Entrevista de Quinta: “Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida”, diz atriz Milena Filó

A atriz Milena Filó, em cena da peça Teatro de Bonecas, em cartaz em SP – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

A atriz Milena Filó é a verdadeira mãe do espetáculo Teatro de Bonecas, em cartaz no Teatro Pequeno Ato, em São Paulo, até o fim do mês [veja serviço ao fim].

Na peça, na qual atua ao lado de Jaqueline Stefanski, sob direção de Adriano Cypriano, investida os limites entre a realidade e a arte, tendo como inspiração o clássico texto Casa de Bonecas, escrito pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1879.

O mergulho foi tão profundo no espetáculo que ela foi tema do mestrado em artes que a atriz concluiu na Unesp, onde também se graduou em artes cênicas.

Nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, Milena falou sobre a peça, sobre sua vida, sua arte, seu sonho.

Leia com toda a calma do mundo.

Milena Filó em cena do espetáculo que fica em cartaz até o fim do mês em SP – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que Teatro de Bonecas?
MILENA FILÓ — Porque é inspirado no texto Casa de Bonecas, do Ibsen, mas, principalmente, em uma fala da personagem Nora, quando ela diz para o marido: “Esta casa nunca passou de um teatro”. Ela diz isso quando está indo embora, porque ela quer dizer que nunca foi ela mesma lá, que sempre interpretou. Isso é a base, a camada principal da peça. A gente fala dessa relação, principalmente das atrizes, de viver interpretando, e quase nunca ser você mesmo. É uma dualidade. Muitas vezes em cena você é mais você do que na vida.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A vida é um grande teatro?
MILENA FILÓ — Exatamente, trazemos esta questão para a peça. O quanto a gente ficcionaliza as nossas relações, os encontros, o quanto a gente cria uma ficção… A gente inventa coisas que não existiu no encontro para a história ficar melhor. Na busca de interpretar essa personagem, essas duas atrizes, eu e Jaqueline, acabamos nos identificando muito com as situações, como término de relacionamento, busca de espaço e de identidade. A gente coloca muito de nós duas na peça.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as redes sociais ajudaram a aumentar essa representação social?
MILENA FILÓ — Bastante. No Facebook, às vezes a gente posta imagens, mesmo de momentos da vida, que parecem uma coisa incrível. A imagem é muito bonita, ficcional e nem sempre corresponde à realidade. Muitas vezes, a pessoa estava sozinha, triste naquele lugar, e para os amigos de Facebook parece que aquilo foi um grande acontecimento. Tudo fica maior.

Jaqueline Stefanski e Milena Filó: parceria no palco entre as duas atrizes – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Isso mexe com você?
MILENA FILÓ — Muito. O acesso e a rapidez, uma informação você consegue que chegue em cem pessoas em um segundo. É muito rápido, é instantâneo. Antes, você esperava semanas por uma cartas. Hoje, é tudo muito rápido, veloz. Antes, essa representação existia, mas de forma mais moderada.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Representar sem parar dá um vazio na vida?
MILENA FILÓ — Esse grau de exigência do outro, de ter de corresponder a essa demanda, chega o momento que você não é nada. Essa é uma fala da peça: “Parece que de fato eu nunca fiz nada”. São tantas coisas para agradar o outro que no final você acaba não tendo nada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tudo isso é muito pessimista. O que a gente faz?
MILENA FILÓ — É uma constatação de que atualmente a gente vive com um grau de rapidez muito grande. Mas tem o lado bom, é que você consegue transformar as coisas, fazer mudanças. Antes, você ficava muito tempo apegado a algo. Agora, você consegue dialogar mais. O espetáculo tem várias camadas. O Alexandre Mate, que orientou meu mestrado na Unesp, que foi sobre a peça, fala que o espetáculo é um palimpsesto, que é como uma cebola, que tem várias camadas, que vão sendo desvendadas. Elas vão se despelando pelo olhar do público. E não é necessário que todos vejam todas as camadas. O melhor é que isso é o que o pós-moderno trás. Você tem a camada da personagem, da atriz, das amigas, da irmã, você consegue ter todas as camadas ali.

Milena Filó transformou a pesquisa para a peça Teatro de Bonecas em mestrado – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você fez um mestrado sobre a peça?
MILENA FILÓ — O meu mestrado, na Unesp, fala exatamente dessa questão de dualidade. Chama-se Alteridade Trocadas – O Encontro de Duas Ficções. É a mistura do que é real e do que é ficcional. Muitas vezes, o teatro se torna muito mais real do que qualquer realidade. A lupa dele torna tudo muito mais real. E no mestrado eu falo também de um termo das artes plásticas que se chama pentimentos, que significa arrependimento: é o traço que o pintor fez e passa uma tinta em cima e depois de muito tempo, esta vai se descascando e vemos o traço que ele se arrependeu. A peça traz esse inacabado para mostrar o processo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde você nasceu?
MILENA FILÓ — Eu nasci em São Paulo e passei a infância em Bragança Paulista até os nove anos. Depois, voltei para cá.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem uma irmã atriz, a Aline Filócomo. Como é isso para você?
MILENA FILÓ — São as dores e as delícias. De irmão. Minha irmã é minha melhor amiga. Começamos a fazer dança juntos, fizemos piano juntas, violão juntas e depois teatro. Só que cada uma foi para um caminho… A gente sempre troca experiências. Eu faço uma participação no espetáculo do grupo dela, a Cia. Hiato, Ficção, que ela fala de mim, da relação de irmãs atrizes. E ela fala nesse monólogo todo o espetáculo Teatro de Bonecas, e eu entro no final. E ela usa essa dança, da nossa peça, no monólogo dela. A minha relação com minha irmã muita gente conhece por uma peça.

“Minhas referências são Pina Baush e Marina Abramovic”, diz atriz Milena Filó – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E sua relação com a Jaqueline Stefanski, a outra atriz da peça?
MILENA FILÓ — Tem uma história engraçada. A Jaqueline é irmã de atriz também. Ela é irmã da Fernanda Stefanski, que trabalha junto com minha irmã, a Aline, na Cia. Hiato. E as duas são as mais velhas e eu e a Jaqueline somos as mais novas [risos]. E tem mais: a Aline e a Fernanda estudaram juntas na USP. Já a Jaqueline e eu estudamos juntas na Unesp. São muitas coincidências [risos]. A gente sempre se encontrava indo ver as peças das irmãs. Eu comecei a pesquisa desse espetáculo com uma outra atriz. Aí, por percalços da vida, esta atriz teve que sair e surgiu a Jaqueline; foi quase olhar para o lado. Foi incrível porque a gente se sente super bem em cena. A gente tem um jogo gostoso, descobrimos coisas novas todos os dias. Gostamos de mudar, experimentar, colocar. Eu trouxe um texto novo outro dia e ela falou: “Tudo bem, vamos lá”. Ela se joga. Também não posso deixar de falar do diretor, Adriano Cypriano, e da Kika, responsável pela trilha sonora, que são outros parceiros de longa data. E principalmente o diretor, que comprou a minha ideia desde o início.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você quer fazer daqui a 30 anos?
MILENA FILÓ — Eu quero fazer teatro, estar atuando e escrevendo cada vez mais. Essa é minha primeira dramaturgia adulta, já tinha escrito o infantil A Viagem de Ultravioleta, com o Fábio Superti. Eu quero cada vez mais me aprimorar nisso. Sou uma pessoa que gosta muito de experimentar. Minhas referências são Pina Bausch e Marina Abramovic, gente que trouxe coisas novas e instigantes para a arte.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você virou atriz?
MILENA FILÓ — A minha mãe foi uma grande incentivadora neste sentido, ela era professora e sempre adorava dança e teatro. Desde pequena, colocou minha irmã e eu para fazermos dança. Não era uma coisa que a gente ia de má vontade. A gente gostava. Eu dou aula para criança e sei que, quando ela não quer fazer, é tortura. Nas férias, na casa da minha avó, a gente fazia peças para a família no porão. Isso já era uma diversão e um trabalho que a gente fazia, cobrava, fazia divulgação. E depois esse caminho só foi estreitando. Quando fui escolher uma faculdade eu já fazia curso técnico de teatro. Aos 15, já ia para festival de teatro e dança desde a adolescência, pelo interior do Estado. Já estava ali. A arte sempre foi o meu lugar.

Teatro de Bonecas
Quando: Sábado, 21h, domingo, 19h. 75 min. Até 30/11/2014
Onde: Teatro Pequeno Ato (r. Teodoro Baima, 78, República, São Paulo, tel. 0/xx/11 99642-8350)
Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Muito agradável a entrevista!

  2. Nicelma Pereira disse:

    Milena.
    Vc é uma atriz nata.Vc arrasa em tudo..Vc e a Aline são ótimas.Pena que eu moro longe.Mas em toda oportunidade que da eu corro pra te ver.
    Grande beijo querida.
    Vc é ótima!!!
    Nicelma

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