Teatro de Rua: Peça questiona a falta de água em SP

[Des]água: ritos de rios e ruas como forma de interromper o curso do sistema – Foto: João Claudio de Sena

“A gente precisa é de uma revolução”
Coletivo Alma

Por SIMONE CARLETO*
Especial para o R7

No horário de início do espetáculo [Des]água, do Coletivo Alma (Aliança Libertária Meio Ambiente), o grupo forma uma roda para o aquecimento.

Ao emitir os sons da bela vocalização que fazem como preparação para a cena, atraem as pessoas que transitam pelo local. Como comentou Anderson Silva Oliveira, trabalhador do setor de produção de uma fábrica e que ia cortar o cabelo quando observou os instrumentos musicais colocados na praça do Patriarca, em São Paulo, durante apresentação na Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas 2013.

Na mesma praça, o grupo fez temporada do espetáculo até o dia 20 de agosto de 2014 e agora segue para apresentações em diversas cidades do Estado.

Em meio ao trânsito de pessoas e sons próprios do local, com o forte calor do sol, o elenco convocou o público para a representação, desejando boa tarde e abrindo alas para o teatro de rua.

Coletivo Alma: grupo tem forte militância ambiental na zona leste de São Paulo  – Foto: João Claudio de Sena

Com direção geral de Edgar Castro, os atores e atrizes logo mostram que cantam, dançam, representam e tocam instrumentos, características de artistas que desenvolvem diversas habilidades para conquistar o público. Na rua, a capacidade de comunicação é calcada nessa presença viva.

A trupe se apresenta, contando a respeito de sua origem e militância ambiental na zona leste de São Paulo. A dramaturgia do espetáculo é concebida pelo coletivo com colaboração de Rogério Guarapiran em quadros que podem ser vistos individualmente. No elenco, estão Adilson Fernandes “Camarão”, Adriana Gaeta, Alexandre Falcão, Ana Rolf, Fabrício Zavanella, Letícia Elisa Leal, Mauro Grillo e Thiago Winter.

Eles dão vida às personagens da fábula, mostrando dois povos: o povo bacia, que celebra a natureza, e o povo pneu, que aprisiona a força das águas – e se encontram às margens de um rio morto, entrando em conflito.

Os artistas representam diferentes papéis, com figurinos de Samara Costa em cores que remetem à relação com a terra e a natureza e são transformados com adereços durante o espetáculo. Assim, contam a história de como os seres humanos no sistema capitalista exploram recursos naturais e pessoas como se fossem infinitos.

Cadê o rio?

“Cadê o rio que estava aqui?” Pneus, bacias, balde, moringas, água e a música executada ao vivo com direção de Raniere Guerra dão os tons das cenas, que presentificam a pesquisa realizada em lugares em que o curso dos rios foi canalizado com a urbanização.

Cadê o rio que estava aqui? – Foto: Annaline Curado

O grupo discute os desdobramentos e engrenagens de um sistema que chegou a um quadro insustentável: tendo a água como alegoria, mostra-se o esgotamento do planeta.

O coro entoa: “Pra onde você vai? Tudo compra, compra, e nada alivia!”. São apresentados animais em águas contaminadas; população ribeirinha em área que sofre ameaça de remoção. “Como nossa vida rio pode seguir livre?”, diz a integrante do “povo bacia”.

Retrata-se a vida caótica na cidade, em meio ao individualismo, nervosismo, confusão e palavrões; a exploração dos trabalhadores; processos de disputa por lucro, poder; cooptação e alienação.

A empresa que produz água engarrafada [Des]água mostra em detalhes alguns meandros desses processos e ainda distribui uma “amostra grátis” do produto, numa pequenina garrafa.

Proposta à reflexão

Então, a partir da interação com o público e forte presença do caráter ritualístico do teatro, o grupo acentua a possibilidade de reflexão, evidenciando contradições e provocando os presentes a pensar em possíveis soluções.

Desse modo, aprofundam a abordagem sobre o tema de forma contundente e realizam um dos principais aspectos do teatro de forma épica: antes de somente julgar é preciso colocar em questão e em relação.

*Simone Carleto é atriz, diretora e arte-educadora com graduação e mestrado em artes pela Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho). Doutoranda pela mesma instituição, com a orientação do prof. dr. Alexandre Mate, pesquisa propostas de formação de atores e atrizes e coordena a Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. A coluna Teatro de Rua é uma idealização do fotógrafo Bob Sousa; ela é escrita por pesquisadores da pós-graduação do Instituto de Artes da Unesp. 

Enquanto o nível do reservatório cai a cada dia, o Coletivo teatral Alma chama atenção da população de SP para a falta de água em espetáculo de rua – Foto: Annaline Curado

 [Des]água
Com o coletivo Alma (Aliança Libertária Meio Ambiente)
Onde e quando:
Atibaia (dia 25 de agosto), às 16h na Praça Guanabara
Itanhaém (dia 27 de agosto) às 19h na Praça Narciso de Andrade (Praça Central)
Jandira (dia 14 de setembro) às 16h no Assentamento do MST
Presidente Prudente (19 de setembro) às 20h no espaço da Federação Prudentina de Teatro
Panorama (dia 20 de setembro) às 19h no Departamento de Cultura
Tupi Paulista (dia 22 de setembro) às 10h na Escola Municipal Prof. Leônidas Ramos de Oliveira
Quanto: Grátis (obs. em caso de chuva as apresentações em espaço aberto serão canceladas).
Classificação etária: Livre

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Absolutamente atual. Sem mais o que dizer.

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