Crítica: Ao expor angústia de rapaz que só diz uma palavra por dia, Solilóquio recupera a ingenuidade

Peça carioca Solilóquio traz outra vez a inocência dos tempos de outrora – Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Especial para o R7*

Hoje em dia, num mundo cada vez mais banalizado, compensa mesmo falar de amor? Ainda mais um tema abordado tantas vezes? Pelo menos a peça Solilóquio, um Amor sem Palavras, em cartaz no Centro Cultural Solar de Botafogo, na capital fluminense, calibra muito bem sua principal arma: ele mesmo, o amor.

O caminho utilizado pelo diretor Zé Helou é contumaz. Aproveitou a leveza e o ótimo texto de Renata Amaral, adaptado da peça Humulus, o Mudo, de Jean Anouilh e Jean Aurenche,  para contar a história peculiar de Haroldo.

Este, um menino criado pela avó e três tias, que acaba sendo vítima de uma tragédia que o leva a uma anormalidade: ele só pode falar uma palavra por dia. Depois de se apaixonar na infância, ele decide guardar as palavras para poder se declarar ao seu amor.

Camadas

Não é uma história qualquer sobre amor. Aí está o grande acerto. Com uma sinopse primorosa, o diretor desfia o amor em diversas camadas.

Solilóquio pode sugerir a analogia com o amor platônico, tanto aquela ideia do senso comum, quanto aquela defendida pelo filósofo Platão (348/347 a.C.).

Amor platônico está presente na peça – Foto: Divulgação

Haroldo vivencia esse amor platônico, ou seja, o amor não correspondido. Ao se apaixonar por Helena (Viviana Rocha), ele não a toca, não se aproxima, não consegue se manifestar devido à sua condição e fica preso num mundo mais idealizado.

Amor carnal

De uma maneira mais geral, Platão via o amor carnal como uma escada que poderia levar a outros mais elevados. De certa forma, Haroldo vai passando por essas situações até se firmar naquele amor que é a raiz de todas as suas virtudes.

Mas, antes disso, o protagonista vivencia o amor físico, o amor ao belo, o amor ao conhecimento (a chegada do professor Teodoro), todos esses o levam a algum lugar de encontro consigo mesmo.

O personagem principal parece reproduzir esse amor platônico no nosso olhar mais comum. Mas diante da trama, vemos que ele se desloca para o outro amor, dinamizado por Platão.

Elenco tem química

Mas tudo isso poderia soar piegas se a peça não trouxesse um envolvimento dos seus atores de forma tão natural. A química entre eles é a base que amarra todo esse êxito.

Coadjuvantes e protagonistas (Haroldo é interpretado por dois atores em diferentes fases da vida) mostram um talento raro de se achar nesse tipo de produção carioca, que exige um esforço ímpar dos profissionais: aqueles que vão interpretando vários personagens ao mesmo tempo e não perdem a simbiose diante de diálogos ágeis, dinâmicos e criativos.

Há de se destacar que Rodrigo Miranda (Haroldo mais novo) e Jonas de Sá (Haroldo na fase adulta) dão cada um o peso que o personagem exige e inclusive num tempo da história que não é cronológico. O primeiro expressa muito a timidez e a introspecção na infância, e o outro dá o tom perfeito ao atuar somente com os gestos, conseguindo ampliar ainda mais as angústias do protagonista.

As atrizes que interpretam as tias dão um show particular. Laura Araujo, Mariana Bassoul e Renata Amaral se configuram como o cronômetro indispensável na vertente cômica da peça. São personagens deliciosas que merecem até uma história separada numa outra produção, ou seja, um reboot como é chamado nos seriados televisivos.

O roteiro não entrega nada tão fácil e abusa bastante dos elementos disponíveis em cena. O cenário de Lilian Doyle traz um espetáculo a parte, com suas mudanças repentinas e que se encaixam perfeitamente no quebra-cabeça cênico. A direção de movimentos ficou a cargo de Fabiana Valor que fez um trabalho sincronizado e que chega ser quase mimético, de tão emblemático.

Entraves

No entanto, Solilóquio padece de alguns entraves. Apesar de equilibrar muito bem o lado cômico e dramático, esse mesmo humor parece caçoar das aflições vivenciadas pelo protagonista, principalmente na cena em que ele é levado para uma casa de prostituição. É algo que, por pouco, quase perde a mão, ficando escrachado demais.

Alguns termos usados nos diálogos não condizem com a época que a peça sugere indicar, até mesmo com a localidade onde a história se passa e também com a idade dos seus personagens. Isso se nota no discurso das três irmãs em determinados momentos da trama.

Mesmo assim, Solilóquio ganha mérito por nos revelar uma ingenuidade perdida nos tempos atuais. Uma ingenuidade gostosa e nostálgica que talvez amacie esses tempos tão banalizados, nem que seja por meros 75 minutos.

*Jornalista mineiro radicado no Rio, Átila Moreno é graduado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC-Minas.

Solilóquio, um amor sem palavras
Avaliação: Bom
Quando: Terça e quarta às 20h. 75 min. Até 1º/10/2014
Onde: Centro Cultural Solar de Botafogo (Rua General Polidoro, 180, Botafogo, Rio, tel. 0/xx/11 2543-5411)
Quanto: R$30 (inteira) R$15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Roteiro interessantíssimo. Estou cansado de peças doidíssimas, que se vendem como “hipercabeça”. Algumas são realmente ótimas, interessantes, agora outras são profundamente agressivas, extrapolando o limite do que é ser provocador e partindo para o lado do grotesco. Peças como SOLILÓQUIO são uma brisa de ar fresco em meio a ambientes às vezes saturados…

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