Crítica: Genet, o Poeta Ladrão grita contra caretice

Iluminação de Rodrigo Alves cria ambiente poético para Genet, o Poeta Ladrão – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Foto de BOB SOUSA

O gheto no qual habitam prostitutas, garotos de programa e gente viciada em toda espécie de drogas e  na vida bandida é o abrigo do espetáculo Genet, o Poeta Ladrão, encenação de Sergio Ferrara para texto de Zean Salles.

Se num primeiro aquele excesso de homens semidesnudos de corpos esculturais reforça signos homoeróticos, sugerindo que esta parcela da população seria seu público, sua força está justamente em conseguir chegar a uma diversidade maior da sociedade. Afinal, é esta quem precisa perceber o recado contestatório de Genet.

A montagem é uma espécie de homenagem a Jean Genet (1910-1986), o grande poeta francês do submundo. Ele próprio esteve no Brasil para acompanhar a montagem histórica de seu texto O Balcão, dirigida pelo argentino Victor Garcia no Teatro Ruth Escobar, em um Brasil mergulhado no horror da ditadura militar no fatídico ano de 1969. Tal acontecimento serve de pretexto para que a obra comece, para voltar rapidamente ao passado de juventude de Genet, filho de prostituta e de pai desconhecido, perambulando entre a cadeia e as ruas da capital francesa.

A direção aposta em imagens poéticas, reforçadas pela iluminação precisa e propositiva de Rodrigo Alves. Isso atenua o excesso de concretude do texto, muitas vezes escatológico e sexualmente verborrágico. O figurino de Iraci de Jesus veste os homens robustos do elenco com signos femininos, criando uma atmosfera onde os limites sexuais não são dados ou impostos.

Ricardo Gelli, como o protagonista, é o destaque no elenco de dez atores, com nove homens e uma mulher – Gabrielle Lopez. No decorrer da obra, ele vai se impondo aos poucos, para, no ponto extremo da crise quase convulsiva de seu personagem, conquistar de vez o respeito do espectador.

Fransérgio Araújo, como o trôpego parceiro de rua por quem Genet se apaixona, faz uma atuação que caminha próxima à performance. No elenco, ainda estão Nicolas Trevijano, Felipe Palhares, Ralph Maizza, Jhe Oliveira, Magno Argolo, Bruno Bianchi e Rogério Brito, que se destaca com seu tempo próprio para o humor.

Em um mundo no qual o conservadorismo ganha força, o espetáculo Genet, o Poeta Ladrão cumpre missão de apontar um olhar mais libertário para a sexualidade e a vida em si.

Se num primeiro momento o texto pode parecer excessivo em suas expressões chulas e no compromisso com uma vida vista como decadente por boa parte da sociedade, em um segundo olhar, mais preciso, percebe-se que a obra tem aí mesmo seu grito de resistência contra a dita moral, sempre acompanhada dos tais bons costumes. Livrar-se destas amarras comportamentais é o caminho para qualquer olhar inteligente sobre o mundo. E a peça de Ferrara faz isso com os recursos que tem a seu dispor.

Genet, o Poeta Ladrão
Avaliação: Bom

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Quando Karl Marx afirmou que o homem, essencialmente, é produto do meio, estava falando uma verdade. Não absoluta, porque a vida é algo dinâmico e há pessoas que certamente são exemplos de superação. Mas, em boa parte dos casos, o meio influencia, sim, o destino das pessoas. Já deixei bem claro aqui no blog que não aprecio muito a proposta da utilização de atores despidos ou seminus no palco, contudo entendo que, no caso da obra de Genet, há algum fundamento. Afinal, aquilo era o que ele vivenciava. Não retiro o mérito dele. Ao contrário, reconheço a grandiosidade de sua obra. Só realmente não gosto do uso de palavras chulas. E sou a favor, sim, da moral e dos bons costumes. Mas não como instrumento de patrulhamento da conduta alheia e, sim, como forma de convivência harmônica em sociedade.

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