível. Tenho me sentido abençoado por ter a oportunidade de estar em cartaz na cidade que eu amo, com uma equipe tão talentosa e dizendo esses textos que me dizem tanto respeito. Sou um cara de muita sorte.

Por que você faz teatro?
Faço teatro porque não consigo viver sem isso. É bem simples, na verdade. Já tentei ficar um tempo longe do palco e sempre ficava bem mal. O contato com o texto, com o personagem e, principalmente, com o público me alimenta. Além dessa necessidade quase egoísta, estou em um momento em que de fato acredito que sou um instrumento que pode transmitir os textos do Drummond para pessoas que talvez ainda não o conheçam e, se já o conhecerem, podem começar a vê-lo por ângulos diferentes. O teatro é o veículo que uso para chegar até as pessoas e transmitir tudo o que penso sobre estar vivo!

O ator Maurício Soares Filho: “No teatro transmito tudo o que penso” – Foto: Bia Serranoni

Resíduo Drummond
Quando: Sábado, 20h, domingo, 18h. 75 min. Até 27/4/2014
Onde: Teatro da Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi (av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, São Paulo, tel. 0/xx/11 5180-4790)
Quanto: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos


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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Será que meu comentário foi perdido em mais uma falha operacional?

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