Entrevista de Quinta: “Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira

 

Michelle Ferreira: atriz formada na EAD vira dramaturga de sucesso – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Michelle Ferreira desconstrói a imagem que muita gente ainda tem da figura do dramaturgo. Jovem, bonita, articulada e decidida, já é um dos novos nomes da cena teatral paulistana, sobretudo após a ter escrito e dirigido a elogiada peça Os Adultos Estão na Sala.

Nesta sexta (27), vive momento marcante. Estreia no palco do Teatro Anchieta do Sesc Consolação, um dos mais tradicionais de São Paulo, sua peça Sit Down Drama, com elenco de 12 atores capitaneados pelo diretor Eric Lenate. A obra conta a história de um humorista que se dá mal após fazer uma piada ao vivo na TV.

A estreia é uma espécie de volta para a casa. Já que integrou por oito anos o Círculo de Dramaturgia do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), sob comando de Antunes Filho, que fica no mesmo prédio do teatro.

Em uma tarde de sol de inverno no Teat(r)o Oficina, ela se encontrou com o Atores & Bastidores do R7 nesta Entrevista de Quinta.

Falou sobre o enredo de sua peça se parecer com a história real ocorrida com Rafinha Bastos e Wanessa Camargo, contou seu começo com uma peça escolar e falou sobre este momento de destaque.

Leia com toda a calma do mundo.

Michelle Ferreira é autora da peça Sit Down Drama, que estreia em SP – Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — A história da sua peça lembra muito o caso Rafinha Bastos versus Wanessa Camargo. Se alguém falar que você se inspirou nele o que você diz?
Michelle Ferreira — Que é mentira. Porque eu escrevi a peça antes de tudo isso acontecer. Vou até brincar: ele que deveria me pagar os direitos da própria história [risos]. Desenvolvi a história de 2008 para 2009 [o episódio Rafinha x Wanessa, quando ele disse no ar no CQC que comeria Wanessa e seu bebê, gerando sua demissão da Band, ocorreu em 2011]. E a história não é igual ao que aconteceu com ele. É só parecida. Sit Down Drama representa outras coisas também.

Miguel Arcanjo Prado — O que você acha dessa coincidência de escrever um argumento que logo depois aconteceu de verdade?
Michelle Ferreira — A coincidência é engraçada, louca, inusitada. Eu não acredito em nada, sou ateia, mas as coisas estão aí… A gente respira o mesmo ar…

Miguel Arcanjo Prado —Você quis em sua peça criticar o politicamente correto?
Michelle Ferreira — A gente vive um momento de muito politicamente correto. O que aconteceu com o Rafinha Bastos é por causa desse “Vigiar e Punir” quem cria. Tomara que ele vá assistir. Eu respeito a história dele, mas a peça não é ela, é muito mais do que isso. A diferença para o Rafinha Bastos é que meu personagem não se redime. É através dessa derrocada que o personagem se entende.

Miguel Arcanjo Prado — Como você escreve?
Michelle Ferreira — Depende. Quando estava no CPT [Centro de Pesquisa Teatral do Sesc Consolação, comandado por Antunes Filho] e não tinha perspectiva em montar, tomava mais tempo… Mas, você sabe, o melhor amigo do escritor é o deadline.

Miguel Arcanjo Prado — Do jornalista também.
Michelle Ferreira — Pois é. Normalmente, escrevo rápido. Preciso de uma teia mental antes para sentar e escrever. Mas, no momento em que escrevo, não consigo sossegar até acabar. Sou obsessiva. É vertical o negócio. Quando estou escrevendo, nem vivo direito.

Miguel Arcanjo Prado — Como você começou a escrever?
Michelle Ferreira — Desde muito criança. Eu dizia na EAD [Escola de Arte Dramática da USP], logo que eu entrei, com uns 20 anos, que eu já tinha 20 anos de carreira. Porque a minha avó me emprestou bebê para fazer o presépio vivo. Fiz o Menino Jesus, um grande papel [risos].

Miguel Arcanjo Prado — Como foi sua infância?
Michelle Ferreira — Sim. Sou filha única. Na verdade, sou neta única, porque fui criada pelos meus avós. Então, minhas companheiras de brincadeira eram a enciclopédia Barsa e o livro do Alexandre Dumas. Fui alfabetizada muito cedo. Gostava mais do mundo dos adultos do que das crianças.

Miguel Arcanjo Prado — Onde você morava?
Michelle Ferreira — Em Atibaia [região serrana próxima a São Paulo], em uma casa de campo. Fiquei lá dos sete aos 14 anos. Ficava isolada, não tinha vizinho. E meu avô me deu uma Olivetti [máquina de datilografia] quando eu tinha nove anos. Comecei a escrever muito.

Miguel Arcanjo Prado — E na escola?
Michelle Ferreira — Tinha uma professora de português descendente de alemães, chamada Hildegard, e um dia a contrariei.

Miguel Arcanjo Prado —Por quê?
Michelle Ferreira — Ela propôs de montarmos a peça Quem Casa Quer Casar, do Martins Pena. Achei uó. Eu já tinha visto muito coisa, muito cinema, nas fitas do meu avô: vi tudo do Charles Chaplin, O Poderoso Chefão, 2001 — Uma Odisseia no Espaço, Taxi Driver… Então, queria fazer outra coisa.

Miguel Arcanjo Prado —E você brigou com a professora?
Michelle Ferreira — Eu falei que não gostava da peça. Aí ela falou que já que eu achava a peça ruim, por que então não escrevia uma. Passei o fim de semana escrevendo e, na segunda, entreguei a ela minha primeira peça.

Miguel Arcanjo Prado — E ela montou?
Michelle Ferreira — Sim! Se chamava A Ascensão e Queda de um Político Corrupto. Estávamos na Era Collor, então criei um personagem que nascia no morro e terminava no Planalto. Mas tinha um fim moralista que hoje eu mudaria. O personagem termina a peça no inferno [risos].

Michelle Ferreira escreveu sua primeira peça na infância – Foto: Bob Sousa

Miguel Arcanjo Prado — Você já sabia que faria teatro profissionalmente?
Michelle Ferreira — Sabia. Sempre soube. Outra coisa não ia dar… Meus avós sempre me deram muita força. Quando fiquei adolescente a gente voltou para São Paulo, porque queria me preparar para o vestibular, fazer um colegial mais forte. Eles me deram toda força. Fui muito estimulada. Mas antes do vestibular fiz intercâmbio.

Miguel Arcanjo Prado — Onde?
Michelle Ferreira — Connecticut, nos Estados Unidos. Fui crescer, me virar.

Miguel Arcanjo Prado — E o que fez na volta?
Michelle Ferreira — Queria fazer cinema por um tempo. Mas aí prestei vestibular para ciências sociais na FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP]. No segundo ano da faculdade, passei na EAD. Cheguei a fazer as duas juntas por dois anos, mas depois fiquei só na EAD.

Miguel Arcanjo Prado — Como era na EAD?
Michelle Ferreira — É um curso muito focado para atuação. Mas eu continuei a escrever por conta própria.

Miguel Arcanjo Prado — E como entrou para o Círculo de Dramaturgia do CPT?
Michelle Ferreira — Recebi um recorte de uma notinha no jornal, falando que estavam com processo seletivo aberto. Mandei dois textos e passei. Fiquei oito anos, de 2003 a 2011.

Miguel Arcanjo Prado — Como foi?
Michelle Ferreira — Era tudo focado na produção independente de casa um. A gente levava porrada do Antunes, mas sempre dentro do nosso universo. Foi no CPT que me tornei uma dramaturga de fato. Ele acabou comigo e me mandou ir em frente. O Antunes diz que é mais fácil ser campeão de Fórmula 1 do que um bom dramaturgo. A primeira peça que escrevi lá é Urubu Comum, que ainda não foi montada.

Miguel Arcanjo Prado —E a carreira foi deslanchando?
Michelle Ferreira — Pois é. Fui conhecendo muita gente. A primeira peça montada é metade minha e metade do Germano Mello, que é Como Ser uma Pessoa Pior, com a Lulu Pavarin. A segunda também não é só minha, Estudo Hamlet.com, que fiz para o Cacá Carvalho. A primeira só minha montada profissionalmente foi Os Adultos Estão na Sala, com a Má Cia. Provoca, que é o meu grupo.

Miguel Arcanjo Prado —Você descontrói a imagem que muita gente tem do dramaturgo.
Michelle Ferreira — Todo mundo pensa no velho barbudo no gabinete, né? [risos]

Miguel Arcanjo Prado —E Sit Down Drama?
Michelle Ferreira — O Ricardo Grasson me pediu uma peça para poucos atores. Falei: não tenho condição agora de fazer uma nova. E ofereci essa. Ele leu, gostou, aí eu joguei o nome do Eric Lenate para dirigir, porque sempre quis trabalhar com ele. Só que ele me pediu uma peça com poucos atores e são 12 pessoas em cena! [risos]

Miguel Arcanjo Prado — Como você lida com essa repercussão do seu trabalho na classe artística e também junto aos críticos?
Michelle Ferreira — Eu tento achar tudo normal, embora não seja [risos]. Acho tudo louco. Isso de estrear sexta agora na casa do mestre. Chego lá no Teatro Anchieta do Sesc Consolação com o maior respeito. Não sei como vai ser. Vamos ver o que as pessoas vão achar. Podemos sair aplaudidos ou dentro de um camburão. O que é bom também, porque faz parte do folclore.

Miguel Arcanjo Prado — Tem novos projetos?
Michelle Ferreira — Vou estrear no segundo semestre Reality Final, que é uma peça que faz dupla com Sit Down Drama. Vai ser com meu grupo, a Má Cia. Provoca, que tem eu, a Flávia Strongoli, a Michelle Boeschie, o Ramiro Silveira, a Maura Hayas e a Solange Akerman. Também tenho uma produtora audiovisual, a No Cubo Filmes. Tenho feito pilotos para TV… Em julho, estreia em Porto Alegre a peça A Vida Dele. Neste ano, também vai estrear Animais na Pista, outro texto meu.

Miguel Arcanjo Prado — Você quer fazer, além de teatro, cinema e TV?
Michelle Ferreira — Sim. Eu gosto do sim para tudo.

Miguel Arcanjo Prado —Qual é a cara do seu trabalho?
Michelle Ferreira — [pensativa] Qualquer outra pessoa responderia essa sua pergunta muito melhor do que eu… Voltando à sua pergunta, não sei que cara que é, mas sei que tem.

“Não sei qual é a cara do meu trabalho, mas sei que tem”, diz Michelle Ferreira – Foto: Bob Sousa

Sit Down Drama
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 18h. 80 min. Até 10/8/2014
Onde: Sesc Consolação – Teatro Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, São Paulo, tel. 0/xx/11 3234-3000)
Quanto: R$ 6 a R$ 30
Classificação etária: 16 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Quanto à polêmica envolvendo a cantora Wanessa, só posso lamentar por ela, que não pediu para estar no “olho do furacão” daquele acontecimento midiático. Concordo com a entrevistada que o politicamente correto pode ser chato, mas penso também que há limites para tudo. Manifesto total e irrestrito apoio ao posicionamento da cantora Wanessa, pois eu também me sentiria ofendidíssimo se estivesse em seu lugar.

  2. Crítico impiedoso disse:

    MIchelle é maravilhosa! A típica menina burguesa que só queria fazer o espetáculo que assistia de seu apartamento. Cidadã inexpressiva e de nenhuma autocrítica.

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