Zé Celso se recusa a pagar multa por cena de peça; no Fórum Criminal, atores do Oficina pedem paz

Zé Celso prestou depoimento no Fórum Criminal por conta de cena de peça – Foto: Julia Chequer/Arquivo R7/7-4-2010

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Integrantes do Teat(r)o Oficina fizeram um ato artístico em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, na tarde desta quarta (5). A ação ocorreu durante depoimento do diretor José Celso Martinez Corrêa, do Zé Celso, 77 anos, e da produtora do Oficina, Ana Rúbia, e dos artistas Tony Reis e Mariano Mattos Martins, à Justiça.

O Oficina está sendo acusado de “crime contra a paz pública” por conta de uma encenação artística — um trecho da peça Acordes, inspirada em Bertolt Brecht — em novembro de 2012 na PUC-SP. Um padre se sentiu ofendido pela peça e deu queixa contra o grupo. Zé Celso considera a ação judicial de um “ato contra a liberdade de expressão”.

O R7 esteve no local e acompanhou a movimentação de fora. O depoimento não pôde ser coberto pela imprensa.

“Arte não é crime”

Segundo relato dos artistas, a Promotoria acusou os integrantes do Oficina de se esconderem atrás da arte que fazem para poderem incitar o crime contra a paz pública. O promotor propôs que o Oficina pagasse uma multa de um salário mínimo ao padre. Os artistas recusaram a proposta, por entenderem que esta ofendia toda a classe artística.

Para eles, aceitar o pagamento da multa implicaria em concordar que toda a arte possa ser criminalizada se alguém da plateia se sentir ofendido por algo dito em cena. O que feriria a liberdade de expressão garantida na Constituição e o próprio sentido da arte.

Zé Celso ficou indignado com o que ouviu na audiência, como contou ao R7 assim que saiu do Fórum Criminal.

— Ele [o promotor] ofereceu pagarmos um salário mínimo e ficar isso tudo por aí. O que eu ouvi do promotor é um crime contra a arte. Ele diz que nós nos escondemos na arte para dizer impropérios e incitar o crime contra a paz pública. Isso para mim é um crime contra a arte. A arte é livre!

O diretor do Oficina lembrou que muitos lutaram durante a ditadura pela liberdade de expressão artística e pelo fim da censura.

— Ninguém se esconde atrás da arte. Cacilda Becker quando vai ao DOPS acusada de fazer propaganda soviética por ler Pablo Neruda, ela diz: “Meu único partido é o teatro”. Esta cena está em Walmor y Cacilda 64: Robogolpe [peça do Oficina em cartaz]. O promotor acha que a arte é um biombo que se usa. É importante ser divulgado que estão querendo tirar a liberdade da arte. Nós não somos criminosos, os artistas lutaram muito pela liberdade e a cultura livre no Brasil e, em 2014, apesar desse movimento de ódio, a censura ainda é livre. Isso que está acontecendo é uma ofensa a todos os que lutaram pela liberdade na ditudura! Não podemos aceitar.

Mariano Mattos Martins, artista que também esteve na audiêcia, falou ao R7 que ” a arte está sendo colocada como o crime; a ditadura acabou faz tempo, mas parece que não.”

— A gente não aceitou isso [de pagar a multa]. A gente vai continuar, porque não aceitamos ser criminosos por fazer arte. Querem colocar a cultura e os artistas na marginalidade e diminuir o poder e a importância da arte teatral.

O diretor José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, foi intimado a depor nesta quarta (5) no Fórum Criminal de SP por conta de um trabalho artístico feito com o Teatro Oficina em novembro de 2012 na PUC-SP – Foto: Julia Chequer/Arquivo R7/7-4-2010

Ato artístico

Na calçada do Fórum, na avenida Doutor Abraão Ribeiro, os artistas fizeram um discurso de paz enquanto os integrantes do Oficina prestavam esclarecimentos à Justiça. Eles entoaram o cântico que traz os seguintes versos: “Paz, amor e paz. E muito mais”. A música faz parte da trilha da peça Walmor y Cacilda 64: Robogolpe, no momento em que a atriz Cacilda Becker dá depoimento ao DOPS nos anos de chumbo da ditadura.

Nesta cena, a personagem Maria Della Costa, interpretada pela atriz Juliane Elting, diz a seguinte frase: “Não achamos lógico, neste momento ilógico, nós, por personagens vividos, sermos… punidos!”.

A atriz Camila Mota, integrante do Oficina, falou com o editor de Cultura do portal R7, Miguel Arcanjo Prado, durante o ato artístico em frente ao Fórum Criminal. Veja a entrevista no vídeo abaixo:

+ Zé Celso é chamado para depor no Fórum Criminal; diretor ataca marcha a favor da ditadura militar

Curta a nossa página no Facebook

Leia também:

Saiba o que os atores fazem nos palcos e nos bastidores

Descubra a cultura de uma maneira leve e inteligente

Todas as notícias que você quer saber em um só lugar

Você pode gostar...

17 Resultados

  1. denis disse:

    será que a justiça e seus representantes, no cado o Ministério Público) não tem coisa mais importante pra fazer?
    Isso não é nem censura, é falta de bom senso e de medo de enfrentar questões realmente sérias e vontade de aparecer, esse promotor um dia vai ser candidato a alguma coisa, guardem esse nome.
    mas ele mexeu com um com um cara mais louco do que ele, vai pra cima Zé, avisem ao promotor que não é o zé dirceu, é o Zé Celso, ícone da cultura brasileira, gostando dele ou não

  2. Walter disse:

    Tempos muito duros! Entretanto, verdade seja dita, Zé Celso defende ferrenhamente o PT e a nova censura agora denominada de “controle social” da mídia. Acho ótimo que ele prove do seu próprio veneno. E dá-lhe pau agora no meu lombo por confrontar as vestais do “teatro da situação” com a verdade inexorável!

    • Maria Celia disse:

      Crime contra a “ordem pública”. O promotor usou, legalmente, “paz pública”. Esse padre é que representa o caos e a desordem nos nossos corações.
      Obrigada, ZÉ CELSO!!! Obrigada, companheiros! PAZ!…

    • Jair Antonio Alves disse:

      Caro Walter não sei das quantas,

      Aonde você leu algum representante do PT defender “controle social da Midia”?

      A luta do Oficina, que é a luta permanente de todo artista fiel a sua arte, é pela liberdade de expressão. Nada a ver portanto com a regulamentação dos meios de comunicação. Pelo tom reaça de seu comentário no mínimo acha um ato legítimo o que a revista veja fez tentando enganar parte do eleitorado brasileiro dias antes de 26 de outubro. Não é? SUGESTÃO – vá estudar um pouco.

  3. jose disse:

    Entao o Padre vai a um espetaculo do Ze Celso esperando ver um conto de fadas??? Alem de ir espontaneamente ainda se acha no direito de fazer isso??? Que papelao por parte de alguem intelectualizado…

  4. jose disse:

    Entao o Padre vai a um espetaculo do Ze Celso esperando ver um conto de fadas???

  5. walter disse:

    Onde estão os defensores dos direitos humanos, e de expressão, de ir e vir; enfim, que padre é este, que não conhece o Zé Celso????

  6. Tamayo Nazarian disse:

    Apoio total, Zé. ( Bravo, Camila Mota!)
    EVOÉ!
    Beijos,
    Tamayo

  7. Daniel disse:

    O padre vai enviar o salário mínimo a deus?

    Faça-me o favor.

  8. Maria Celia Münch disse:

    Crime contra a “ordem pública”. O juiz da causa, por uma questão legal, usou “paz pública”. Esse padre é que representa o caos e a desordem nos corações.
    Obrigada, ZÉ CELSO!! Obrigada companheiros! PAZ!…

  9. Maria Celia Münch disse:

    Crime contra a “ordem pública”. O promotor usou, legalmente, “paz pública”. Esse padre é que representa o caos e a desordem nos nossos corações.
    Obrigada, ZÉ CELSO!!! Obrigada, companheiros! PAZ!…

  10. João Herculano Dias disse:

    Voltaire disse: Posso não concordar uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o seu direito de as dizer.
    Se for assim ,muitas peças, livros, poesias e filmes vão ter que ser multados. O direito de expressão tem que ser respeitado. Se não gosto de determinado filme ou peça, simplesmente dou minha opinião ou saio sem ver o filme. Apelar para os tribunais não me surpreende em nada, pois o politicamente correto desnorteia qualquer opinião e incita ao preconceito. A arte é a desordem para se re organizar e re pensar o mundo. Zé Celso é a arte em desordem. Nós conhecemos o seu trabalho, é um um nome respeitado no meio teatral, então não dá para entender essa sentença. Se o padre não gostou, critique. Tem esse direito como Zé Celso tem o direito de nas suas peças colocar o seu pensamento.

  11. Phillipe disse:

    O promotor fez seu papel. Aplaudo-o enfaticamente! Hoje, todos falam em direitos, mas direitos e deveres andam juntos. Ninguém está querendo tirar a liberdade da arte. A questão é que, na vida social, há limites. Se, através da arte, tudo puder ser dito, serão cometidas injúrias, difamações, calúnias e incitação ao ódio. Nem tudo pode ser dito. Aliás, se esse discurso de “liberdade” for levado às últimas consequências em todos os níveis, voltaremos à barbárie: se todos forem livres para fazer tudo o que querem, não existirá mais segurança. É preciso um mínimo de ordem para que se mantenha a paz social.

  12. Eduardo Cabus disse:

    Bom dia
    Melhor seria o dia se eu não tivesse de ler esta notícia, Zé Celso pagar multa por um ato de teatro não é vergonha nem se caracteriza como aceitação como se ele , Zé Celso, tivesse cometido um crime MAS a sentença judicial, sim, é uma vergonha. Zé Celso é um artista cuja trajetória está definitivamente escrita no panorama do Teatro Brasileiro. Lamentavelmente os juízes resolveram fazer da toga o manto divino e se consideram deuses . Juiz é uma pessoa como todas as outras especialmente no Brasil onde os juízes não são eleitos, apenas fazem um concurso e se tornam juízes . Pagar a multa: Acho que Zé Celso deve pagar a multa da seguinte forma: Um artista plastico ou um criador de objetos cênicos deve criar um grande porco o qual será conduzido, em cortejo até o Fórum,la o porco será quebrado e dele sairá moedas de um centavo na quantidade suficiente para pagar a multa. Dinheiro é dinheiro e o valor terá de ser recebido. Pagar a,ulta não será humilhante para Zé Celso, pelo contrário , quem deve sentir vergonha é o delator e a autoridade que proferiu a sentença. O pagamento da multa deve se trnasformar em um ATO DE CIDADANIA , UM ATO TEATRAL

  13. Beatriz Fernandes disse:

    Enquanto vivia um momento de infortúnio fui surpreendida ao ver o Fórum Criminal da Barra Funda ser ocupado por mensageiros da paz. Confesso que tive vontade de partilhar daqueles abraços afetivos, daquelas expressões de pura leveza, mas, mineira tímida que sou, me contive. Beijos a Zé Celso e ao Grupo Oficina, e a nós, pobres mortais, resta o imenso desafio de vivermos a cada dia o exercício da transgressão e da desconstrução criativa do nosso tempo. Mas humildemente devemos reconhecer que este movimento nos antecede, pois a civilização ocidental cristã vem fazendo este enfrentamento há tempos. Não fosse assim, teríamos sido julgados por um tribunal da Santa Inquisição.

  14. marta viana disse:

    concordo totalmente com a atitude de zè celso ,que história medíocre ,deixem ele trabalhar e3m paz ,afinal ele é um patrimônio cultural de nosso país ,que caretice…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *