Crítica: Dignidade vence medo em Caros Ouvintes

Agnes Zuliani, Rodrigo Lopez, Alexandre Slaviero, Alex Grulli, Amanda Acosta, Petrônio Gontijo, Eduardo Semerjian e Nathália Rodrigues: elenco potente nas mãos de um autor e diretor sensível em Caros Ouvintes – Foto: Priscila Prade

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Há em Caros Ouvintes um desgosto que paira no ar. Uma melancolia imersa no medo iminente que tira a liberdade, enjaula a arte e assusta a todos. Mas, isso não é algo ruim. Muito pelo contrário, na obra a melancolia é perfeita e potencializa o discurso político que está por detrás do melodrama encenado.

O grande mérito do espetáculo produzido por Ed Júlio é, sob o pretexto de mostrar a decadência no rádio no Brasil à medida que os militares ganham cada vez maior poder na década de 1960, exibir que pensamentos tidos como já vencidos estão de volta. E seguem provocando pavor e ódio.

Artistas tentam encenar a última radionovela de uma rádio prestes a fechar as portas – Foto: Priscila Prade

Na obra, um grupo de artistas de rádio oprimidos pelo anunciante ignorante tenta, a duras penas, manter a emissora em funcionamento. Fazem com dignidade os últimos capítulos de sua tradicional radionovela, mesmo que tudo do lado de fora diga que este tempo já passou, com a chegada da televisão repleta de imagens e obviedades.

A realidade de imagens pré-fabricadas parece ter suplantado a possibilidade de se fantasiar uma história a partir de vozes. Cada criando a sua própria, com o que possui. Pensar por conta própria: algo “perigoso” demais.

O cenário de Marco Lima reproduz com elegância — assim como os figurinos de Fabio Namatame — um antigo estúdio de rádio. É uma cenografia cuidadosa, delicada, detalhista, o que potencializa o realismo da história. Wagner Freire criou uma luz que dialoga com os momentos emocionais da peça, sendo quase um ator junto do elenco.

Otávio Martins se destaca como o autor do texto que faz rir e também chorar, sem abrir mão da inteligência. Ele também assume a função de diretor, e conduz a obra de maneira delicada, na qual vai, aos poucos, dando as nuances do que está por vir, em uma simbiose de drama e comédia, como é a vida.

O diretor extrai do elenco o que cada um tem de melhor, gerando um retrato convincente de sua história. Caros Ouvintes não é só uma comédia musical divertida. É bem mais que isso. Traz em seu subtexto um discurso de resistência, de liberdade e, principalmente, de dignidade.

A força reacionária é representada por uma das atrizes da própria radionovela, interpretada brilhantemente por Agnes Zuliani. Na obra, ela é a delatora de seus colegas de esquerda junto ao regime, por crer ser superior aos demais. Sua vaidade e falta de amor ao próximo nada condiz com sua alardeada condição de defensora da família e dos valores cristãos. Porque o que ela tem se parece mais com ódio do que com o amor de Cristo. A cena na qual a personagem discursa é a mais impactante da obra e Agnes mostra ser uma grande atriz.

Obra traz artistas de rádio que afundam com a ascensão da televisão no Brasil – Foto: Priscila Prade

Outra que se sobressai é Amanda Acosta, na pele daquela cantora que já não tem mais o brilho de outrora, que faz de sua própria vida a expressão máxima de sua arte. Tal qual uma Maysa Matarazzo. Amanda dá peso à personagem — que nas mãos de uma atriz inexperiente poderia virar uma caricatura —, fazendo de sua cantora mulher crível e admirável. Mesmo decadente, não é digna de pena, mas de admiração.

Rodrigo Lopez, que interpreta o locutor da rádio, também chama a atenção. Seu personagem mantém, na clandestinidade, uma relação de amor com o futuro galã da TV. Tal qual muitos por aí. Contudo, com o sofrimento diante da prisão de seu amado pelos militares, seu amor e preocupação genuínos tocam a todos, fazendo com que a hipocrisia caia por terra, numa vitória do amor ao preconceito.

Eduardo Semerjian, por sua vez, na pele do galã de rádio ultrapassado, que vive de alardear as fãs que já não possui mais, empresta carisma e intensidade ao seu personagem. Ele representa alguém que, independentemente da vaidade que o move, é apenas mais um tentando sobreviver e tendo de encarar o momento em que a vida lhe cospe, usado, gasto. É um grande personagem na carreira do ator no teatro.

Ainda compõem o elenco entrosado Alex Grulli, como o sonoplasta, Alexandre Slaviero, como o patrocinador capitalista, Nathália Rodrigues, como a mocinha que vai virar estrela da TV em breve, e Petrônio Gontijo, que faz o chefe da rádio com a dignidade de um capitão que prefere afundar junto de seu barco a abrir mão de sua ideologia.

Um tipo de gente cada vez mais rara de se ver.

Caros Ouvintes
Avaliação: Muito bom
Quando: Sexta, 18h e 21; sábado, 21h; domingo, 19h30. 100 min. Até 14/12/2014
Onde: Grande Auditório do Masp (av. Paulista, 1578, São Paulo, tel. 0/xx/11 3251-5644)
Quanto: R$ 30 (sex., 18h); R$ 40 (sex., 21h; e dom.) e R$ 50 (sáb.)
Classificação etária: 12 anos

Cena da peça Caros Ouvintes: musical com discurso político nas entrelinhas – Foto: Priscila Prade

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    1. A última frase diz tudo.
    2. O personagem de Eduardo Semerjian lembra, em essência, a protagonista do filme CREPÚSCULO DOS DEUSES.
    3. Sobre o tom político da peça, não só a ditadura militar, mas também regimes esquerdistas que suprimem liberdades individuais, são igualmente nocivos. Historicamente, isso já está bem claro por vários exemplos. Assim como há gente que pede asilo político de ditaduras militares, há também gente que foge de regimes esquerdistas radicais. Mas, enfim, as pessoas são livres para votar em quem desejam.

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