Entrevista de Quinta: “Precisamos tomar café na casa do vizinho”, diz Juliana Sanches, do Grupo XIX

Juliana Sanches dirige América Vizinha, que o Grupo XIX estreia nesta sexta (3) – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Soy loco por ti, América, compuseram Gilberto Gil, Torquato Neto e Capinam em 1967. Quase 50 anos depois, o Brasil ainda mantém uma relação que vai pouco além do objetivo de integração proposto na música. Infelizmente, ainda impera o desconhecimento de brasileiros em relação à cultura de vizinhos na América Latina.

Em vias de aproximação maior, pelo menos nos palcos, o espetáculo América Vizinha, que o Grupo XIX de Teatro estreia nesta sexta (3), é uma iniciativa para promoção de um diálogo maior entre nossas artes cênicas e aquela produzida nos países limítrofes. Estão no elenco: Amilton de Azevedo, Bruno Piva, Daniel Viana, Débora Ribeiro, Denise Sperandelli, Gabi Costa, Juan Manuel Tellategui, Luísa Dalgalarrondo, Maria Carolina Dressler, Maria Isabela, Rosana Borges Silva, Thai Leão, Tatiana Ribeiro, Vanessa Candela e Vinicius Brasileiro.

A montagem faz par com ações como o Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo de São Paulo ou o Festival Internacional Ibero-Americano de Teatro de São Paulo. Porque muito precisa ser feito neste sentido.

A obra integra a Mostra Grupo XIX, que vai até 4 de novembro com seis peças gratuitas desenvolvidas pelos artistas da companhia e atores convidados, em sua charmosa sede, o Armazém XIX, na Vila Maria Zélia, zona leste paulistana. Além de América Vizinha, também serão apresentadas Memórias de Cabeceira, Foi num Carnaval que Passou: Cenas para Ver com Máscaras, Galeria Metrópole e Dramaturgias Secretas de uma Vida Sexual Pública.

Nesta Entrevista de Quinta o R7, Juliana Sanches, diretora de América Vizinha, fala sobre este trabalho e a relação dos brasileiros com seus vizinhos no continente, além de explicar, o que é preciso, em sua visão, para que uma mudança ocorra. E para melhor.

Leia com toda a calma do mundo.

Criada pelos atores e a diretora, América Vizinha olha para a América Latina – Foto: Rodolfo Ferronatto

Miguel Arcanjo Prado — Você acha que nós brasileiros pensamos erroneamente que não somos latino-americanos? Por quê?
Juliana Sanches —
Sim, acredito que vem desde a escola, em que aprendemos mais sobre a Europa, a escola nos liga mais com Portugal que com os vizinhos que fazem divisa conosco. Na adolescência, tem também o mercado musical, predominantemente norte-americano e inglês. Enfim, acho que não somos estimulados a nos interessar pelos vizinhos, e assim, não nos identificamos. Perdemos muito com isso, é muito triste.

Miguel Arcanjo Prado — O português é uma barreira entre o Brasil e o restante da América Latina? Como quebrar essa barreira?
Juliana Sanches — Eu acredito que a barreira vai além da língua. É nossa própria ignorância e falta de interesse. Nós mesmos costumamos misturar tudo num caldeirão, ignorando as diferenças entre esses países e nossa própria semelhança com eles. Na língua, todo mundo acaba se entendendo, mas tem uma arrogância, ao meu ver.

Miguel Arcanjo Prado — Quais países da América Latina você conhece?
Juliana Sanches — Eu só conheço o Brasil daqui. E olha que já fizemos peças em vários países europeus e até africanos. Foi essa constatação triste da minha falta de conhecimento que me estimulou iniciar essa pesquisa. Agora, quero muito poder conhecê-los, é a minha meta particular, quero começar já! [risos]

O ator Bruno Piva em cena de América Vizinha: “o processo foi muito solar”, diz diretora – Foto: Rodolfo Ferronatto

Miguel Arcanjo Prado — Como foi o processo da peça?
Juliana Sanches —
Como disse, o tema veio da constatação da minha ignorância. O processo foi muito solar, um clima que casou muito com minha ideia pessoal dessa América Latina (imagino cores de pôr do Sol com gente quente e sofrida). Os artistas-criadores foram de muita inventividade e amizade, foi muito prazeroso e acolhedor. Acho que isso me chamou a atenção, a formação desse grupo tão especial.

Miguel Arcanjo Prado — São quantos atores? Como eles contribuíram?
Juliana Sanches — São 15 atores-criadores. Desde o início as perguntas e respostas possíveis foram articuladas em forma de cenas, imagens, ideias, de forma que muitas destas cenas estão no experimento na íntegra ou em releituras inseridas no contexto.

Miguel Arcanjo Prado — Você frequenta festivais de teatro latino-americano? Juliana Sanches — Frequento os que temos por aqui. os considero importantíssimos, foi num desses festivais, o Mirada de 2012 que assisti uma montagem de Incêndios de um grupo mexicano e fiquei impressionadíssima com a escola de interpretação deles, tão diferente da nossa, de uma potência absurda. Quero ter a oportunidade de estudar com esses atores, esse registro de atuação é o que mais me atrai.

Amilton de Azevedo, em América Vizinha, inspirada em livro de Eduardo Galeano – Foto: Rodolfo Ferronatto

Miguel Arcanjo Prado — Quais figuras emblemáticas da cultura latino-americana estão na peça? Por que foram escolhidas?
Juliana Sanches — Seguimos uma inspiração forte no livro O Século do Vento, do Eduardo Galeano [escritor uruguaio], que cita diversos personagens. Escolhemos talvez os que nos eram mais familiares ou os que as histórias nos tocaram . Foi dificílimo, pois todo o livro é de uma beleza literária que torna difícil a adaptação teatral, mas, extremamente inspirador. Estão entre nós, Frida Kahlo, Violeta Parra, Pablo Neruda, Lupicínio Rodrigues, Carlos Gardel, Gabriel Gracía Marquez, Che Guevara, Evita, dentre tantos outros…

Leia reportagem especial sobre o teatro na América Latina

Miguel Arcanjo Prado — Como o espetáculo se coloca em relação à realidade atual do Brasil e dos outros países latino-americanos?
Juliana Sanches —
Acho que é a falta de vontade e tolerância da história para conosco, ao mesmo tempo da nossa eterna luta, cheia de beleza e garra e que continua todos os dias. Em época de eleição e debates, percebemos o quanto tudo isso mais parece ficção que realidade, e toda nossa história é assim!

O ator Juan Manuel Tellategui, em América Vizinha: “referências de extrema importância” – Foto: Rodolfo Ferronatto

Miguel Arcanjo Prado — Há atores de outros países da América Latina no elenco? Como foi esse diálogo do grupo de brasileiros com artistas estrangeiros? Isso enriqueceu o processo?
Juliana Sanches — Enriqueceu demais! Temos um argentino entre nós [o ator Juan Manuel Tellategui] e coitado! A todo momento, nós o consultávamos muito, além dele ser um gentlement, muito criativo e colaborativo, trouxe referências musicais e visuais de extrema importância no processo. E o lindo é que essa mistura de línguas e culturas estimulou esse clima tão solar. Todos trabalham muito bem juntos, tem uma simbiose acolhedora, fértil.

Miguel Arcanjo Prado — Qual o papel do teatro na troca cultural latino-americana?
Juliana Sanches — Um papel enorme! Temos tanto a aprender e a ensinar! Temos um maior acesso à literatura e, graças a esses festivais, conseguimos acompanhar minimamente o movimento teatral de nossos vizinhos, e eles, o nosso. Ainda acho poucos os festivais e os incentivos para uma peça argentina ou peruana, por exemplo, entrarem em cartaz por aqui. Também acho muito difícil estímulos que nos propicie apresentar nossos espetáculos nesses países. E a troca é sempre tão rica! Eu torço para novas parcerias entre países, mais encontros, mais tomar café na casa do vizinho, sabe?

Cena de América Vizinha, com o ator Daniel Viana em primeiro plano: peça estreia nesta sexta (3) – Foto: Rodolfo Ferronatto

América Vizinha
Quando: 03/10 – sexta, 19h30; 04/10 – sábado, 19h30; 05/10 – domingo,  19h30; 09/10 – quinta, 16h e 19h30; 11/10 – sábado,   19h30; 12/10 – domingo, 19h30. 90 min. Até 12/10/2014
Onde: Armazém XIX (r. Mário Costa, 13, Vila Maria Zélia (fica entre as ruas Cachoeira e dos Prazeres; metrô Belém, São Paulo, tel. 0/xx/11 2081-4647)
Quanto: Grátis
Classificação etária: 16 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Concordo totalmente com a resposta de Juliana sobre a falta de contato com a cultura latino-americana devido, lamentavelmente, ao neo-imperialismo ianque na indústria da Música. Aliás, a resposta dela é exatamente igual ao que falo com meus amigos. Não concordo tanto em relação ao comentário sobre as escolas, pois me recordo que, nos locais nos quais estudei, estudei bastante História e Geografia da América Latina e, durante a faculdade, pude interagir com colegas de países sul-americanos.

  1. setembro 23, 2015

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