Coluna do Mate: Produção teatral tem 2 realidades

 

Duas realidades teatrais na produção paulistana: à esq., Negra Li no musical Jesus Cristo Superstar, de Jorge Takla; à dir., Marcos Di Ferreira, em Azar do Valdemar, da Cia. dos Inventivos – Fotos: Bob Sousa

 De um lado, teatro de grupo despertando a cidadania cultural; de outro, o teatro comercial com altas cifras e grande público; vida é feita de escolhas, e a arte também

O pesquisador Alexandre Mate: Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE
Especial para o Atores & Bastidores
Fotos de BOB SOUSA

A produção teatral paulistana da última década tem importância semelhante, na condição de fenômeno social, por exemplo, a algumas das conquistas mobilizatórias da União do Movimento de Moradias, das Jornadas de Junho de 2013.

Pode haver certo exageramento na afirmação, sobretudo no que diz respeito ao número de participantes, entretanto, o chamado movimento de teatro de grupo da cidade de São Paulo, com mais de 300 grupos em atividade, espalhados por toda a cidade, tem mobilizado as comunidades nas quais se insere.

No processo de reivindicações e lutas por mudanças sociais, diversos são os coletivos teatrais que participam das mobilizações sociais, em prol da dignificação da vida e dos direitos à moradia, à justiça, à saúde, à educação…

Apesar de os números com relação à produção teatral serem bem menores, quando comparado àquele das mobilizações lembradas, nas comunidades de atuação dos grupos, diversos têm sido, também, os conjuntos de ações culturais que mobilizam as comunidades locais. O teatro tem se entranhado, estética socialmente, na vida das mais diversas comunidades da cidade.

Teatro de grupo

Na periferia como um todo tem havido teatro. Tem havido muito teatro!

Barafonda, da Cia. São Jorge de Variedades, que envolveu o bairro paulistano Barra Funda no projeto – Foto: Bob Sousa

Os coletivos teatrais, esparramados feito “batatinha pelo chão”, além de obras produzidas de modo colaborativo pelos próprios grupos, tem promovido diferentes ações: desde mostras, em que outros grupos participam e apresentam suas obras; encontros teóricos; as mais diferenciadas formas de oficinas expressivas; deslocamentos de parte das próprias comunidades para participarem de outras atividades culturais… Enfim, o estético, o pedagógico e o cívico, por intermédio das ações propostas pelo teatro de grupo, tem se juntado e instaurado, efetivamente, um conceito de cidadania cultural.

Esse tipo de proposta teatral, cujos assuntos tendem, majoritariamente, a serem coletados das ruas e das gentes que nelas trafegam, pedem ao sujeito sua participação como cidadão, aliando o indivíduo ao sujeito histórico. Claro, por ser fomentado economicamente pelo Estado, o teatro de grupo é híbrido e não cabe em palcos tradicionais; tampouco cobra ingressos. Além de a atividade artística, e nela a teatral, ser concebida como um direito, na totalidade desses coletivos o acesso é uma realidade de fato e não uma retórica propagandística ou populista.

Inquietude

O teatro de grupo é uma das realidades teatrais da cidade. Trata-se de um movimento inquieto: que peregrina de espaços em espaços; que busca parcerias políticas e estéticas; que intervém, por meio de suas obras, na polis como um todo; que convida todo tipo de gente para participar, de intelectuais a professores, de artistas aos cidadãos sem vocação ou prática teatral, de artistas da ativa a artistas aposentados (e tantas e tantas vezes esquecidos); que participa de diversas ações por entender que o artista é um cidadão e um trabalhador.

Brecht: “Construir homem novo” – Foto: Divulgação

Pedro Osório, na década de 1970, musicou um poema do teatrólogo alemão Bertolt Brecht, e o português Grupo Outubro cantou. Assim aparece nos versos: “Não basta ser livre/ É preciso construir o homem novo/ O homem novo/ Onde a liberdade já não seja discutida/ E por ser de todos nunca mais seja perdida”. É mais ou menos por aí que tem pensado e agido muitos coletivos ligados ao movimento de teatro de grupo da cidade.

O teatro é estética; é luta pela liberdade e direito de usar os símbolos para se comunicarem com todos os homens e mulheres, próximos ou distantes; é espaço para discutir história e transformá-la em linguagem artística; é território de disputa e de denúncia, de inventário e de devaneio.

Enfim, das produções teatrais na cidade, que buscam intervir na polis; que renovam o estético, por um permanente processo de criação coletivo; que incorpora as mais distintas vozes e sujeitos sociais; que tem feito a forma teatral respirar e renovar-se, efetivamente, o teatro de grupo tem dito presente aos principais acontecimentos da vida contemporânea e se presentificado inquietantemente.

Teatro comercial

Correndo por outras pistas, sendo mobilizados por outros interesses, frequentada por outro tipo de gente… há uma outra produção teatral sendo apresentada e desenvolvida na cidade. Trata-se da realidade do chamado teatro comercial, cujos temas, amplitude social, processo de criação, espaços de apresentação, possibilidade de acesso são diametralmente opostos àqueles do teatro de grupo.

Tais espetáculos, normalmente, são apresentados por agrupamento especialmente formado para um fim específico, ou seja, montar uma obra e cujo processo de criação e de produção depende da decisão de um sujeito ou pequeno grupo deles, que são os produtores.

Esses espetáculos, algumas vezes, são montados por sujeitos selecionados em processos de ensaio ou por indicação; outras vezes, e isso tem sido mais comum, são obras montadas tendo um astro ou estrela da televisão, que pelo reconhecimento de que dispõem tem facilidade para suas obras serem patrocinadas.

Em tese, a maioria desses espetáculos repetem formas já consagradas. Difícil a ousadia ou partilhamento do processo colaborativo, cujo processo é muito mais lento. Invariavelmente, e pelo fato de o público pagante preferir obras de mais fácil recepção, a ousadia da obra apresenta-se não nos temas (que invariavelmente transitam por problemas individuais), mas nos aspectos visuais da obra. Normalmente, alguém consagrado e com público distinto, prefere obras mais tradicionais e, normalmente, aprovadas nos grandes centros culturais do mundo, ou seja, Estados Unidos da América e algumas capitais da Europa.

Tantas e tantas vezes, evocando a universalidade nas artes, o teatro comercial não reconhece a produção dramatúrgica de seu país e pouco faz para incentivar a dramaturgia local. Algumas exceções poderiam, entretanto, serem lembradas, em produções de 2013.

Experimentais

A primeira delas, por seu caráter ousado, em direção da sempre irreverente e criativa Georgette Faddel. Na obra O Duelo, de Anton Tchekhov, a atriz Camila Pitanga, contratada da Rede Globo, participou do espetáculo bastante experimental.

Andrea Beltrão fez Jacinta em São Paulo – Foto: Bob Sousa

De certo modo, a atriz abriu mão de seu caráter de atriz consagrada para, em experimento teatral, participar do elenco na condição de coro. A sempre surpreendente Andreia Beltrão protagonizou Jacinta – A Pior Atriz do Mundo, no texto de Newton Moreno. Em obra também experimental e de autoria de jovem autor brasileiro, não é a primeira vez que a atriz, também, contratada da Globo, se apresenta no teatro. Esses dois espetáculos foram apresentados, respectivamente, no Centro Cultural São Paulo e no teatro do Sesc Vila Mariana, cujos preços são mais simbólicos e acessíveis.

Claudia Raia e Miguel Falabella

Cláudia Raia, também contratada da Globo, atriz com potencialidade para a dança e o canto, além da interpretação, resolveu remontar Cabaret, filme norte-americano de mega sucesso de 1972. A obra foi apresentada no Teatro Procópio Ferreira, e segundo as fontes documentais à disposição, foi um grande sonho realizado pela atriz, teve ingressos vendidos de R$ 50 a R$ 200.

Tanto a obra já era conhecida como os valores foram inacessíveis à totalidade absoluta da população. Bom lembrar que o texto e músicas foram adaptações de Miguel Falabella, que tem apresentado uma obra atrás da outra, normalmente com patrocínios milionários. Fã de musicais, o ator-produtor, faz algum tempo, não monta obras de dramaturgia brasileira.

Em um país como o nosso de imensa tradição com o teatro de revista, é difícil acreditar que não há/ houve tetro musical entre nós. Em fontes veiculadas pela grande imprensa, o último trabalho de Falabella, A Madrinha Embriagada, apresentada no Teatro do Sesi da Paulista, cujo espetáculo tinha entrada gratuita, teve investimento da instituição mencionada de R$ 12 milhões. Algumas cenas enchiam os olhos, mas e diversas perguntas poderiam ser feitas, dentre elas: qual a importância estético-social da obra? Que significados e contribuições trouxe/ representa a obra para o teatro paulistano? Qual a importância da obra para nossas vidas, para o nosso aprimoramento e percepção estéticas?

Escolhas

Nem melhor, nem pior. Ao longo da vida fazemos escolhas. Alguns, pelos mais diversos motivos, gostam de manter a tradição e os privilégios daí decorrentes. Outros, sempre descontentes com o andar e o fazer dos acontecimentos, optam por inserirem-se em permanentes processos de ousadia, que aprimoram o olhar.

Escolhas, apenas escolhas… Somos, quase sempre parte daquilo que escolhemos.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e pesquisador de teatro. Ele escreve no blog sempre no dia 1º.

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5 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Sim, os atores são da Globo. E daí? Só porque são da emissora platinada metálica não significa que sejam melhores do que os demais.
    Mate põe o dedo na ferida, quebrando todos os tabus e chacoalhando a mesmice de sempre.

  2. Maria de Fátima da Silva disse:

    Desculpe, sou admiradora do teatro de grupo, inclusive atuei em grupos assim quando jovem, contestadora e transgressora que sempre fui. Mas também sempre amei os musicais, desde menina, e fico muito feliz em poder ir a um espetáculo grandioso, bem produzido. Tenho visto quase todos os grandes que foram apresentados aqui no Brasil (nunca viajei p/ fora do país), mas em nenhum deles os atores eram grandes estrelas globais e se fossem, com talento, qual o problema?
    Vi a Madrinha Embriagada 5X, para me diverir, simplesmente sair do teatro leve, feliz, não vejo nenhum problema em ver um espetáculo que me proporcione duas horas lúdicas e que me ajudem a esquecer um pouco as agruras da vida. Sou educadora, fui militante estudantil, e continuo sendo militante política, luto por respeito e cidadania, mas isso não me impede de querer ver coisas bonitas!

  3. Adilson disse:

    Mega produções que produzem e reproduzem o óbvio, anestesia temporariamente e muitas vezes teimam em reforçar certos preconceitos. Rios de dinheiro nomeados de “patrocínio” que na verdade saem da arrecadação e/ou dos cofres públicos e são submetidos à condições de negociações nojentas e ilegais. Acesso restrito, na maioria das vezes, principalmente pelos delimitadores: local-região/horário e preço.
    Pra que?
    Pra quem?
    12 milhões valem?
    A maioria dos grupos de teatro e/ou artistas populares de rua, que produzem arte pública, na periferia não possuem patrocínio algum. A maioria dos grupos e/ou artistas que conseguem apoio por via de editais públicos não alcançam nem 200 mil. Lei Rouanet, Fomento e alguns outros poucos acessos de apoio à produção de arte/cultura são disputadíssimos, não dão conta da demanda (Editais de apoio público direto como o Fomento), quase sempre favorecem figurinhas carimbadas globais ou super stars da mídia de massa (principalmente lei Rouanet).
    Equipamentos de cultura sucateados com orçamento anual bem inferiores a 200 mil.
    Fora de São Paulo a situação está ainda pior. Sem querer prolongar para as outras áreas como educação, saúde, “salário do trabalhador vs. salário do político”…
    Bem, no meu caso, nestas condições, acredito que não fico mesmo feliz com espetáculos grandiosos a doze milhões de reais.
    Viva a estética das ruas! Da periferia! Artistas populares! Artistas de rua!

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