Crítica: Dança potente não salva musical Nas Alturas

Cena do musical Nas Alturas: street dance é destaque na montagem do texto da Broadway – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A montagem brasileira para o espetáculo norte-americano In the Heights, chamado por aqui de Nas Alturas – Um Musical da Broadway, chega ao fim neste domingo (25) no Teatro Bradesco, em São Paulo. André Dias é o responsável pela direção, enquanto que Paulo Nogueira assina a direção musical.

Em Nova York, a montagem foi conquistando público aos poucos, desde sua estreia na off-Broadway em 1999 até chegar às salas grandiosas da Broadway em 2008. Tudo por levar para o palco o mundo dos imigrantes latino-americanos tão comuns em Nova York, representados no bairro Washington Heights, cenário onde a história se passa.

A encenação brasileira tenta reproduzir a realidade latino-americana nova-iorquina — o cenário da montagem é um dos melhores dos musicais apresentados em 2014. Porém, a sensação é de que algo não sai a contento.

Algumas tentativas de aproximação da história tão norte-americana com a plateia paulistana soam forçadas, como ouvir um personagem chegar à cena dizendo que estava preso na Marginal, sendo que os cartazes atrás dele estão em inglês e os prédios de Nova York permanecem no horizonte.

Musical Nas Alturas foca na comunidade latino-americana nos EUA – Foto: Divulgação

O enredo escrito por Lin-Manuel Miranda é praticamente o de um folhetim básico e sem muita força dramática: o grande problema em questão é o de uma jovem que abandona a universidade, para desgostos dos pais latinos, que sonham em ver a filha diplomada nos EUA. Para desgosto ainda maior dos pais, ela namora um jovem que não tem a mesma origem. Aí mora um dos melhores aspectos do texto, que poderia ser melhor explorado: a discussão do preconceito justamente dentro de uma comunidade que tanto pena por ele.

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A homenagem aos latinos muitas vezes não soa como tal, já que sobram estereótipos, a começar nos figurinos de corres berrantes. É como ver uma visão de um norte-americano branco para os latinos que insistem em atravessar a fronteira de seu rico país. Falta um olhar mais crítico. Um dos subtextos presentes é de que um latino não consegue levar os estudos a sério e só pode vencer na vida se ganhar um bilhete na loteria. Fazer o “sonho americano” a partir do próprio mérito não seria possível para os latinos?

A montagem paulistana apresenta versões complicadas para algumas canções, cujos versos parecem teimar em não entrar na melodia, além do excesso de concretude, ou falta de poesia, dos mesmos.

As coreografias de Andy Blankenbuehler são potentes. Talvez, seja o melhor deste musical. Nos números de street dance, há uma força jovem presente, e até certo exibicionismo. E o elenco, composto de excelentes bailarinos, dá conta do recado.

Fica, entretanto, a sensação de que, em alguns momentos, a dança conjunta peca pelo excesso, deixando o palco confuso. O objetivo é mesmo impactar e deixar o espectador sem fôlego, mas isso o tempo todo dispersa a plateia, que fica sem foco. Muitas vezes, menos é mais.

Casal de protagonistas: falta peso às atuações – Foto: Divulgação

O elenco poderia ter sido mais exigido e trabalhado, sobretudo para não deixar tão evidente a imaturidade, escancarada nas atuações. Muitos não conseguem sustentar um diálogo de mais de três frases. Outros apelam para uma atuação mais próxima à do teatro infantil.

Na execução das canções, a técnica é evidente, mas falta a sensibilidade de perceber que algumas colocações, sobretudo em agudos, deixam irritantes as vozes de algumas atrizes. Baixar o tom e trabalhar os graves teria sido melhor para os ouvidos mais sensíveis.

Há que se dizer que o elenco está entregue, mesmo que de forma quase inocente. Parece não ter consciência de seus percalços, executando as marcações da forma que podem. Aí, faltou uma mão mais pesada da direção em lapidar a turma com cuidado, sobretudo para não expor o elenco desta forma.

A exceção positiva está em Cleide Queiroz, na pele da “abuela” latina. Mais madura e com estrada artística, é a única a trazer algum tipo de verdade à encenação. A plateia retribui com aplausos generosos à sua performance.

O que Nas Alturas – Um Musical da Broadway explicita é que a produção brasileira de musicais anda tão farta que já podemos até a nos dar ao luxo de fazer um espetáculo que não dá tão certo assim.

Nas Alturas – Um Musical da Broadway
Avaliação: Fraco
Quando: Domingo, 19h30. 140 min. Até 25/5/2014
Onde: Teatro Bradesco – Shopping Bourbon (r. Turiassu, 2.100, Perdizes, São Paulo, tel. 0/xx/11 3670-4100)
Quanto: R$ 30 a R$ 180
Classificação etária: 10 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Apesar dos tropeços, desejo boa sorte a essa turma! Mas, de fato, falar de Marginal com o cenário todo com palavras em inglês é realmente surreal. Melhor teria se tivessem mantido toda a história nos EUA. Ficaria mais oportuno e o público entenderia que a peça quer retratar uma verdade daquele país.

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