Entrevista de Quinta: “Divisão entre artes vai cair, quero misturar tudo”, diz diretor Pedro Granato

O diretor paulistano Pedro Granato: o teatro dele tem múltiplas caras – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos de BOB SOUSA

Pedro Granato é um dos diretores mais inventivos da nova geração do teatro brasileiro. Eclético, atua em várias nuances do teatro, porque não gosta de se repetir e quer mudar sempre.

Ele é dono do Teatro Pequeno Ato, que anda reavivando a rua Teadoro Baima como reduto teatral paulistano. É lá que fica também o histórico Teatro de Arena, seu vizinho.

Ele mantém no cartaz até 11 de junho sua peça Quanto Custa?, na qual disseca as relações de poder tendo como base Bertold Brecht (1898-1956), com cuidadosa estética soturna.

Granato também dirigiu Il Viaggio, no qual mergulhou no universo dos sonhos do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993).

Referências não faltam ao diretor, filho de artista plástico e formado em cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Há mais de uma década, se enveredou pelo teatro, seja no tablado, na caixa preta ou na rua, sem deixar de flertar com o cinema e a música sempre que pode.

Num começo de uma tarde fria de outono, enquanto o centro paulistano fervilhava do lado de fora, Pedro Granato recebeu o Atores & Bastidores do R7 no Teatro Pequeno Ato para esta Entrevista de Quinta. Falou sobre sua vida e seu teatro.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sua infância?
Pedro Granato — Foi bem paulistana. Fui criado na esquina das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann. Nasci rodeado de arte, com meu pai montando a exposição dele na Bienal…

Miguel Arcanjo Prado — Quem são seus pais?
Pedro Granato —Meu pai é o artista plástico Ivald Granato. E minha mãe, Lais Granato, é psicóloga e ceramista. Sou o caçula.

Miguel Arcanjo Prado — Do que você gostava de brincar quando era pequeno?
Pedro Granato — Brincava fazendo quadrinhos com meu irmão, o Diogo Granato, que hoje é bailarino. Também gostávamos de fazer instalações com cobertas, criávamos montanhas [risos].

Miguel Arcanjo Prado — E na adolescência: você era do tipo rebelde ou do tipo introspectivo?
Pedro Granato —Tive todas as fases. Fui nerd, depois fui rebelde, depois fui o que fazia piadas no fundo da sala, depois o fã de punk rock, o popular que organiza festas, o politizado do grêmio…

Filho de artistas, Pedro Granato viveu desde pequeno rodeado de arte – Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Pelo jeito você era inquieto!
Pedro Granato — Sim. Minha casa era uma loucura! Minha música de infância era Bob Dylan e Lou Reed. Não tem como não ser um pouco maluco naquela casa [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Essa coisa de ser filho de artistas lhe influenciou?
Pedro Granato — Sim. Eu logo fui fazer oficinas de tudo que você possa imaginar. Como meu irmão dançava, fiz dança, circo, teatro… Até que veio o vestibular e entrei no cinema na ECA [Escola de Comunicações e Artes] da USP [Universidade de São Paulo].

Miguel Arcanjo Prado — Você já queria dirigir?
Pedro Granato — Já. Era final dos anos 1990 e tinha aquela coisa de falarem que diretor de cinema não sabe dirigir ator. Então, fui fazer teatro no Grupo Tapa e no Folias. Foi assim que comecei no teatro.

Miguel Arcanjo Prado — E aí foi se enturmando com a turma dos palcos?
Pedro Granato — Sim. Fiquei amigo de um monte de gente da EAD [Escola de Arte Dramática da USP]. Acabamos montando o grupo Ivo 60, que durou 12 anos. Era eu, a Ana Flávia Chrispiniano, que hoje está morando no Rio, o Felipe Sant’Angelo, que virou roteirista, a Mariana Leite, que se mudou para Chicago, e o Pedro Felício, que ainda está no teatro e atua em Quanto Custa?. Mas, mesmo com o grupo, sempre deixei claro que gostaria de fazer as minhas coisas também, de forma paralela.

Miguel Arcanjo Prado — E o cinema?
Pedro Granato — Fui fazendo curtas. Fiz um, chamado X, que tinha o Rafael Cortez, que hoje ficou famoso e apresenta programa na Record. Ele fazia uma versão do Ben Silver, o protagonista de Roda Viva, peça do Chico Buarque. O meu curta de formatura foi Uma Tragédia Brutal, com Gustavo Machado e Tatiana Thomé; era uma coisa meio Beijo no Asfalto do século 21. Gravamos na esquina onde fica hoje o Teatro Pequeno Ato, na Ipiranga com Teodoro Baima. Engraçado, porque nem pensava que um dia teria um teatro aqui…

Miguel Arcanjo Prado — Você gosta do Nelson Rodrigues?
Pedro Granato — Adoro. Ele é meu livro de cabeceira sempre. Nelson é o cara do nosso teatro!

Pedro Granato é bem relacionado na turma do teatro: “Conheço quase todo mundo” – Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você tem muitos amigos no teatro?
Pedro Granato — Conheço quase todo mundo. Na época do Ivo 60 ganhamos cinco Fomentos [programa municipal de financiamento teatral de SP]. Então, nos aproximamos muito do movimento do teatro de grupo, do pessoal da Cia. São Jorge de Variedades, do Bartolomeu… Não me vejo como um cara do cinema. Acho que sou mais um cara do teatro.

Miguel Arcanjo Prado — Quem é o Berlam?
Pedro Granato — Ele foi um personagem que eu criei [risos]. Fazia muitos shows com ele, era meio cabaré, fiz shows em circos. Ele é muito divertido, afetado e as pessoas adoram. Mas aí decidi parar porque ele começou a ficar muito famoso e as pessoas me confundiam com ele [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Onde ele foi parar?
Pedro Granato — Eu mandei o Berlam para umas férias na Bahia [risos]. Mas devo a ele uma aproximação grande com o mundo musical.

Miguel Arcanjo Prado — Você também dá aula?
Pedro Granato — Dou. Sou professor há três anos no Teatro Escola Célia Helena. Adoro ser professor, de incentivar as pessoas a fazerem teatro. Porque é muito foda. Eu vim de família de artistas, mas nem todo mundo tem essa sorte. Então, o que eu puder botar pilha nos outros eu boto. Dando aula, as relações ficam mais profundas. Dá para meter o dedo na ferida, bater de frente. Com jeito, é claro.

Miguel Arcanjo Prado — Qual a cara do seu teatro?
Pedro Granato — Nunca tive a pretensão de ter só um grupo, ou fazer só um tipo de teatro. Sempre quis ser diretor. E gosto que os atores estejam no centro da minha obra, se desdobrando em vários personagens. Que estejam fazendo mesmo a peça acontecer em cena, manipulando o cenário, a luz. Esteticamente, gosto muito de variar.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Pedro Granato — Porque gosto que cada trabalho tenha sua cara própria, sua concepção visual. Gosto que um trabalho seja esteticamente diferente do outro. Tenho essa coisa brechtiana do humor, de brincar com a linguagem. Também tenho muito cuidado com a direção de arte das minhas obras. Tenho essa herança familiar das artes plásticas. Geralmente, começo uma peça pela imagem que eu vejo dela.

Miguel Arcanjo Prado — Quem são suas referências?
Pedro Granato — Olha, a Cristiane Paoli-Quito foi muito importante para mim; estudei palhaço com ela. Também aprendi muito com a Tiche Vianna, o Ésio Magalhães e a Bete Dorgam. E depois tive o prazer de dirigir esses meus professores. E também a cineasta Laís Bodanzky, com quem trabalhei e é uma grande referência também. No cinema, eu piro em Almodóvar, Kubrick e Fellini. Este último me pegou muito quando dirigi Il Viaggio.

Miguel Arcanjo Prado — Quais são os novos projetos?
Pedro Granato — O Teatro Pequeno Ato segue a todo vapor. Resolvi continuar com o espaço depois que o Ivo 60 acabou. E ele tem dado certo, tenho mantido espetáculos em cartaz e alugado também para outros grupos ensaiarem. É uma fábrica de arte. O Ed Moraes, por exemplo, ensaia a nova peça dele aqui. Estou dirigindo um solo da Paula Cohen e um espetáculo de rua. Também estou gostando muito de escrever.

Miguel Arcanjo Prado — Aonde você quer chegar?
Pedro Granato — Prefiro al andar se hace el camino…. Agora, vou estudar em julho um mês no Lincoln Center, em Nova York. Vou fazer um laboratório de diretores, para pensar o teatro para as novas gerações. É preciso que o teatro se renove com essa gente que está chegando. Eu nunca fui do teatro clássico, de fazer tragédia grega para depois fazer Shakespeare. Sempre fui fazendo o meu teatro. E acho que essa divisão entre as artes vai cair. Quero misturar tudo, construir coisas novas, híbridas. Quero dar grandes pulos, não pulinhos. Quero dirigir teatro, show, rua, solos e, quem sabe, uma ópera… Adoro dirigir, construir histórias. As crises e inquietações da minha própria vida estão em todas as obras minhas. E eu gosto de público. Acho que saí do cinema e fui para o teatro porque tinha uma urgência de comunicação com o público. Gosto de fazer e ver as pessoas responderem ali, na minha cara e, quem sabe, mudar tudo no dia seguinte.

O diretor Pedro Granato: “Quero misturar tudo, construir coisas novas, híbridas” – Foto: Bob Sousa

Quanto Custa?
Avaliação: Muito bom
Quando: Terça e quarta, 21h30. 60 min. Até 11/6/2014
Onde: Teatro Pequeno Ato (r. Teodoro Baima, 78, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 99642-8350)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Mais um que realmente é descolado e não um “poser”. Dá para notar que o Granato respirou e respira cultura e, no entanto, não sai por aí vomitando o quanto é culto e antenado. Deu uma entrevista muito normalmente, com respostas muito espontâneas, como ocorrem no blog (até hoje, somente uma entrevista me deu a impressão de que a pessoa entrevistada ficou pensando antes de responder).

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