Crítica: Musical O Rei Leão enche olhos do público

Tiago Barbosa como Simba, protagonista de O Rei Leão: produção funciona mesmo com atuações irregulares; musical teve investimento de R$ 50 milhões e pode alcançar público de 1 milhão de pessoas – Foto: João Caldas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Com custo de R$ 50 milhões, o mais caro da história dos musicais brasileiro, O Rei Leão é um sucesso retumbante em São Paulo. Se no mundo já acumula público de 65 milhões de pessoas desde que foi lançado na Broadway em 1997, no Brasil pode bater em breve a marca de 1 milhão de espectadores até o fim da temporada, que foi estendida até 14 de dezembro de 2014.

Foram mais de 500 sessões no Teatro Renault, centro paulistano, onde cabem 1.500 pessoas. Público ávido em ver 53 artistas em cena, entre eles nove sul-africanos, além dos alardeados bonecos que dão vida aos animais da savana africana.

A razão de tanto sucesso em terras brasileiras ocorre pela junção de três coisas fundamentais.

Primeiro: a obra é baseada no filme arrasa-quarteirão da Disney de 1994 — com quase US$ 1 bilhão arrecadado é o 20º filme mais lucrativo e a terceira animação mais rentável até hoje.

Segundo motivo: as crianças que ficaram fascinadas por Simba, Nala, Timão e Pumba vinte anos atrás hoje, adultas, levam os filhos às sessões no Teatro Renault. Querem apresentá-los a seus ídolos do passado.

Terceiro e último: a superprodução é impecável e funciona com uma engrenagem capaz até de esconder até atores que ainda engatinham no quesito atuação.

A sul-africana Ntsepa Pitjeng, como Rafiki, um dos destaques no elenco – Foto: João Caldas

É tudo grandioso e envolvente no espetáculo dirigido por Julie Taymor. A começar pela música de qualidade assinada por Elton John e Tim Rice, para o texto redondo de Roger Allers e Irene Mecchi.

Os figurinos de Julie Toymor são impactantes e a cenografia de Richard Hudson transforma o palco no que for preciso para que a história seja contada. E tem a fiel ajuda da luz inteligente de Donald Holder. E, claro, o grande charme são as máscaras e esculturas animadas criados pela dupla Julie Taymor e Michael Curry, que se completam com a maquiagem-arte de Michael Ward.

A orquestra regida por Vânia Pajares — e, sobretudo, os percussionistas Felipe Veiga e Helvio Mendes — é repleta de virtuose. Bem como as coreografias de Garth Fagan supervisionadas por Marey Griffith enchem os olhos, sobretudo em um palco apinhado de gente. A gente até se esquece de ver que um ou outro bailarino atrasou um passo.

E o que dizer das vozes? São belíssimas e potentes, sobretudo por dispor de um elenco majoritariamente negro — uma raridade no mercado de musicais e também no teatro como um todo que precisa ser comemorada.

A cena de abertura é para arrepiar qualquer desavisado. Com o bebê Simba sendo apresentado ao reino animal, surgem nos corredores do teatro os mais diversos bichos, como girafas, hipopótamos e elefantes , rumando ao palco que explode em cores e cantigas africanas.

Em uma boa tática de aproximar o público da história, o corredor é usado diversas vezes ao longo da obra, como quando Simba foge, acreditando ser responsável pela morte do pai.

Falando nele, o enredo de O Rei Leão é um dos melhores roteiros cinematográficos de Hollywood. É didático, sem ser tonto. Traz conflitos fundamentais, uma boa dose de martírio para o herói e, claro, sua redenção para o final feliz com o bem vencendo o mal. É para deixar qualquer grego da antiguidade morrendo de inveja.

Cena da apresentação de Simba, na abertura do musical: plateia impactada – Foto: João Caldas

Se toda a parte técnica vai muito bem, a atuação de boa parte do elenco deixa a desejar, aí incluso o alardeado protagonista Tiago Barbosa, selecionado entre milhares. Ele e boa parte de seus colegas, quando abrem a boca, apenas repetem um texto decorado. Falta peso, falta atuação convincente.

Mas há destaques, como a sul-africana Ntsepa Pitjeng, que empresta carisma e potência ao bruxo Rafiki; Felipe Carvalhido, como o amargurado Scar, o tio malvado de Simba; e Claudio Galvan, como o passarinho-mordomo Zazu. Ronaldo Reis também conquista a plateia dando espontaneidade ao seu Timão.

Na sessão vista pelo R7, Queren Raquel e Carolina Miranda também seguraram a personagem Nala, na infância e crescida, respectivamente. Ambas engoliram os simbas Cauã Martins (criança) e Tiago Barbosa (adulto).

Voltando à nostalgia das ex-crianças de 1994 hoje na faixa dos 30, esta encontra uma barreira na versão das canções assinada por Gilberto Gil. O compositor baiano resolveu mexer em letras que já fazem parte do imaginário coletivo em canções como Hakuna Matata.

Boa parte do público aprendeu a cantar as canções tais quais foram traduzidas na versão dublada do filme da Disney de 1994. Portanto, ouvir agora uma nova letra, diferente daquela velha conhecida, é um desalento, um choque emocional. Seria como mexer no tempero da comida da mãe. Dá uma dor no peito, mas, é tudo tão bonito, tão impactante, que dá para sobreviver.

Muitas cores e muitas danças: figurino e coreografia brilham aos olhos do público – Foto: João Caldas

O Rei Leão
Avaliação: Bom
Quando: Quarta a sexta, 21h, sábado, 16h e 21h; domingo, 14h e 18h30. 180 min. Até 14/12/2014
Onde: Teatro Renault (av. Brigadeiro Luis Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo, tel. 0/xx/11 4003-5588)
Quanto: R$ 50 a R$ 280
Classificação etária: Livre

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3 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Gostaria de ver as tais novas letras para poder emitir minha opinião. Aí poderia elaborar se houve ou não mudança de conteúdo e tentaria o motivo pelo qual se deu essa mudança. Sem esse dado, prefiro não opinar pois acho que seria leviano de minha parte criticar algo que desconheço.

  2. Luanda Bueno disse:

    Estranho um ator não ser convincente sendo que acabou de ganhar o Prêmio Bibi Ferreira como Ator Revelação. Tiago Barbosa magnifico. Vale a pena se informar mais.

  3. Luana disse:

    Finalmente uma opinião REAL sobre o Tiago Barbosa!!! QUE SONO eu senti por causa dele no segundo ato.

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