Crítica: Peça Sala de Espera faz grito contra burrice do sistema com humor fino e inteligente

Sala de Espera: grito contra o sistema com humor inteligente – Foto: Giorgio Donofrio

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Uma estudante conta à amiga que quase foi agredida porque confundiu o número de sua senha em uma sala de espera e, por pouco, não passou na frente de uma senhora, que começou a insultá-la com veemência.

Em um apertado guichê de uma repartição federal, novos imigrantes paulistanos penam para conseguir vistos de permanência no País. Atendentes são pouco claros quanto aos documentos exigidos, fazendo com que o processo seja penoso e duradouro. Porque sempre falta um documento ou uma autenticação.

Situações angustiantes e corriqueiras como estas estão por toda parte, em cada sala de espera espalhada pelo mundo. A energia destes locais, aos quais só vamos se obrigados pelas circunstâncias, costuma ser mesmo pesada. É possível sentir no ar a irritação de todos naquele tempo suspenso, quase sem fim.

Carimbos e autenticações: a burrice do sistema é exposta no espetáculo Sala de Espera – Foto: Giorgio Donofrio

O grupo Eco Teatral resolveu lançar um olhar poético e artístico para tal situação incômoda e incontornável na peça Sala de Espera.

Na montagem, o diretor Thiago Franco Balieiro – que contou com assistência de Bruna Lima – abusa de imagens e coreografias com seu elenco para criar situações com as quais qualquer um se identifica. É uma obra que comunica com o homem, explicitando como as pequenas situações de poder geralmente andam casadas com a mediocridade. Assim, Sala de Espera é uma obra universal.

O enredo foi inspirado na fábula Diante da Porta da Lei, integrante do livro O Processo, do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Nele, um homem se vê diante da burocracia na qual está mergulhado um detentor de poder público.

A repartição, com toda sua frieza, se instaura no palco, onde o homem, acompanhado de outros três reclamantes na fila, precisa, pacientemente, aguardar sua vez, com a senha em mãos, em meio a muita espera.

A encenação aposta em uma teatralidade inspirada no cinema mudo, com gestos grandes e próximos ao mundo circense. Assim, boa parte dos sons emitidos pelos personagens são ininteligíveis, sem prejudicar, contudo, a compreensão das cenas.

A direção aposta em signos simples que são reforçados por uma atuação intencionalmente exagerada. Contudo, surge um pequeno ruído: nas cenas em que o homem (Luiz Gustavo Luvizotto) e o funcionário público (Paulo Balistrieri) falam português audível, há um embate com a estética já estabelecida na obra. Assim, tais cenas vão de encontro ao todo da montagem, já que tiram o espectador da fantasia na qual já embarcou. Ouvir palavras conhecidas parece sublinhar desnecessariamente o que já estava subtendido com a intenção tão presente no elenco.

O grupo de atores está unido e coeso na proposta da encenação. A energia masculina domina a montagem, com a força a todo o momento entrando em confronto com a razão – até porque a razão presente parece irracional.

O trio que faz o coro é a grande costura na dramaturgia. São eles quem dão sentido a tudo simplesmente com sua permanência, ora violenta, ora resignada.

João Attuy surge simples e poético com sua gaita, com um corpo já amansado pela espera e a desilusão. Já Chico Ribas abusa da ironia na construção de seu personagem. Rafael Lozano também tem ótimos momentos, sobretudo quando sustenta ares de macho alfa naquele grupo de personagens à beira do fracasso moral.

O tempo não passa: angústia das salas de espera mundo afora é explicitada – Foto: Giorgio Donofrio

Luvizotto mergulha na angústia de forma crível, com uma atuação que caminha por linha tênue, mas condizente com a obra. O desespero de seu personagem é perceptível e chega à plateia. No momento em que seu personagem resolve agir de forma revolucionária e enfrentar o sistema, sofre as consequências de tal decisão, como sempre acontece.

Se Balistrieri parece exagerado no começo da obra, logo seu frenesi é justificado pela estética da encenação – e até mesmo pela dramaturgia, que explicita a excitação com cheiradas que mantêm o personagem ligado em sua função.

Como diretor, Balieiro se destaca ao pensar o palco como um quadro no qual desenha belas imagens – algumas até flertando com a dança para criar coreografias. A cena do hospital é realmente um grande achado na encenação, pela simplicidade e veracidade com que transforma tudo como num passe de mágica.

Sala de Espera é um espetáculo de humor fino e inteligente, que toca em um assunto recorrente de uma forma simples, mas que consegue unir poesia à força de um grande ataque. O espetáculo é um curto grito contra a burrice do sistema, antes que surja alguém para abafá-lo.

Sala de Espera
Avaliação: Bom
Quando: Sexta, 21h. 50 min. Até 30/5/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (pça. Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Felipe disse:

    Certamente é um grito contra a burrice do sistema que afoga os indivíduos no seu mar de burocracias.

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