Opinião: Fernanda desafiou a fantasia e apanhou

Agraciada com Prêmio Shell de melhor atriz, Fernanda Azevedo discursa contra a empresa multinacional; a fala da atriz gerou reação controversa de alguns membros da classe artística paulistana – Foto: Paduardo/AgNews;

Por KIL ABREU*
Especial para o Atores & Bastidores

Como disse o [dramaturgo] Mario Viana, o Miguel fez o que precisava ser feito: ir ouvir melhor a Fernanda Azevedo sobre o porquê de ter dito o que disse ao receber o Prêmio Shell de Teatro.

Fui do júri do Shell por sete, oito anos. Não estou entre os que julgam que basta se colocar fora das estruturas para que as coisas se modifiquem (o que supõe já a pretensão de que nossa presença ou ausência faz alguma diferença).

Ainda acho que se você tem algo a dizer e a fazer isso pode/deve ser dito e feito em qualquer lugar onde haja espaço. Desde que seja de verdade. Salvo engano, foi o que a Fernanda Azevedo fez, à maneira dela.

Como não achar coerente – e até esperado – que uma artista vinda da cena militante se posicione dessa forma? O contrário é que seria triste.

Em uma época na qual ter ponto de vista em arte é quase uma ofensa deveríamos aplaudir senão a fala ao menos a atitude (se é que uma coisa pode ser separada da outra).

O Miguel fez bem ao ir tentar esclarecer o ponto de vista. Não precisamos concordar, mas ele está lá.

Leia entrevista exclusiva com Fernanda Azevedo
Veja a cobertura completa do Prêmio Shell de Teatro de SP

Curioso é que os colegas de ofício da Fernanda a condenem em geral não pelo teor do discurso, mas, sobretudo, por não ter devolvido o cheque. A mediação, portanto, é feita pela grana (que, aliás, é indecente se for igual a dos últimos anos) e pela imagem que o Premio projeta.

Não deixa de ser uma maneira de empenhar ali uma fantasia, uma expectativa em relação a algo tão especial no imaginário que não pode ser objeto de crítica. Desafiou a fantasia, apanhou.

Nem eu, que já trabalhei para a Shell e não sou artista, faria certas defesas de uma maneira tão contundente.

*Kil Abreu é jornalista, mestre em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo), crítico teatral, ex-jurado do Prêmio Shell de Teatro e curador teatral do CCSP (Centro Cultural São Paulo).

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2 Resultados

  1. Felipe disse:

    Kil disse tudo. Provavelmente o “post” definitivo sobre o assunto e escrito por alguém com conhecimento de causa.

  1. Março 25, 2014

    […] Leia ainda: MIGUEL ARCANJO PRADO – Deixem a Fernanda Azevedo falar! BRUNO MACHADO – Fernanda tem direito à incoerência KIL ABREU – Fernanda desafiou a fantasia e apanhou […]

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