Crítica: Verborragia tira força de peça-homenagem a Jim Morrison com Eriberto Leão em Curitiba

Eriberto Leão em Jim: ele não vive Jim Morrison, mas um fã – Foto: Annelize Tozetto/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos de ANNELIZE TOZETTO/Clix

Jim Morrison, que morreu em uma banheira em 1971 sob suspeita de overdose de heroína aos 27 anos, foi um dos maiores nomes do rock mundial. Autêntico, criou com sua banda, The Doors, um estilo musical que seria fartamente copiado nos anos vindouros.

Ícone da geração jovem da década de 1960, ele mergulhou fundo nas drogas em busca do autoconhecimento, reforçado no discurso psicodélico que bebia na fonte da geração beat e em nomes como Rimbaud e Nietzche.

Quem vai à peça Jim — protagonizada por Eriberto Leão, rosto conhecido da TV — à espera de um show cover do The Doors não se decepciona de todo. Na sessão da obra no Festival de Teatro de Curitiba, boa parte da plateia estampava camisetas do grupo de rock californiano. Muitos pareciam ávidos por ver Jim Morrison ressurreto no palco.

Festival de Curitiba 2014 teve público de 230 mil pessoas

Na sessão da última quarta (2), no Teatro Guairão, Leão se esforçou para cantar os 11 hits do repertório, mesmo com uma evidente rouquidão. Pelos fartos aplausos ao fim, a peça agradou aos fãs da banda neste quesito. Destaque para o grupo de músicos no palco, os excelentes roqueiros Zé Luiz Zambianchi, no teclado, Felipe Brandão, na guitarra, e Rorato, na bateria. Certamente, os melhores em cena.

Contudo, quem foi à espera da parte “teatro” da obra, divulgada também como um drama, logo percebeu que não havia consistência para tanto. Primeiro, porque a peça não é biográfica e não aposta no que teria de melhor para contar: a vida de Jim Morrison. Vai por caminho oposto. Apenas usa o cantor de pretexto para contar a história de João Motta, um insosso fã do The Doors interpretado por Leão. Um homem descrente, cansado de fracassos e à beira de acabar com a própria vida. O enredo até poderia tornar-se algo interessante, mas, a dramaturgia de Walter Daguerre nada mais é do que um compilado de citações.

Eriberto Leão e Renata Guida: par no palco em meio à música do The Doors – Foto: Annelize Tozetto/Clix

A direção de Paulo de Moraes opta em um protagonista que diz frases em um mesmo tom monocórdico. O mesmo ocorre com Renata Guida, que surge no meio da peça como um  par etéreo do protagonista. A obra poderia ser um pouco mais interessante se os atores demonstrassem na atuação serem atravessados pelo que dizem. A sensação é de automatismo.

Por mais que os personagens possam estar mergulhados em uma viagem letárgica, é enfadonho para o público a falta de peso diferenciado para frases distintas.

Eriberto Leão canta 11 hits do The Doors – Foto: Annelize Tozetto/Clix

Assim como acontece durante os números musicais, a luz de Maneco Quinderé também alivia a mesmice textual, já que dialoga com os momentos soturnos do personagem e propõe novas nuances.

Apesar dos percalços, é perceptível a entrega de Eriberto Leão ao projeto. Fã confesso de Jim Morrison, ele parece usar a obra como forma de catapultar um discurso estagnado em sua garganta.

Ao fim dos aplausos na sessão vista pelo R7, o ator deixou isso evidente ao fazer um discurso politizado, no qual bradou: “Ano de Copa é o caralho. É ano de eleições”. Pelo jeito, o mergulho na obra do The Doors serviu para inquietar o artista.

É evidente que, sobretudo pelo forte apelo emocional, Jim agrada aos fãs do ídolo homenageado. Contudo, a dependência afetiva, que habita o inconsciente coletivo dos fãs, não permite que se manifeste um discernimento sobre a qualidade artística do espetáculo em sua totalidade.

Tal fenômeno também está presente nas plateias de musicais biográficos recentes de ídolos brasileiros.

Mas, fato é, que, como espetáculo teatral, Jim, assim como alguns outros, ainda tem largo caminho a percorrer.

Eriberto Leão, em Jim: fãs curtem show-homenagem; mas falta teatro – Foto: Annelize Tozetto/Clix

Jim
Avaliação: Regular

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

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2 Resultados

  1. Paulo Jorge Dumaresq disse:

    The Doors de Oliver Stone também não é grande coisa. Filme longo e cansativo. Aguardemos uma obra à altura do Morrison.

  2. Paulo Jorge Dumaresq disse:

    The Doors de Oliver Stone também não é grande coisa. Filme longo e cansativo. Aguardemos uma obra à altura do Morrison.

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