Coluna do Mate: Teatro tomou partido contra ditadura civil-militar brasileira, entre 1964 e 1985

Dias Gomes: um dos muitos artistas que resistiram à ditadura civil-militar – Foto: Reprodução

Sujeitos e grupos teatrais se posicionaram contra regime instaurado 50 anos atrás

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE
Especial para o Atores & Bastidores*

Toda ditadura é perversa: não há boa ditadura. Ditaduras se impõem e passam por cima de tudo feito tratores e se instauram de modos intervencionistas. Nenhuma ditadura é apenas militar, mesmo aquelas chamadas de militares – como a brasileira (de 1964 a 1985) – sempre contaram com sujeitos e instituições da vida civil para apoiá-las e trabalhar a seu serviço. A ditadura civil-militar brasileira, dentre outros apoios institucionais, teve apoio de órgãos da grande imprensa, talvez por haja tanta insistência em se suprimir a participação civil em sua designação.

Os mais diversos motivos, ao longo de toda a história, têm levado os artistas a escolherem os assuntos que darão sustentação aos textos dramatúrgicos. Acontecimentos históricos, singularidades humanas, ocorrências pessoais, narrações ouvidas, necessidade de registrar as mais diversas impressões sobre assuntos candentes, ou não… Tudo pode servir de base para a criação de uma história apresentada por ato representacional no qual atores e atrizes venham a assumir total ou parcialmente as personagens da narrativa. Experimentos assumidamente estético-sociais tendem a colher seus assuntos do momento histórico vivido. Em razão disso, e tendo em vista a amplitude da forma teatral, cujo fenômeno acontece quando o espetáculo é apresentado, escolhas temáticas podem facilitar as trocas relacionais entre a obra e o público. A organização pelos assuntos de natureza mais amplos, complexos e histórico-políticos, normalmente, se organiza a partir de pressupostos ligados ao que se chama de teatro épico.

O teatro épico compreende a junção de diversos expedientes, quase sempre estruturados na condição de obra que se assume teatral, isto é, que considera o público (mesmo que a luz da plateia esteja apagada) e se relaciona com ele. Nesse modo de apresentar um espetáculo, a relação essencial pressupõe o jogo que se estabelece entre artistas e espectadores: o espectador não sente apenas as emoções das personagens, mas consegue ter um ponto de vista crítico com relação às personagens e ao tema.

Nesse particular, e no sentido de atingir seus alvos, o teatro épico organiza-se a partir de uma narrativa episódica (dividida em partes autônomas e independentes e articuladas ao tema geral). A independência dos episódios forma unidades de significação (como cada capítulo de uma telenovela), os assuntos são sociais e históricos; as personagens precisam ser mais concisas e sem tantos meandros psicológicos.

Bertolt Brecht: teatro educa e diverte – Foto: Divulgação

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht, ao retomar expedientes do teatro popular e de feira, e sempre atento ao teatro como um experimento estético-social afirma que o teatro tem como função educar e divertir: para ele, educar no sentido de construir uma sociedade mais justa; e, divertir, no sentido de ampliar, de modo prazeroso, a própria apreensão da realidade social. Fundamentado em preceitos brechtianos, o diretor Antônio Mercado, que dirigiu o texto Campeões do mundo, de Dias Gomes, afirma no prefácio da obra, publicada (em 1979), que o teatro é um importante instrumento de ampliação de consciências, que nada muda por si, mas que pode levar o espectador a tornar-se um agente ou protagonista das mudanças fora do palco, no “grande teatro do mundo”.

O teatro também, dependendo de como se apresente (conteúdos, espaços, modos de produção e de recepção), pode ser uma forma de luta contra a opressão, injustiça, os procedimentos de exclusão… Entretanto, trata-se de uma forma estética, que pode mudar certos modos de ver e conceber as estruturas e comportamentos sociais, mas, em si, o teatro não muda as estruturas. A produção dramatúrgica brasileira, e em sendo o Brasil um país periférico, desenvolve-se de modo desigual.

Obras que recortam seus assuntos das crises reais do mundo e apontam o “verdadeiro teatro” como aquele presente no mundo real, tendem, pelo assunto e função social atribuída à arte, a ser épicas, por excelência. Quando a ditadura civil-militar brasileira tomou de assalto a democracia diversos textos, sujeitos e grupos teatrais posicionaram-se contra o novo regime.

No sentido de entender, de algum modo, aquela dramaturgia de texto mais ligada ao momento histórico, e nesse caso, dramaturgia ligada ao processo ditatorial pelo qual passou o país, diversos textos poderiam ser evocados e aqui lembrados.

Gianfrancesco Guarnieri: peças contra a censura – Foto: Divulgação

Dentre tantos outros, podem ser destacadas: À prova de fogo (1968), de Consuelo de Castro; Bumba, meu queixada (1978), de César Vieira; Milagre na cela (1977), de Jorge Andrade; O último carro (1967), de João das Neves; Sinal de vida (1972-1979), de Lauro César Muniz; Campeões do mundo (1979), Dias Gomes; Murro em ponta de faca (1978), de Augusto Boal; os textos presentes no livro Feira brasileira de opinião (1978): O engano*, de Carlos Henrique Escobar; Última instância*, de Carlos Queiroz Telles; O túnel*, de Dias Gomes; Janelas abertas*, de Gianfrancesco Guarnieri; O quintal*, de João das Neves; A zebra, de Jorge Andrade; O mito, de Lauro César Muniz; Sobrevividos, de Leilah Assunção; Contatos amazônicos do terceiro grau, de Márcio Souza; Cemitério sem cruzes, de Maria Adelaide Amaral. Com relação às obras apontadas com asterisco, todas estão coligidas no livro Feira brasileira de opinião (1978), e, segundo a apresentação de Ruth Escobar, que foi também quem organizou o espetáculo censurado, assim aparece em seu texto:

A Feira Brasileira de Opinião se coloca na trincheira que batalha os novos tempos – o homem novo, o homem integral que será o produto da superação de todas essas divisões herdadas: divisão de classes, divisão de trabalho intelectual e manual, divisão entre o culto da arte e arte popular.

E quando reunimos os autores em torno da proposta de uma Feria Brasileira não pensamos em termos de arte. Mas sobretudo em termos de retratar o homem brasileiro “aqui e agora”, sobretudo com a preocupação de apontar o perfil dos subúrbios do Brasil, onde este governo revela seu verdadeiro rosto.

Os sujeitos são portadores de um conjunto de crenças. Crenças, tantas vezes idealistas e contraditórias, entretanto, chamados para escrever sobre o que se passava nos subúrbios do país, os 10 autores da Feira Brasileira de opinião não se negaram a fazê-lo. O conjunto dos textos revela um documento absolutamente singular do país sob Estado de Sítio, desde 13 de Dezembro de 1968, quando foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5) que cessava os direitos constitucionais.

Outros textos, igualmente importantes a tematizar o Brasil sob a ditadura foram: A ferro e fogo (1981), de Luiz Carlos Moreira, apresentado em São Paulo pelo Grupo Apoena (hoje chamado de Engenho Teatral); Bailei na curva (1986), de Júlio Conti Neto, estreou em Porto Alegre com o Grupo Do Jeito que Dá; Bella ciao (1982); Gota d’água (1975), de Paulo Pontes e Chico Buarque de Hollanda; Morte aos brancos, a lenda de Sepé Tiaraju (1984), de César Vieira, apresentado pelo grupo Teatro Popular União e Olho Vivo; Ponto de partida (1976), de Gianfrancesco Guarnieri – tematizando o assassinado, em setembro de 1975 do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo; Patética (1976), de João Chaves Ribeiro Neto; Rasga coração (1974), de Oduvado Vianna Filho.

Tendo em vista os limites do espaço aqui disponível, seria impossível apresentar informações das obras aqui apontadas, mas conhecê-las (e à exceção de A ferro e fogo) todas as obras foram publicadas. Se determinadas obras lidam e se estruturam a partir de sujeitos isolados, naquelas acima apontadas os sujeitos protagonistas (ou com função protagônicas), apresentam-se normalmente agrupados e compreendem muito mais do que apenas a si mesmos. Representando agrupamentos sociais, nas obras apontadas, homens e mulheres lutam contra forças destruidoras e arrasadoras.

Cartaz de Bella Ciao, marco do teatro brasileiro – Foto: Divulgação

Bella ciao, por exemplo, encontra-se entre os mais importantes textos da década de 1980. Segundo seu autor, Luís Alberto de Abreu – que na ocasião assinou a obra como Alberto de Abreu -, “O processo de trabalho de Bella Ciao iniciou-se no final de 1980 quando a classe trabalhadora, depois de anos de silêncio forçado, solidificava sua posição dentro do espaço político nacional. E sentimos a necessidade de tentarmos aproximar a nossa arte da realidade que palpitava nas ruas.” Trata-se, portanto, de acordo com a declaração que aparece no programa da peça, dirigida por Roberto Vignati, de obra atenta ao processo de democratização do país, a partir de greve de trabalhadores deflagrada em São Bernardo do Campo. Segundo diversas declarações dos integrantes do Grupo Arte Viva – formado por Cacá Amaral, Calixto de Inhamuns, Christiane Tricerri, Gabriela Rabelo, Mário César Camargo, Rosaly Grobman e Zécarlos Machado – do consistente processo de pesquisa sobre os acontecimentos da vida política brasileira, Abreu produziu Bella ciao e Cala boca já morre, cuja estreia ocorre em novembro de 1981, com direção de Ednaldo Freire. Cenografia e figurinos: Irineu Chamiso Jr. Expressão corporal: Rosa Almeida. Efeitos sonoros e escolha de músicas: Roberto Vignati. Música Addio bella Itália, com Solano de Carvalho. De 09/11/1982 a 01/01/1984. Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB).

Do ponto de vista de gênero, Bella ciao é um drama épico, dividido em dois atos, sendo no primeiro e no segundo ato. A narrativa desenvolve-se de 1905 (na Itália) até 1937, quando, politicamente, ocorre a implantação de uma ditadura civil por Getúlio Vargas, denominada por Estado Novo (1937 a 1945). Basicamente, aspectos da história do Brasil (e em particular da cidade de São Paulo), atravessam uma família italiana migrante, e moradora na pauliceia desvairada.

Cenografia e figurinos: Irineu Chamiso Jr. Expressão corporal: Rosa Almeida. Efeitos sonoros e escolha de músicas: Roberto Vignati. Música Addio bella Itália, com Solano de Carvalho. De 09/11/1982 a 01/01/1984. Teatro TAIB.

Patética (ou A verdadeira história de Glauco Horowitz), de João Ribeiro Chaves Netto, narrra, no circo, a história de uma família judia, que foge do nazismo e cujo único filho acaba sendo assassinado em uma ditadura militar. Trata-se da história do já mencionado Vladimir Herzog. O texto participou e foi o primeiro prêmio do Concurso Nacional de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro (SNT), de 1977. A montagem teve a seguinte ficha técnica: Direção: Celso Nunes. Assistência de direção: Edson Barbieri. Cenografia e figurinos: Flávio Império. Cenotécnica: Adilson Tadeu e Chimanski. Iluminação: Luís Ricardo Oliveira. Elenco: Ewerton de Castro, Antonio Petrin, Regina Braga, Lílian Lemertz, Vicente Tuttoilmondo e Orlando Oliveira Silva. De 30/04/1980 a 30/11/1980. Teatros Arthur Azevedo, João Caetano e Auditório Augusta.

Obs.: pelo fato de o texto fazer referência a Vladimir Herzog, a obra ficou censurada por aproximadamente 5 anos. Segundo matéria de divulgação, a peça foi escrita em 20 dias, logo após a notícia do “suicídio” do jornalista, ocorrido em 25/10/1975, nas dependências do DOI-CODI, de São Paulo. Cf. Em cartaz, as peças que voltaram do exílio. In: O Estado de S. Paulo, 27/04/1980, p.44.

Nesse ano em que se (anti)comemora os 50 anos do golpe civil-militar é importante ficar atento às programações culturais que serão apresentadas na totalidade das cidades brasileiras. Não apenas é preciso manter viva a memória do ocorrido com relação ao momento histórico e lembrar, citando o filósofo Walter Benjamin que nem mesmo os mortos estarão a salvo se nos esquecermos, e não tentarmos mudar o estado de barbárie que nos cerca por todos os lados.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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