“É uma idiotice, é um horror!”, diz Gerald Thomas

Gerald Thomas (ao centro) posa com elenco de seu novo espetáculo, Entredentes: Maria de Lima, Ney Latorraca e Edi Botelho; estreia dia 10 no Sesc Consolação, em SP – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

Gerald Thomas é um dos nomes mais inventivos e polêmicos do teatro. Sem medo de dizer o que pensa, ele mantém a verve nesta entrevista exclusiva ao Atores & Bastidores do R7.

Apesar de ter cancelado sua participação no Festival de Teatro de Curitiba, o diretor fará a estreia mundial de sua nova peça, Entredentes, no próximo 10 de abril, no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. No enredo, o encontro de um islâmico radical com um judeu ortodoxo no Muro das Lamentações, em Jerusalém, Israel.

A montagem marca a volta dele ao território nacional. E ainda comemora o reencontro do diretor com dois atores amigos: Ney Latorraca, que completa 50 anos de carreira, e Edi Botelho, o ator que mais trabalhou com Thomas. Completa o elenco a portuguesa Maria de Lima, pincelada num dos muitos testes que o diretor fez. Thomas diz que é “uma gigantesca atriz”.

Na conversa, o diretor explica por que não foi a Curitiba. E fala o que pensa da burrice do brasileiro, das manifestações, dos black blocks, do conflito no Oriente Médio, da invasão da Rússia na Ucrânia e até do protesto da atriz Fernanda Azevedo no último Prêmio Shell de Teatro de São Paulo, que não tomou conhecimento, mas opinou mesmo assim. Algumas coisas classificou como “idiotice”. Outras preferiu a palavra “horror”.

Porque como bom artista que se preze, Thomas não tem medo de perguntas. Nem de respostas.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quando e por que você teve a ideia de Entredentes? Quanto tempo levou desde o começo de tudo até a estreia?
GERALD THOMAS – Olha, a ideia surgiu durante a tournée com a  minha London Dry Opera Company (viajávamos com Gargolios) e passei pelo Rio pra visitar o Ney e o Edi, em abril de 2012. No terraço da casa deles, ficamos horas vendo o trânsito absurdamente engarrafado na lagoa Rodrigo de Freitas. Esbocei um texto. E lá surgiu. É fascinante como as coisas são. A peça estreia exatamente dois anos depois de ser concebida.

Entredentes toca em um assunto sempre polêmico, que é a disputa entre judeus e palestinos. Qual o recado da peça para este conflito?
GT – O recado é que um simples beijo de amor entre os dois poderia resolver. Uma simples troca de vestimenta/figurino, faz de todas essas disputas, uma enorme idiotice. Mas claro, estou no campo da utopia. Como conheço o território (Israel, Gaza e Cisjordânia) e países do Oriente Médio, sei que o buraco é mais embaixo. Milenar: sunitas contra xiitas contra aloitas contra itas e itas. Uma peça de teatro sublinha algumas questões e levanta milhares de outras. Essa questão tribal entre seres humanos é uma triste metáfora às inversas sobre uma falsa ideia de “globalização” que só veio pra reforçar a ideia de nacionalismos e xenofobias acirradas e cada vez piores. Não serei eu a resolver. Fico feliz que Nelson Mandela tenha sido um herói na questão de reconstruir seu país de uma ruína racial e horrenda. Não pretendo tanto! Mas a peça não fala de palestinos e sim de islâmicos radicais e ortodoxos radicais, como os judeus hassidicos (a Palestina está incluída).

Como Ney Latorraca reagiu ao convite? Como é voltar a trabalhar com ele?
GT- Ah, é uma delicia. O Ney é uma delicia porque ele “saboreia e se delicia no palco”. Para quem é rato de teatro como eu, tenho de me vigiar pra não ter acessos de riso durante o ensaio: o ideal mesmo seria fazer um Being Ney Latorraca. Diferentemente de John Malkovich, o Ney faz com que todos nós, em volta… Diz assim a atriz Maria de Lima na peça: “Como vocês brasileiros dizem Ney no plural?” E o Ney responde: “NeyS, com S”. Ano que vem, serão 20 anos de amizade e trabalho com o Ney. Nos visitamos na minha casa em Londres e em Nova York (mas Quartett também foi ensaiado no palco do grupo Dogma 95, com quem eu fiz Chief Butterknife, em Copenhagen, 1996).

Por que, além do Ney, você escolheu os outros dois artistas do elenco, Edi Botelho e Maria de Lima?
GT- O Edi está comigo desde 1987 (Trilogia Kafka) e viajou o mundo comigo, às vezes no papel principal, como em M.O.R.T.E 2 em Taormina (Sicília, Zurique, Roma e Munique). Além do mais, onde está o Ney, está o Edi. Eu o amo. Além disso, o Edi viajou o mundo comigo durante a Trilogia Kafka (New York no La MaMa, 1988) e o Wiener Festwochen (Festival de Viena, 1989) e participou da minha montagem italiana de Said Eyes of Karlheinz Ohl (Os Ditos Olhos Tristes de Karlheinz Ohl) feito com a Cia. do Grotowski em Pontedera, Italia, em 1990. Quanto a Maria de Lima, a descobri durante os árduos testes em Londres em 2010, pra Throats, a primeira peça da London Dry Opera. É uma gigantesca atriz, algo fenomenal. Você verá em cena: é de arrepiar.

Você tem opinião formada sobre a atriz Fernanda Azevedo, que virou alvo de polêmica na classe artística por discursar contra a Shell [dizendo que a empresa apoiou a ditadura] ao receber o Prêmio Shell de melhor atriz na semana passada?
GT- Desculpa, mas não sei quem é e do que se trata. Mas posso falar da idiotice desses prêmios. Eu mesmo deixei cair (de propósito) a estatueta do Molière (ganhei dois, acho, e achei ridículo aquilo tudo). Caiu e virou cal, giz em pó. Acho o Oscar uma besteira, o Globo de Ouro outra besteira e assim por diante. Não podemos ser endossados pela classe média. Estamos à frente deles. Se nos endossam é porque endossamos os valores deles e quero que se fodam. Sigo o exemplo do meu mestre (com quem trabalhei) Samuel Beckett que não deu a mínima pro Nobel que ganhou em 1969 e nem foi recebê-lo.

Você acha que os artistas de teatro estão mais caretas hoje em dia? Por quê?
GT- Claro que estão. A resposta está em vários lugares: não se ousa mais em teatro e temos a TV e a internet que discutem os assuntos antigamente “fritos” somente nas frigideiras teatrais. E com essa fritura vinha um enorme risco. Hoje todos querem sucesso. Não entendo isso. Eu amo o risco! O mundo deu uma encaretada horrenda. Sou filho dos anos 60 e demonstrei nas ruas de Nova York contra a Guerra do Vietnã, militei na Amnesty International em Londres, na década de 70, e fui a Woodstock antes da industrialização de tudo! Eu lia a coluna de Bernard Levin no Guardian e… Não, não sou nostálgico: sei que um Schoenberg surgira dessas cinzas atuais [risos].

Por que Entredentes foi anunciado no Festival de Teatro de Curitiba 2014 e depois caiu da programação?
GT- Porque adiei a estreia em São Paulo. Eu não pude chegar no Brasil pra continuar os ensaios no dia marcado (coisas a ver com o La MaMa em Nova York) e não via sentido em fazer tudo corrido e mal feito. Pra quê? É a volta do Ney aos palcos depois do piripaque, o coma, que sofreu por 67 dias, e minha primeira produção com atores brasileiros em palcos daqui desde 2008 (Kepler, The Dog). Pra que apressar? Então transferimos a estreia pro dia 10 de abril [no Sesc Consolação, em São Paulo], e o Festival de Curitiba já terá acabado nessa data.

Quais grandes diretores do teatro brasileiro você gostaria de convidar para ver Entredentes? Por quê?
GT- Olha, eu não convido ninguém. Nem brasileiros e nem sei lá de onde. Não acredito mais em nacionalidades. E não acredito em teatro com bandeiras nacionais de país algum. São todos bem-vindos.

Qual sua opinião sobre a invasão da Rússia na região ucraniana da Crimeia?
GT- Essa região do mundo tem definições ambíguas. O que é russo e o que é ucraniano e o que é polonês é uma questão de 300 anos. Somos nós, os ocidentais, que criamos fronteiras e decidimos que o Iraque será o Iraque, que o Irã será o Irã e assim por diante. Se voltarmos aos povos babilônicos ou a Constantinopla, depende do império em vigor, essas fronteiras mudam. Essa Rússia de Putin e dos filhos da Putin só existe desde a Perestroika de Gorbachov/Reagan. O “império soviético” ainda esta de pé. E, economicamente, o Putin fez milagres para que a Rússia se recuperasse do fracasso soviético e de Boris Yeltsin. Então, é como o território do Acre ou o Alaska. Um já foi da Bolívia e o outro, da Rússia e, em 20 anos, não estaremos sequer lembrados do que foi o quê. Alguém, por acaso, sabe que a Alemanha só foi unificada por Bismark e faz (relativamente) pouco tempo? Ainda vai rolar muito sangue.

Qual sua opinião sobre as recentes manifestações no Brasil desde junho de 2013?
GT – Achei lindo. Lindo. Pena que foi esvaziada por um bando de imbecis (os black blocs) e virou violência. Tinha o potencial de ser uma manifestação pacífica, reclamando por direitos básicos num país que não cuida de sua infraestrutura, mas constrói estádios de futebol e endossa a corrupção (Mensalão, entre outras). Pena.

O golpe militar no Brasil completa 50 anos. O que o Brasil ainda não aprendeu com sua própria história?
GT – E nunca aprenderá porque o governo quer manter o povo emburrecido. Aliás, o próprio povo parece querer continuar emburrecido. Como aqui estamos “retumbando as margens plácidas do rio Ipiranga” há tanto tempo, retumbaremos por mais uns séculos: levantes, revoluções são feitas com sangue e não com o chopp na praia e o jogo do Flamengo aos domingos ou essas novelinhas das 13h, 14h, 15h, 16h, 17h, 18h, 19h, 20h, 21h, 22h, 23h, 24horas. É um horror!

Leia a cobertura completa do R7 no Festival de Teatro de Curitiba!

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

Você pode gostar...

3 Resultados

  1. Felipe disse:

    Um horror é aquele ensaio de Bárbara Paz com os Black Blocs, algo impressionantemente “fake”. Realmente aquilo é um horror.
    Quanto à questão palestina, acho que muito pouco foi explorado. É preciso que haja espaço para que os dois lados se manifestem. Gostaria de ver uma obra realmente imparcial acerca do assunto, pois, até o presente, não tenho conhecimento. Se existe, desconheço e até gostaria de saber, para poder ver.

  2. Daniel Feingold disse:

    Conheço o Gerald há mais de vinte anos. Tivemos chance de conviver uns dez em NY. O vejo sempre como um grande questionador, um meta historiador, um mordaz cheio de ironia. Sua cena é sempre inteligente, plasticamente linda. Dirige o ator extraordinariamente bem e se entrega ao conteúdo experimental que transborda da construção cênica. Execrar o status quo pervasivo é o mínimo que pode se esperar de Gerald. Sempre que aparece no Brasil achincalha os gagás conservadores. Salve sempre este amigo mais lúcido e saudável!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *