45 anos depois: “Morte de Cacilda Becker produziu coma no teatro; mas ressuscitamos”, diz Zé Celso

A atriz Cacilda Becker: ela nunca morre no palco do Teat(r)o Oficina – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Vai ser com muito vigor teatral no palco do Oficina, em São Paulo, que os 45 anos de morte da atriz Cacilda Becker (1921-1969) serão lembrados, durante a encenação da peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, a partir das 21h deste fatídico sábado (14).

No dia 14 de junho de 1969, Cacilda morreu após 38 dias de coma, depois de sofrer um derrame cerebral em pleno palco, encenando Esperando Godot, de Samuel Beckett (1906-1989).

Zé Celso em cena de Walmor e Cacilda 64: Robogolpe – Foto: Jennifer Glass

O diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, escreveu um texto especial por conta da efeméride: 45 anos da Ethernidade de Cacilda.

Nele, pede que as cartas e entrevistas de Cacilda Becker sejam publicadas, “pois sua importância não se refere somente ao teatro brasileiro; é universal”.

Na visão de Zé, Cacilda “antropofagiou” a melhor dramaturgia do hemisfério norte, colocando, por exemplo, o minimalismo de João Gilberto na trilha de suas montagens.

— Cacilda eletrificava suas personagens. Criava, como todo grande artista, a partir da devoração de seu corpo feito de ossos, nervos, artérias à mostra. Era muito magrinha, mas tinha o que é mais precioso e necessário em sua arte: as entranhas transparentes de seu Corpo Elétrico Quântico Aceso!

Zé Celso afirma que os textos que Cacilda escreveu, ainda desconhecidos, “contribuem tanto (ou mais) pra esta arte quanto Stanislavski, como Artaud”.

—Pena que parte de sua correspondência amorosa com [Adolfo] Céli esteja proibida pelas duas famílias: a de Céli (na Itália, pelo filho do diretor, onde se encontram as cartas) e aqui no Brasil, por seu filho.

Memória misturada com atualidade: Sylvia Prado, como Cacilda, e Juliane Elting, como Maria Della Costa, na peça Walmor e Cacilda 64: Robogolpe – Foto: Gal Oppido

Cacilda Rainha

O diretor do Oficina ainda revela que haverá mais uma capítulo da série sobre Cacilda Becker. A primeira peça, Cacilda!, teve Bete Coelho, Leona Cavalli e Giulia Gam no papel título. A segunda, Cacilda!! Estrela Brazyleira a Vagar, teve Ana Guilhermina. A terceira, Cacilda!!! Glória no TBC e 68 AquiAgora, e a quarta, Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro, tiveram o papel título dividido por Sylvia Prado e Camila Mota, que também assumem a atriz na peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, em cartaz. E vem mais por aí, segundo Zé.

— Estamos agora ensaiando a Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada. Acho que montamos no OficinaUzynaUzona 50% da Odisseia. Se a vida me permitir, quero montar toda, pois sinto que temos de passar pra todas as gerações que aqui estão – e pras que virão – o fenômeno fascinante que essa atriz, aatriz, astro deixou no rastro luminoso de sua passagem pela Terra.

Glamour no DOPS

Zé lembra de um episódio curioso vivido por Cacilda durante o regime militar que entrou na peça Robogolpe.

— Veio os 50 anos de Golpe de 64 e eu me lembrei que havia uma parte que se passava durante o Golpe Militar, onde Cacilda Becker, Maria Della Costa (quase toda Classe Teatral de SamPã) foram depor no DOPS em carros de luxo, vestidas com os grandes figurinistas internacionais da época, numa estratégia política absolutamente inédita, inesperada. Na imundice que era o DOPS de São Paulo, deram um show de elegância pop, hipnotizando o delegado com a arte teatral e conseguindo que os teatros fechados pelo Golpe Militar fossem todos reabertos.

Camila Mota como Cacilda Becker – Foto: Jennifer Glass

Segundo o artista, Walmor y Cacilda 64: Robogolpe “vai enfrentar a Copa”, ficando em cartaz até 29 de junho no Oficina. Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada estreia em 26 de julho.

Falta de grana e nova atriz

A nova obra tem elenco reduzido, “devido à grave situação econômica” do Oficina. E Zé revela que há uma vaga importantíssima no elenco que ainda não foi fechada:

— Estamos em busca desesperada da atriz que possa trazer a beleza e o talento da Tônica Carrero, enfrentando a Rainha Cacilda.

Zé conta que cumpre, com a saga, uma promessa feita ao irmão, Luiz Antônio Martinez Corrêa, assassinado no Natal de 1987.

—A Odisseia foi imaginada antes por meu. Quando fui internado com erizipéla na Ala dos Indigentes na Santa Casa – estava apavorado achando que tinha Aids –, fiz então uma promessa pra Luiz Antônio e pra Cacilda, de escrever a peça que ele tinha começado a imaginar e colocar a grande atriz – até transcendendo a Arte Teatral – como num desfile imenso de escola de Samba. Vamos comemorar dia 14 de junho de 2014 ensaiando estes 45 anos que inicialmente produziram um coma no teatro brasileiro; nós, depois que pusemos na pista Cacilda!, ressuscitamos!

Walmor y Cacilda 64: Robogolpe
Quando: Sábado, 21h; domingo, 19h. 120 min. Até 29/6/2014
Onde: Teat(r)o Oficina (r. Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo, tel. 0/xx/11 3106-2818)
Quanto: R$ 40 (inteira); R$ 20 (meia-entrada) e R$ 5 (moradores do bairro com comprovante)
Classificação etária: 16 anos

Conheça o blog do Zé Celso!

Marcelo Drummond vive Walmor Chagas e Camila Mota, Cacilda, na peça Robogolpe – Foto: Jennifer Glass

Curta nossa página no Facebook!

Leia também:

Fique por dentro do que rola no mundo teatral

Descubra tudo o que as misses aprontam

Tudo que você quer ler está em um só lugar. Veja só!

 

Você pode gostar...

1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Cacilda foi ícone. Quanto a isso, não se discute. Em parte, lamento pela Cleyde Yáconis, que era também brilhante, mas foi um pouco ofuscada pelo sucesso da irmã. É que Cacilda era tão luminosa que as pessoas deveriam ficar um pouco deslumbradas com ela que não deveriam enxergar quem estava por perto. Mas a Cleyde tinha tantos méritos quanto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *