Crítica: Edgar apresenta homem perdido, sem rumo

Ricardo Corrêa (à esquerda) vive Edgar: homem perdido em seus devaneios – Foto: Kevin David

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fazer peça à meia-noite é tarefa árdua. Sobretudo no sábado. É difícil trazer o público, já solto na noite, para dentro da história. Por isso, tal horário, para funcionar, costuma exigir boa pitada de ousadia.

O espetáculo Edgar, do Grupo Eco Teatral, o mesmo de Sala de Espera, tenta a façanha no horário chamado de maldito. Encerra temporada no próximo sábado (31), à meia-noite, no Espaço dos Parlapatões, na praça Roosevelt, centro de São Paulo.

A obra é baseada em textos de Samuel Beckett, ícone do teatro do absurdo. O autor foi um dos últimos suspiros do modernismo, em seu afã de criar uma nova cultura. E precursor do pós-modernismo que nos tirou as bases de tudo.

O enredo conta a história de um homem que sofre uma enxaqueca terrível que não passa. Para conseguir sobreviver, precisa ser lobotomizado em uma mesa cirúrgica — apresentada em cena sem metáfora sobreposta.

O elenco, encabeçado por Ricardo Corrêa no papel-título, é talentoso e demonstra coerência com a proposta de encenação. Há trabalho, isso é evidente. Mas, o tom muitas vezes infantil imposto aos atores faz a peça perder força. Seria interessante ver as mesmas frases ditas sem tanto maneirismo. Talvez ganhassem mais peso.

A metáfora do inconformismo do homem moderno está presente. O vazio do palco, onde os atores estão em foco desprovidos de cenografia, representa esse sentimento de inquietação constante e não aceitação do tradicional. É uma briga cerebral tudo que se vê. Uma luta sem fim de tentativa de resistência ao sistema.

Ricardo Corrêa e Roberto Rezende em performance da peça Edgar – Foto: Tico Dias

Se consegue explicitar o sentimento presente na era moderna, a montagem, para dialogar melhor com os tempos atuais, poderia ter ressignificado o texto, tentando aproximá-lo do presente, trazendo para a encenação elementos da contemporaneidade. Uma timeline de Facebook atualizada constantemente por alguém frente a um celular ou computador não é um exemplo de lobotomia dos tempos de hoje?

É por não explicitar mais o seu tempo no palco que, muitas vezes, a direção de Thiago Franco Balieiro soa por demais formal e literal nas imagens sugeridas pelo texto. Falta ousadia.

Apesar de ser pungente, o discurso da obra já é sabido; não representa novidade. Sobretudo para quem frequenta a sessão maldita no Espaço dos Parlapatões. Gente já descolada há muito tempo na vida; e que talvez colecione expulsões do sistema.

Os espectadores estão fartos de saber que está tudo ficando insuportável. Nisso não há novidade. Nem que o mergulho cerebral em algum tipo de alívio muitas vezes soa como necessidade gritante.

Por isso, uma boa dose de deboche teria feito bem a Edgar. Porque, quanto tudo se anuvia em um tradicionalismo que coloca as manguinhas de fora, é preciso reinventar os cânones e rir deles.

Edgar
Avaliação: Regular
Quando: Sábado, à meia-noite. 60 min. Até 31/5/2014
Onde: Espaço dos Parlapatões (pça. Roosevelt, 158, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    O homem moderno está perdido mesmo, em múltiplos sentidos. Daí porque esse tipo de temática anda soando como “mais do mesmo”. Mas desejo boa sorte a essa galera, até pela disposição de encenar nesse horário!

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