Crítica: Cubana tortura plateia do Mirada e expõe com crueza sobrevivência na ilha de Fidel Castro

Cena da peça Rapsódia para uma Mula (Rapsódia para el Mulo): grito de sobrevivência em meio à derrocada do socialismo em Cuba – Foto: Guto Muniz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Santos*

Espetáculos cubanos são sempre motivo de curiosidade quando apresentados fora da ilha sob comando dos irmãos Castro desde 1959.

Afinal, ver artistas deste país em cena é uma forma de apreender o que se passa realmente no contexto cubano, o que não costuma ser objeto de divulgação nos meios oficiais.

Quem viu Rapsódia para uma Mula, peça do grupo El Ciervo Encantado que representou Cuba na terceira edição do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, esteve diante de uma visão sombria e confrontante da realidade cubana. Quase que intragável.

Assim que os refletores que quase cegam a plateia — uma referência clara à tortura — diminuem sua força, o público vê surgir no espetáculo-performance a artista Mariela Brito. Ela está nua, com o corpo apenas pintado de forma tribal. E começa a arrastar por intermináveis 55 minutos uma carroça pelo cenário, num rumo que é dar voltas sobre o próprio eixo.

Rapsódia para uma Mula: combate diário pela sobrevivência em Cuba sem perder a esperança – Foto: Divulgação

Espécie de Mãe Coragem da ruína socialista, ela traz em sua carroça bugigangas distintas, em um arrastar cotidiano, uma espécie de combate diário repleto de esperança. Entre outros objetos, há espaço na carroça para uma pedra pesada, um retrato de família e um livro que faz clara referência ao comunismo decadente.

Enquanto a atriz se arrasta pelo palco com uma expressão de espanto que não sai de seu rosto, fazendo com que babe durante a caminhada lenta, uma rádio toca trilhas sonoras de grandes sucessos do cinema hollywoodiano de forma leviana.

A inspiração para o espetáculo dirigido por Nelda Castillo foi o poema homônimo de José Lezama Lima. A direção e a perfomer conseguem traduzir um clima de tensão misturada com cansaço tanto no corpo da artista quanto na plateia.

A realidade cubana surge em uma alegoria triste e constantemente assombrada, mas, sobretudo, resignada com seu infortúnio.

O momento final, no qual Brito chega ao limite do corpo e utiliza uma necessidade fisiológica como recado artístico potente, é também a possibilidade de confronto a quem não tem o direito a voz, ao discurso livre.

Ao fim, refletores voltam a cegar a plateia, enquanto a atriz permanece imóvel em sua triste sina. Rapsódia para uma Mula é um espetáculo tão difícil quanto deve ser viver e ser artista em uma ditadura. Mesmo que de viés supostamente esquerdista.

É importante salientar que o fato de o espetáculo existir diz muito sobre a Cuba atual. Prova de que a censura na ilha hoje já não é mais tão feroz quanto em tempos de outrora. Sinal de que a ditadura também já não é mais tão potente assim.

Rapsódia para uma Mula
Avaliação: Bom

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.

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