Felipe Hirsch responde à crítica de Puzzle no Mirada

 

Imagem da peça Puzzle, apresentada no Mirada 2014, com direção de Felipe Hirsch – Foto: Divulgação

Nota do Editor: O diretor do projeto Puzzle, Felipe Hirsch, escreveu um texto em resposta à crítica Elenco de Puzzle potencializa discurso desesperançado sobre o Brasil de Felipe Hirsch. Abaixo, a argumentação do artista é reproduzida na íntegra:

“Amigos, eu não tenho por costume responder críticas e sei que o jornalista Miguel Arcanjo Prado fez seu trabalho com carinho, respeito e, pelo que se vê, admiração. Só o faço porque existem algumas suspeitas perigosas:

Primeiro, é importan…te situarmos o projeto com alguns textos aqui repetidos:

PUZZLE (a) fala sobre o extermínio da delicadeza.

É sobre isso a cena do menino com “a metralhadora suja”.

Como disse o Wisnik, a reafirmação da violência avassaladora e generalizada.

Fala com raiva irracional, estupidez, enfim, com vários sentimentos que nos distanciam da sabedoria.

Puzzle é mal criado, mal educado.

Mas é, essencialmente, uma irônica peça de ficção científica (ultrapassada) que fala o que Jorge Mautner falou há 40 anos (e por isso mesmo, fala de novo) no conto Caos.

É também um grito primal sobre um país tão complexo, tão intraduzível, tão isolado, tão anestesiado, tão agredido e tão agressor.

Na parte (c) uma pessoa é arrastada para o teatro. E ela acha o teatro muito violento. Não a vida. O teatro. Íntimo demais. Próximo demais. Errado demais.

Puzzle é assim porque admitiu o acaso, o desespero, no meio de tantas opiniões e certezas.

O crítico aponta um erro gramatical cometido por um ator na estreia de Puzzle (d). E cobra isso. Afirma que “Puzzle (d) minimiza a língua portuguesa” mas, no entanto, não a usa com exatidão.

Ele acerta ao falar sobre o erro, mas desconsidera que uma palavra foi conjugada erradamente em uma sessão única na estreia do espetáculo. Um erro isolado no meio de um milhão de palavras em um único dia. Mas, está certo. Lembro do erro.

No entanto, ele está absolutamente equivocado quando afirma que “Puzzle (d) minimiza a língua portuguesa” (esta é a sua frase, infelizmente truncada, mas razoavelmente clara).

Delicadamente, explico:

PUZZLE (d)

começa falando sobre São Paulo e dos manifestos paulistanos (Somos Concretistas! diz o Antropofágico e anos depois o Noigandres).

Esses homens incríveis que pensaram uma arte brasileira genuína dentro de um contexto mundial.

Fala dos pixadores também, justiça e mais amor sp.

E relembra o Klavibm II do Duprat e do Damiano Cozzella.

Depois, ouvimos a tal declaração de Bolaño sobre a Academia Brasileira de Letras, o Paulo Coelho e sua “divulgação” da língua “Brasileira”. Junto, um texto do Leminski sobre a inutilidade da arte em um mundo onde tudo tem que dar lucro.

Aqui está o foco da frase da crítica.

Atenção:

Falamos sobre a solidão de nossa língua. Falamos sobre o isolamento dos países da América Latina. Sobre o solipsismo dos seus poetas (todos com seus cursinhos de inglês e francês, e suas obras completas embaixo do braço).

Quanto aos muçulmanos, é triste ter que explicar a piada, mas vamos lá: o texto de André Sant’Anna repete frases ufanistas vazias, impostas e impositivas.

Falar que o Brasil é bom porque é e pronto.

Os marketeiros, o populismo evangélico.

Frases feitas, que opinam e repetem ideias pré-concebidas, não desenvolvidas, agressivas, preconceituosas etc. É claro que eu ou André, em hipótese alguma, afirmaríamos posições políticas contra ou a favor do estado Palestino, quando nosso assunto é outro. Bem distante desse.

Mais grave é a afirmação de que André Sant’Anna escreveu o texto do policial militar para culpar o povo, pobre e negro por sua desgraça. Um personagem está no palco. Um escritor se esconde atrás desse personagem. E ironiza na grandeza de um cargueiro de quatrocentas mil toneladas nossa desgraçada situação educacional.

Seria melhor ter lido o texto antes de escrever uma crítica perigosa dessas. Ainda que o faça com respeito, repito.

Copio aqui as últimas linhas do genial texto de André Sant’Anna para que tudo fique mais óbvio: “Essa é que a minha opinião sobre isso tudo que está por aí. Entendeu a metalinguagem, essas porra? Se não entendeu, é porque você é polícia, burro, burra. Você é burro hein?”

Por fim, o erro de leitura mais absoluto: a obra dos grandes artistas Dias & Riedwig chamada “O Universo do Baile” mostra Claudia Pantera lendo um capítulo da Constituição Federal sobre os direitos humanos. Como disse um jornalista, “é parte do jogo dos artistas e da própria Claudia, juntar a sensualidade que tem, que existe naquela boca, com a abjeção. Nesse momento então, alguns rirão com desdém, outros hesitarão e protestarão; o abjeto é aquilo que nos faz repensar. E é nesse momento que a obra demonstra seu lado extremamente humanista”.

Qual a sua dose de nojo, reticência, vergonha e preconceito?

e

Quais são os direitos assegurados ao povo?

5 minutos antes do início do espetáculo, eu reuni todos os atores e equipe (todos são testemunhas) e disse: “A explosão de fúria dessa peça é justamente contra quem é capaz de ler essa última obra como um manifesto fascista contra negros, gays, pobres. Puzzle não ignora o desprezo com a educação no nosso país. Não o mascara. Não o ufaniza. Celebra o teatro, a música e, principalmente a literatura Brasileira com (como disse a crítica) alguns dos maiores artistas desse país.

O crítico afirma, indefinidamente, que eu “posso não ter tido o objetivo de ser racista”.

Quem é estúpido a ponto de pensar que “negros e mestiços são culpados pelas mazelas do país”, esses são o meu alvo.

A obra de Dias & Riedwig definitivamente não é racista.

Sobre Puzzle (a) cito, impressionado, um texto que o crítico ouviu (?) durante a mesma apresentação, ao lado de 500 pessoas. Esse texto é dito por um personagem, político, irônico e branco:

“Das milhões de pessoas consideradas indigentes no Brasil, 70% são negros. Eu tenho um orgulho de ser misturado, de sentir correndo pelas minhas veias, o sangue negro dos meus ancestrais africanos. É um país sem preconceitos”.

Quer que eu desenhe? Quer que eu desenhe com tinta no papel do cenário?

Durante todo o período de produção e ensaios, por mais que saibamos o quanto Puzzle é perigoso e desafiador, nunca essa ideia de leitura infeliz foi sequer pensada. Eu tenho certeza que um dos motivos de ter escolhido essa profissão foi por me sentir livre para lidar com a ampla cultura de mouros, alemães, latinos e latino-americanos, anglo-saxões, judeus, negros, muçulmanos, esquimós etc. Enfim, acusações como essa são baseadas unicamente na subjetividade de uma interpretação injusta. Tentar atribuir preconceitos à força é cultivar sujeira comportamental na nossa sociedade. Esses supostos defensores de direitos humanos deformam o sério problema do preconceito e nos fazem perder o tempo precioso que dedicamos à cultura de nosso país.

Por fim, com respeito, me despeço do assunto definitivamente.

Felipe Hirsch

Resposta do crítico Miguel Arcanjo Prado: É salutar que o diretor Felipe Hirsch deixe mais claro qual é seu ponto de vista, coisa que não fica evidente no espetáculo, que corre o perigo de ser apreendido como representante de um discurso oposto ao desejado. Até porque em um festival abrangente como o Mirada, o espetáculo não se comunica apenas com a classe teatral, muito pelo contrário, é visto por um público heterogêneo, formado por comerciários e aposentados em grande parte, como percebeu o R7. Não se pode exigir do espectador o domínio das referências intelectuais do diretor para compreensão da montagem. Tampouco que a veja em seu conjunto de quatro distintas encenações, já que apenas uma se apresentou na programação oficial. O artista precisa antever que um texto fora de seu contexto original pode gerar outras leituras por parte do espectador. Assim, o final de Puzzle (a) pode ser interpretado tal qual na crítica, mesmo que isso não tenha sido pensado intencionalmente pelo diretor. Fica o alerta.

Atualizado Às 23h29

Resposta do diretor Felipe Hirsch: Desculpe, Miguel. Mas o ponto de vista não ficou claro para você. Para outros, quem sabe? E sua tréplica é, ironicamente e ingenuamente, preconceituosa quando afirma que “o espetáculo não se comunica apenas com a classe teatral, muito pelo contrário, é visto por um público heterogêneo, formado por comerciários e aposentados”. Quem disse que a classe teatral está mais preparada ou é mais sensível que um comerciário ou um aposentado? Que ideia estapafúrdia é essa? Não exijo referências intelectuais. Puzzle exige sensibilidade e dedicação. Coisa que lhe faltou. Não lhe vejo capaz de me dizer o que devo antever ou não. Sua leitura foi perigosa. Tenha medo dela. Não da peça. Não julgue ou adjetive um artista, precipitadamente, com “ismos de racismos”. É covarde, despreparado, desrespeitoso e perigoso. E você não se parece com isso. Há quem possa lhe repetir cacatuamente. Há quem lhe possa repetir por conveniência. Um espaço deve ser honrado. Leia O Crítico como Artista de Oscar Wilde e siga.

Leia a cobertura do R7 no Mirada

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1 Resultado

  1. Monica Pacheco disse:

    Não concordo com a ofensa gratuita aos policiais, pois nem todos são maus, corruptos e burros. A difusão da ideia de que policiais são burros e bandidos são heróis e inteligentes é um desserviço à sociedade. Acho que os autores da peça deveriam explicar melhor o sentido do texto para que ninguém ache que esta é a posição deles.

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