Entrevista de Quinta: “Sou uma mulher intensa, apaixonada pela vida”, diz atriz Paula Cohen

A atriz Paula Cohen: “Choro sem barreiras, da mesma maneira que rio” – Foto: Priscila Prade

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A atriz Paula Cohen faz seu primeiro espetáculo solo, criado a quatro mãos junto do diretor Pedro Granato. O nome da obra, que demorou três anos para ficar pronta, é mesmo gigante: As Lágrimas Quentes de Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar.

Em cena na comédia melodramática, uma mulher que busca sua identidade própria após uma desilusão no amor. Paula dá intimidade ao público, na peça que chega encerra temporada no Teatro MuBE Nova Cultural, em São Paulo, neste domingo [veja serviço ao fim].

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, a atriz falou sobre como a obra foi construída, sobre sua infância e ainda comentou o que acha de a sociedade brasileira estar tão dividida às vésperas do segundo turno.

Leia com toda a calma do mundo.

Até domingo (26): Paula Cohen em cena da peça As Lágrimas Quentes – Foto: Ding Musa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Seu secador já enxugou muitas lágrimas quentes suas?
PAULA COHEN — Muitas! Eu sou uma mulher bastante intensa, apaixonada pela vida! Vou com tudo. Choro sem barreiras, da mesma maneira que rio.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a ideia da peça?
PAULA COHEN — Eu queria muito fazer um solo. Achava que já estava na hora. Amo poesia e estava apaixonada por Florbela Espanca. Resolvi que seria ela a minha personagem, na sua alma eu mergulharia. Então, a caminho de Fortaleza, para fazer Navalha na Carne, falando com Pedro Granato, decidimos que queríamos trabalhar juntos de novo e esse seria o mote. Começamos alguns encontros para a pesquisa de dramaturgia. Foi passando o tempo e um dia chegamos os dois com algo para falar um para o outro. E incrivelmente era a mesma coisa : “Vamos mudar tudo? Nós dois escrevemos. Vamos fazer algo novo, algo que fale mais sobre nós, sobre as nossas gerações. Sobre os nossos tempos. A nossa forma de relacionar”… Enfim, aí nasceu As Lágrimas Quentes de Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você conheceu como o Pedro Granato? O que você admira nele?
PAULA COHEN — A gente se conhece há muito tempo, meio que através de amigos. Eu já admirava o trabalho dele. Vi um curta que ele fez que eu adorava, Tragédia Brutal. Mas nos conhecemos mesmo quando ele me convidou para fazer Neusa Sueli, Plínio Marcos. Ele veio e nos entregou um envelope rosa, que continha o texto de Navalha na Carne, um para cada um, um para mim, um para Gustavo Machado e outro para Gero Camilo. Aí a Gira estava armada! Isso foi mais ou menos em 2008. O Pedro é um excelente diretor! Tem todos os ingredientes necessários para isso. É altamente sensível, tem um senso estético apuradíssimo, é muito inteligente, humorado. A gente sempre cria muito à vontade juntos, nos divertimos muito. Ele pega no meu pé, exige a máxima de mim, e eu gosto disso. Ele é bem disciplinado, apaixonado pelo que faz . Me identifico muito com ele. É um parceiro absoluto para a vida toda.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o processo criativo a quatro mãos?
PAULA COHEN — Foi demais. Durante um período de três anos, não cotidianamente, mas com uma certa frequência, íamos entendendo que história contaríamos. Partimos de alguns textos que eu tinha no meu blog na época, chamado Eletrocardiograma. A partir daí começamos a criar quem seria essa mulher? Qual a sua história? Passamos por muitos caminhos, e alguns tratamentos. Às vezes, sentíamos que faltava algo, aí ele me encomendava, ou escrevia, e depois mexíamos um no texto do outro. Tem que haver muita sintonia e intimidade para isso funcionar. Com a gente deu muito certo.

“O público está dentro da peça, é uma espécie de cúmplice”, diz Paula Cohen – Foto: Priscila Prade

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que fez temporada tão curta? A peça vai voltar?
PAULA COHEN — Por vários fatores, hoje em dia colocar uma peça em cartaz na cidade demanda muito empenho e estrutura. Somos muito guerreiros nós artistas produtores. Mas a peça estreou na hora e lugar certo. Está indo muito bem,  a ideia é voltar em cartaz em janeiro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual a relação que você quer estabelecer com o público nesta peça?
PAULA COHEN — Absolutamente direta. Esta peça é a confissão de Elvira. É o relato e a vivência dessa mulher, neste fragmento da sua vida. O público esta dentro, junto, é uma espécie de cúmplice, ao mesmo tempo que tem a sensação de estar vendo essa figura pelo buraco da fechadura.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você era pequenina já queria ser atriz?
PAULA COHEN — Todos que me conhecem desde pequena dizem que é obvio que eu seria atriz. Eu não falava disso. Não era moda na época a criança querer ser atriz. Eu só era uma criança bem aberta e criativa. Fazia as minha pecinhas para o público adulto que frequentava a minha casa, mas não tinha essa intenção clara. Uma vez, minha avó me flagrou no elevador do prédio dela, subindo e descendo mil vezes. Foi ver o que era e eu estava me acabando de chorar, ela preocupada queria saber o que estava acontecendo e eu muito tranquilamente dizia para ela que estava treinando o pranto. Não me lembro disso, ela que me contou depois, para você ter uma ideia do quão menina eu era.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi a sua infância? Você gostava de brincar do que?
PAULA COHEN — Foi maravilhosa! Eu gostava de brincar muito de tudo! Acho que  não parei nunca mais! [risos] Eu tinha uma relação com meu pai muito lúdica. Ele chegava do trabalho e às vezes até me acordava para viajar comigo. Ficávamos horas com direito a chapéu , maquiagem, eu sempre falo que essa vivencia deve ter me empurrado para o palco. A minha mãe me levava muito ao teatro também. Ela adora é a minha companheira até hoje, minha incentivadora máxima! Eu agradeço isso do fundo do meu coração! Mas as minha brincadeiras iam desde fazer perfume com pétalas de flores e álcool, até ser a Nadia Comaneci, minha “ídola” campeã romena de ginástica olímpica. Eu passei muitos anos querendo ser ginasta.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual foi a primeira vez que subiu no palco?
PAULA COHEN — A dança me levou para o palco desde bem pequena. Sempre dancei. Fiz clássico e jazz. Na adolescência, consegui até uma licença do meu colégio e passava as tardes no balé. Não me lembro da primeira vez no palco, mas sempre tive fascinação e sempre de alguma maneira me senti confortável ali. Nos lugares mais improváveis que tinha um palco montado daqui a pouco eu aparecia por lá. Cantava alguma coisa, dançava enfim cara de pau! [risos]

“Ser atriz é quase sem escolha! Naturalmente se é!”, diz Paula Cohen – Foto: Priscila Prade

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que tem de melhor e de pior em ser atriz?
PAULA COHEN — Eu sou apaixonada pelo fato de viver em estado de criação. O meu ser precisa disso. Então, para mim só tem melhor, no sentido de que não consigo imaginar a minha vida sem esse lugar. Ao mesmo tempo sabemos das dificuldades constantes . Não é fácil e sinceramente não é para todos pois você tem que querer muito. Você lida com a frustração, com a superexposição, é tudo muito à flor da pele… Enfim, tudo isso que já foi tão dito. É quase sem escolha! Naturalmente se é! Eu amo e agradeço viver com a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Porque você faz teatro?
PAULA COHEN — É a maneira que eu tenho de me comunicar com o mundo. É a minha linguagem, minha casa, é a minha vida. O que eu escolhi, ou o que a vida escolheu por mim!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê este racha na sociedade brasileira por conta do segundo turno no domingo agora?
PAULA COHEN — Estou triste demais com a política. Não confio em nenhum desses políticos. Acho que nessa alta instância do poder, esses senhores e senhoras acabam trabalhando para si mesmos. Nessa fogueira de vaidades as plataformas são de interesse próprio. A saúde, a educação, a arte: tudo sucateado! É terrível! Como construímos um país com bases sólidas assim? Ao mesmo tempo, cada individuo tem a sua posição com relação ao que seria menos pior para o país. E isso tem que ser respeitado. Cada um deve ter o direito de votar em quem quiser e não ser agredido por isso! Oi, gente! Liberdade de expressão! Sem isso, estamos lascados! Acho terrível as agressões nas mídias sociais por conta da política. Revela outros buracos da nossa sociedade.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você se imagina daqui a 20 anos?
PAULA COHEN — Certamente nos palcos da vida! Quero também estar escrevendo bastante. E poder passar temporadas por aqui, por ali. O mundo é muito grande! E eu tenho uma relação muito estreita com o Uruguai e a Argentina. Eu sou meio uruguaia, meus pais são uruguaios. Quero sempre transitar por aí e sempre, claro, fazendo muita arte! Só peço que Deus me conserve com energia e inspiração sempre. Evoé!

As Lágrimas Quentes de Amor Que Só Meu Secador Sabe Enxugar
Quando: Sábado, 20h30; domingo, 18h. 70 min. Até 26/10/2014
Onde: Teatro MuBE Nova Cultural (r. Alemanha, 221, Jardim Europa, São Paulo, tel. 0/xx/11 2386-8194)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

Paula Cohen em cena no seu primeiro monólogo, com direção de Pedro Granato – Foto: Ding Musa

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Irretocável o comentário de Paula sobre o racha que se abateu sobre a sociedade brasileira por conta das eleições presidenciais. Ganhou meu respeito! A observação dela foi extremamente lúcida.

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