Domingou: O teatro do negro e o negro no teatro

A atriz Ruth de Souza, um dos ícones do teatro brasileiro – Foto: Divulgação

“Aliás, por que a maioria dos elencos é branca? Por que não há negros nem nas plateias de teatro, e quando há, contam-se nos dedos? “

O ator Fabio Oliveira – Foto: Divulgação

Por FABIO OLIVEIRA*
Especial para o Atores & Bastidores

Os nossos 388 anos de escravidão sempre cobrarão seu preço. Nossa sociedade foi construída com base nessa exclusão. E a nós, cidadãos negros, pardos, indígenas, é cobrada a invisibilidade – como porteiros, domésticas, motoristas, ou como presidiários, mendigos, excluídos de todo tipo.

Ser artista e negro no Brasil é um paradoxo: se somos invisíveis, como é que estamos lá, querendo ocupar um espaço?

Vivemos um apartheid, velado, mas presente. Na faculdade, negros éramos apenas eu e mais uma menina. Viemos de onde há pouco ou nada e não somos bem-vindos aonde chegamos: por entrar por meio de cotas, uma moça me disse “então foi você que roubou o lugar da minha prima?”. A prima em questão era branca.

Na formação há quem diga que tem papéis que não são pra você – o advogado, a mulher refinada, a pessoa inteligente – e os que são pra você – a prostituta, o cafetão, o traficante.

É uma formação cara, mais acessível a pessoas brancas. Essas mesmas pessoas são de um lugar social onde a maioria é branca. Poucos convivem com pessoas negras que não sejam empregados, poucos têm amigos negros. Então, o negro é sempre o outro, é sempre de outra realidade.

Se um artista se forma sem questionar esses lugares, tende a replicar esse modelo. Qualquer pessoa negra, em sua obra, estará no limite que impõe o estereótipo: o diferente, o exótico, o outro.

Os donos dos meios de produção no Brasil, inclusive os artísticos, são na maioria brancos. Os negros são técnicos, carregadores, camareiras.

Somos os atores invisíveis nessa construção cultural. E essa mesma classe, dos donos dos meios de produção, protesta quando existe a possibilidade de um edital para artistas negros.

São muito raros os elencos com diversidade étnica. O que não é visto como um problema. Mas deveria. E por isso é fundamental e ao mesmo tempo triste que haja no Brasil grupos negros.

É fundamental para que possamos resistir como artistas, e é triste por que demonstra o pouco espaço em outros lugares, o quanto há ainda de racismo.

Muitos verão esse teatro negro como fenômeno sociológico, antes de fenômeno artístico. Mas e os elencos exclusivamente brancos? Não são também um fenômeno sociológico? Por que seriam mais artísticos?

Aliás, por que a maioria dos elencos é branca? Por que não há negros nem nas plateias de teatro, e quando há, contam-se nos dedos?

Por que a maioria dos produtores é branca? Por que não há diretoras negras no teatro, ou se há, é uma infinita minoria? Por que Chiquinha Gonzaga, negra, foi interpretada por uma mulher branca na TV?

Quantos negros no País foram Hamlet ou Medeia?

Isso está mudando, eu sei. Há exceções. Mas por que tão poucas? O mundo da arte muitas vezes apenas reflete a sociedade racista que temos. Embora após a Lei Áurea possamos andar livremente em qualquer lugar, não, não somos bem-vindos em qualquer lugar.

Ocupamos ainda o espaço da desconfiança, o espaço do medo, o espaço do “outro” em uma sociedade que ainda sonha em ser Europa, ou ao menos, como diz Chico Buarque, sonha tornar-se um imenso Portugal.

*Fabio Oliveira é ator, produtor e cantor, formado pela Universidade Anhembi Morumbi e pela Escola Livre de Teatro. Atuou nos espetáculo Till, dirigido por Renata Zhaneta, Bodas de Sangue, com direção de Simoni Boer, e A Respeito do Caso Dessa Tal de Mafalda, dirigido por Guilherme Sant’anna. A coluna Domingou, uma crônica semanal, é publicada todo domingo no blog Atores & Bastidores do R7.

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Respeito a opinião do Fábio, mas discordo bastante de algumas de suas colocações.
    Sobre invisibilidade, penso que atinge não apenas o negro, mas também o homossexual, o portador de necessidades especiais e o menos favorecido economicamente.
    Creio que deva haver espaço para o debate, para que todos os pontos de vista acerca do tema possam ser ouvidos, como deve ocorrer em uma sociedade democrática.

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