García Márquez sabia chegar ao coração do povo

Gabriel García Márquez com Cem Anos de Solidão na cabeça: um autor do povo – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A morte do escritor colombiano Gabriel García Márques, aos 87 anos, nesta quinta (17), deixa órfãos leitores do mundo todo.

Gente que aprendeu a se encantar com seus personagens cheios de vontade própria e, sobretudo, imersos em sonhos.

Ao ler Cem Anos de Solidão, sua obra de maior sucesso, ainda na adolescência, com o livro emprestado da biblioteca da Escola Estadual Santos Dumont, em Belo Horizonte, tive a sensação de que chamar esta história de realismo fantástico era uma balela.

No livro de 1967, Gabriel falava de um povoado tão comum, Macondo, um interior cheio de situações fantásticas com o qual nós, latino-americanos, tanto nos identificamos. E como disse Jean-Paul Sarte ao visitar o Brasil na década de 1960, coisa que repetia hoje mesmo ao fotógrafo Bob Sousa e sua mulher, Daniela: nós somos mesmos surreais.

Ao ler Cem Anos de Solidão, percebi que havia inúmeros personagens de minha vida real, alguns deles na própria família, que se pareciam, e muito, com aqueles que habitavam o livro.

E foi por ter esta capacidade de universalidade em sua escrita que a obra conquistou leitores em todo mundo em mais de 35 línguas e 50 milhões de exemplares vendidos.

Márquez conseguiu reproduzir como ninguém em sua obra este espírito do ser latino-americano, meio jogado de lado, injustiçado pela vida, que se acha mais do que se é, sempre mais afeito à fantasia do que a realidade.

O que ele reiterava, de forma doce, em sua narrativa, era: não somos europeus concretos, somos um novo povo, com um novo valor. É o que ele dizia em sua obra inventiva.

Além de artista, Márquez se destacou também como homem. O autor colombiano defendeu como ninguém seus ideais. Foi um dos principais intelectuais alinhados com a esquerda durante todo o século 20 e começo deste século 21. Enquanto muitos arrefeceram em seus princípios, ele manteve a coerência com seu pensamento.

Gabriel García Márquez era um dos últimos representantes do grande time de autores latino-americanos que conseguiram o panteão da literatura mundial, junto de nomes como o chileno Pablo Neruda, os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, e o brasileiro Jorge Amado. Todos foram celebridades escrevendo livros, coisa raríssima no mundo contemporâneo onde a leitura de qualidade é cada vez mais escassa.

E Márquez foi muito querido. Porque, mesmo diante de toda complexidade de sua criação, era simples em sua escrita e sabia chegar ao coração do povo.

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Li CEM ANOS DE SOLIDÃO também emprestado de uma biblioteca, porém de minha faculdade. A obra causou um impacto tão grande para mim que eu hoje tenho o livro em minha biblioteca pessoal. Encantou-me a pureza de Remédios. García Márquez era, sem dúvida, um dos grandes latino-americanos.
    Mudando de assunto, interessante que tenha comentado que as pessoas são surreais. Ontem eu estava comentando algo parecido: que as pessoas são surpreendentes. Porque eu me surpreendo com certas facetas das pessoas e vice-versa.

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