Coluna do Mate: Trabalhadores invadem o teatro

Charles Chaplin em cena do filme Tempos Modernos: exploração do trabalhador em cena – Foto: Divulgação

Trabalhador no palco marca a história do teatro brasileiro e mundial

Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE*
Especial para o Atores & Bastidores

Decorrente de processo de luta ocorrido em Chicago (Estados Unidos), em 1866, um grupo de trabalhadores foi morto por policiais a serviço de seus empregadores. De maneira bem sucinta, a revolta dos trabalhadores iniciou-se no dia 1º de maio e prolongou-se por outros dias tendo como principal motivo a redução da jornada de trabalho para oito horas por dia.

Exatamente em razão de tal acontecimento, alguns anos depois da morte de dezenas de trabalhadores, foi decretado oPrimeiro de Maio como uma data para lembrar aqueles que morreram em processo de luta contra a superexploração. Aquela luta, que continua, tem o principal objetivo de dar dignidade aos sujeitos históricos que mantém o mundo funcionado, isto é, as mulheres e homens trabalhadores.

Atualmente, em muitos países do mundo, inclusive no Brasil, comemora-se o Dia do Trabalhador. Durante longos anos nas escolas que frequentei, sobretudo em períodos ditatoriais, comemorava-se o Dia do Trabalho. Entre “Dia do Trabalhador” e “Dia do Trabalho” pode-se perceber uma série de tentativas de manobra, tanto com relação ao acontecimento de 1866 quanto ao “perigo” que os trabalhadores representaram para os patrões.

Trecho de jornal com depoimento do líder operário Simón Radowiztky, após ser preso em defesa dos trabalhadores: ícone do 1º de Maio argentino no começo do século 20, época de efervescência nas fábricas do mundo – Foto: Divulgação

Teatro Livre na França

Exatamente pelo fato de os trabalhadores virem sendo considerados perigosos ao longo da história, obras de arte protagonizadas ou que destacassem esse imenso exército de gente não são tão comuns na história. De modo bastante sucinto, um encenador chamado André Antoine funda em Paris, no ano de 1887, o chamado Teatro Livre (Théâtre Libre).

Cartaz do Teatro Livre de André Antoine – Foto: Divulgação

O nome livre atribuído ao teatro se devia ao fato de seu criador pretender, por meio de criação de uma sociedade de sócios do referido teatro, apresentar obras sem que o Estado viesse a proibir. Exatamente pelo fato de ter sócios e não cobrar ingressos, os espetáculos apresentados no espaço não poderiam ser considerados comerciais.

Como muitos dos frequentadores do espaço eram, também, trabalhadores, alguns textos passaram a apresentar os trabalhadores como protagonistas. Ao organizar e criar seu teatro, Antoine buscou viabilizar as ideias do autor francês Emile Zola. Dentre as mais belas obras de Zola, Germinal (que também pode ser encontrada em versão cinematográfica) é uma dessas obras que precisa ser lida/ assistida de vez em sempre.

Uma das primeiras e mais importantes obras de teatro a apresentar o trabalhador como protagonista e sua revolta contra a exploração foi Os Tecelões, do alemão Gerhart Hauptmann, escrita em 1892. A partir dessa obra e, sobretudo, do ideário do teatro livre francês, muitos coletivos foram formados.

Grandes nomes na Alemanha

Entre as décadas de 1910 e 1920 desenvolveu-se um teatro proletário na Alemanha, que teve como seus principais representantes o encenador Erwin Piscator e o teatrólogo Bertolt Brecht. Os dois alemães, principalmente por acreditarem que o teatro representava também um experimento de natureza social (e não apenas estético), desenvolveram um amplo programa de ação teatral, tendo como tema os conflitos e contradições decorrentes do mundo do trabalho. Para os dois, o teatro tinha uma função de inventariar o mundo, de denunciar os maus tratos, de apontar saídas para as crises entre o capital e o trabalho.

Brecht e Piscator: artistas alemães colocaram o trabalhador no palco – Fotos: Divulgação

Bertolt Brecht, exatamente por escolher o trabalhador e o trabalho como assunto da totalidade de suas obras – e por lembrar que nenhuma relação humana é natural, e que tudo é produzido por interesses específicos -, é acusado dos mais absurdos preconceitos. De qualquer modo, os acusadores de Brecht não figuram da história, e o grande homem de teatro, que foi e é Brecht, caracteriza-se em referência para todos aqueles que produzem teatro dentro de uma perspectiva mais histórica e social.

Arena no Brasil

Decorrente grandemente das ideias dos dois criadores alemães, na cidade de São Paulo apenas em 1958 se apresentou uma obra teatral cujo assunto principal, ou, pelo menos determinante das ações, era uma greve. Trata-se de Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri.

Eugênio Kusnet e Lélia Abramo em cena de Eles Não Usam Black-tie, de 1958 – Foto: Divulgação

Guarnieri nasceu na Itália, em 1934, mas ainda bebê vem ao Brasil. Filho de pai artista e comunista, na adolescência, Guarnieri funda, em 1955, com outros jovens – cujos pais também eram simpatizantes do comunismo -, o Teatro Paulista dos Estudantes – TPE.

Em 1956, os fundadores do TPE aceitam o convite do fundador e diretor artístico do Teatro de Arena da cidade de São Paulo, José Renato e se incorporam no importante grupo de teatro paulistano.

Antes de participar da montagem de Eles Não Usam Black-tie, os jovens do TPE atuaram no espetáculo dirigido por Augusto Boal (brasileiro recém-chegado da Universidade de Columbia – Nova Iorque, onde estudara teatro), chamado Ratos e Homens, de John Steinbeck. Esta montagem aproximou Boal dos jovens irrequietos do TPE que queriam fazer teatro político e que os trabalhadores fossem protagonistas.

Por problemas de natureza econômica, o Teatro de Arena que estava prestes a ser fechado, com a estreia de Eles Não Usam Black-tie, em 22 de fevereiro de 1958, e o estrondoso sucesso de espetáculo, o grupo consegue se reequilibrar economicamente.

A partir da criação da obra, Guarnieri traz a classe trabalhadora para a cena, na condição de protagonista. A tocante obra de Guarnieri foi adaptada para o cinema por Leon Hirszman (1981) e pode e deve ser assistida por quem se interessa pelo assunto.

Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri no cartaz do filme Eles Não Usam Black-tie – Foto: Divulgação

Nela, o conflito entre um pai, militante político e engajado politicamente, enfrenta o filho, conservador e que pensa apenas em si, na eclosão de uma greve na fábrica em que ambos trabalham. A partir do sucesso e evidência de “Eles não usam black-tie”, a partir de abril de 1958, no mesmo teatro, foi criado um processo de criação e de discussão pública e coletiva de textos teatrais, conhecida com o nome de Seminários de Dramaturgia do Arena.

Com Eles não usam black-tie e os Seminários de Dramaturgia do Arena, os integrantes do grupo passaram a estudar as propostas de Bertolt Brecht. Por intermédio das propostas do autor alemão (Brecht) e de um amplo processo de criação desenvolvida no grupo, pela primeira vez no Brasil, e de modo programático, se discutiu a práxis (teoria e prática) brechtiana.

Racha no Arena

Por último, apesar de o grupo (Arena) conseguir promover ações significativas com relação a uma dramaturgia repleta de personagens da classe trabalhadora, houve um racha interno. Nesse racha, alguns permanecem no Arena e outros, liderados, sobretudo, por Oduvaldo Vianna Filho, foram para o Rio de Janeiro e criaram os Centros de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes – CPC da UNE. De 1961 a 1964, os CPCs caracterizaram-se na experiência mais radical e politizada, tendo os trabalhadores como protagonistas, do teatro brasileiro.

Apesar de todas as oposições históricas, de um modo e de outro, representações simbólicas da classe trabalhadora (homens e mulheres) têm conseguido protagonizar muitas obras teatrais. Então, e não apenas no dia Primeiro de Maio: viva os trabalhadores (homens e mulheres) de todas as periferias do mundo!

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Maravilhoso e muito pertinente o texto. Lúcido como o autor.

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