Coluna do Mate: Uma mirada pelo Mirada

Atriz faz performance em frente ao mar no Mirada 2014 – Foto: Coletivo Pão & Circo

“De um território que está por explodir/ Sim
Mas é preciso ser sutil/ Pois justo na terra de ninguém
Sucumbe um velho paraíso/ Sim, bem em cima do barril
Exato na zona de fronteira/ Eu improviso o Brasil.
Rei/ Sei que sou/ Sempre fui/ Sempre serei
Oba/ De um continente por se descobrir
Já/ Alguns sinais/ Estão aí/ Sempre a brotar
Do ar/ De um território que está por explodir/
E/ Minha cabeça voa assim
Acima de todas as montanhas e abismos
Que há no país/ Mas algo chama a atenção
Ninguém jamais canta duas vezes uma mesma canção.”
João Bosco (Zona de Fronteira)

O pesquisador teatral Alexandre Mate – Foto: Bob Sousa

Por ALEXANDRE MATE
Especial para o R7*

De 4 a 13 de setembro de 2014 foi desenvolvido na bela cidade paulista de Santos, e em outras circunvizinhas, a terceira edição do Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos. Com programação intensa e diversificada, a edição deste ano homenageou o Chile e sua produção teatral.

Ao todo, constaram da programação a apresentação de mais de quarenta espetáculos, representando doze países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, México, Paraguai, Peru e Portugal. Especificamente do Chile, sete espetáculos, com diversas pesquisas de linguagem, constaram da programação.

Além dos espetáculos, foram inseridas na programação: duas mesas de discussão, sendo uma do teatro latino-americano e outra do teatro ibérico; três mesas, com temáticas distintas – dramaturgia, encenação e crítica teatral; dois “encontrões” – para que representantes de grupo nacionais e internacionais apresentassem procedimentos e alvos com relação aos seus processos de criação; e um encontro para troca de informações entre os representantes de festivais nacionais e internacionais.

Cena do espetáculo chileno A Imaginação do Futuro: Chile foi homenageado – Foto: Divulgação

Pela multiplicidade de propostas, ficou bastante difícil a uma única pessoa assistir a todos os espetáculos e a participar das ações formativas (nome atribuído ao conjunto de eventos em que era possível dialogar e trocar pensares, apreensões críticas. De qualquer modo, e sem dúvida, mesmo havendo tantas obras, tratou-se de um grande evento cultural.

Do tamanho e envergadura ao Mirada, não existe outro festival do mesmo tamanho e representatividade. Na condição de fomentador (cujo sentido se refere a aquecer), o festival (cuja origem da palavra diz respeito a festa, festividade), o Mirada aqueceu os povos que, em festa, mostraram suas obras, carregadas de crenças e costumes diversos, sotaques, imagens lindas, grandes intérpretes e organizadores da cena.

Cibele Forjaz promoveu encontros artísticos – Foto: Coletivo Pão & Circo

Atendendo ao convite da encenadora Cibele Forjaz, inseri-me na parte referente aos processos de formação e acompanhei a todos os encontros de reflexão e discussão. Nesse sentido, apresentei um relatório à coordenadora, buscando apresentar o que consegui flagrar e reproduzir criticamente com relação aos encontros.

Portanto, e em síntese (o relatório final teve 16 páginas), apresento a seguir algumas questões que se afiguram fundamentais com relação ao teatro praticado em parte substancial da América Latina, Portugal e Espanha.

— Ainda há poucas influências e conhecimento entre as produções teatrais brasileiras, latino-americanas, espanhola e portuguesa. Artistas dos diversos países (dos dois continentes: americano e europeu) conhecem apenas uma ou outra produção, um ou outro criador (na área de direção, criação do texto e atuação).

— A despeito de tantas serem as diferenças entre as produções internas e aquelas externas dos países latino-americanos, a atividade teatral, majoritariamente, se desenvolve nas grandes cidades e, sobretudo, nas capitais dos países.

Cena de um dos “Encontrões” promovido pelo Mirada 2014 no Sesc Santos; à esq., o pesquisador Alexandre Mate – Foto: Coletivo Pão & Circo

— Em boa parte das produções teatrais da atualidade, e tendo em vista as falas e espetáculos convidados, os temas desenvolvidos ligam-se às questões sociais urgentes e à recuperação de memórias de fazeres sociais significativos.

— À exceção da fala de Ramiro Osório (que já foi ministro da cultura da Colômbia), que apresentou aspectos do teatro colombiano, mexicano e espanhol (porque já viveu e trabalhou nos três países), a Colômbia, de fato, parece ser o único país na América Latina com efetiva política de governo na área de cultura. Ações governamentais têm sido desenvolvidas sazonal ou esporadicamente, mas sem continuidade, nos outros países da América Latina. Em Portugal, de acordo com fala apresentada por João Garcia Miguel, há um programa de fomento e incentivos, cujo espetáculo, resultante de um processo patrocinado pelo Estado, para prestar contas, precisa ficar em curtíssima temporada: o que não amadurece os espetáculos e tampouco os artistas da cena.

Cena da peça santista Projeto Bispo no Mirada 2014 – Foto: Eduardo Amaro

— Em muitos países latino-americanos, tendo em vista a produção praticada pela totalidade dos grupos não afinados ao modelo empresarial, a “qualidade” das obras e o classista conceito de “excelência” tem sido revisitado. Atualmente, são as singularidades e particularidades de criação que têm caracterizado o imenso trabalho de “tecimento criativo” do teatro. Grace Passô, em fala sobre a dramaturgia contemporânea, afirmou que nosso tempo reclama formas diferentes de escrita e de processos de negociação entre os artistas-criadores.

— O fazer teatro, lembrou a atriz e encenadora mineira Yara de Novaes, ainda que, com múltiplas diferenças, pressupõe o trabalho militante, diferentemente do montar uma peça. O diretor de Natal (RN), Fernando Yamamoto afirma haver no teatro de grupo, em tese, 4 categorias de formação de coletivos: grupos com direção permanente; grupos com direção permanente, mas com convites eventuais a novos profissionais da direção;  grupos de atores/ atrizes que, às vezes, convidam profissionais para dirigir; grupos de atores/ atrizes que trabalham sem direção.

— Em Portugal e Espanha, e isso decorrente, também, de questões continentais uma aderência muito significativa às proposições de mestres europeus, sem referência àqueles locais.

— Criadores de obras, sobretudo da Espanha e Portugal, mas não exclusivamente, apresentam teses sobre seus fazeres sem reverberação concreta dos discursos no resultado das obras.

Centro histórico de Santos é ocupado pelo Mirada 2014 – Foto: Coletivo Querô

— Diferentemente do (im)posto em algumas rodas e instituições no Brasil, na América Latina, o chamado teatro pós-dramático não tem acento ou parece não ter grande importância. Em sua fala, a importante pesquisadora do teatro latino-americano da atualidade, Beatriz Risk, ao comentar produções teatrais específicas (do México e da Colômbia), aponta a interação identitária sendo construída nos espetáculos, por meio do trânsito dialético, e em processo de permanentemente revisitação, com a alteridade.

— Artistas latino-americanos, de modo oposto ao praticado e (im)posto no Brasil, não usam a palavra depoimento. Em várias oportunidades, quando, do ponto de vista do senso comum se usaria a palavra-conceito entre nós, artistas e pensadores latino-americanos usam, em geral, a palavra testemunho. Afinal, o teatro não é um tribunal, cartório ou delegacia de polícia para que artistas tenham de depor sobre o que quer que seja.

Que possam vir muitas outras edições do Mirada e que aprendamos a criar territórios de conhecimentos e de trocas significativas de experiência.

*Alexandre Mate é professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) e pesquisador de teatro. Ele escreve sua coluna no blog sempre no primeiro domingo de cada mês.

“Que possam vir muitas outras edições do Mirada”, espera Alexandre Mate – Foto: Coletivo Pão & Circo

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