Grátis e pop, musical Hairspray discute preconceito

Liza Caetano vive a jovem Tracy no musical Hairspray: entrada grátis em SP- Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Baltimore, 1962. A cidade norte-americana vive a tensão da reivindicação dos direitos iguais entre negros e brancos. Parte destes últimos resiste, não querendo perder a posição privilegiada na sociedade. Outra prefere juntar-se aos negros em sua luta.

Este é o pano de fundo do espetáculo Hairspray – O Musical, da Cia. Instável de Teatro, dirigida por André Latorre com alunos de teatro da Faculdade Paulista de Artes. A obra estreia em São Paulo nesta segunda (1º), no Teatro Ruth Escobar, com entrada gratuita. A temporada vai até 10 de dezembro, de segunda a quarta [veja serviço ao fim].

Hairspray tem música de Marc Shaiman e Scott Wittman e roteiro por Mark O’Donnell e Thomas Meehan, baseados no filme de 1988 de John Waters — e que teve remake produzido em 2007 com direção de Adam Shankmann.

Para o Latorre, o discurso político da obra dialoga com o Brasil de hoje.

André Latorre, diretor do musical Hairspray: “O preconceito ainda está vivo, mas todos podem e devem lutar pelos seus direitos”, afirma o artista – Foto: Divulgação

— Na Baltimore dos anos 1960, as pessoas já sabiam que era errado ter atitudes separatistas,mas continuavam tendo atitudes equivocadas, de forma velada e também explícita. Para nosso desespero, a situação não mudou.

O diretor afirma que “hoje, vemos o preconceito vivo, com pessoas preconceituosas que, se interrogadas, certamente mentirão,dirão que não são preconceituosas”.

— Hoje em dia, a cultura do ódio intensifica estas atitudes equivocadas. Mudou a época, mas a maneira de agir é a mesma.

Latorre manteve “falas absurdas” de vários personagens para deixar “explícito onde mora o erro, a segregação”.

— Procurei manter isso muito vivo para fazer o público ver que existem pessoas horríveis como aquelas que estão no palco. Procuro intensificar a atitude errônea dos personagens para que isso cause um efeito reflexivo na plateia. Acho essencial ligar a temática com o que estamos vivendo, caso contrário nossa função como artista não se completa. O teatro é um documento e espelho de determinadas épocas.

Coreografias pop

Hairspray também tem diversão, já que a história está ambientada na efervescência da juventude da década de 1960, que acaba de descobrir o rock’n’roll e toda sua energia. Há muitos corpos bailando em cena, coreografados por Nhago Ramos. Muitos mesmo, como conta Latorre.

— Temos 47 atores.Tivemos um processo de trabalho agitado, mas de belas descobertas.Nosso maior desafio foi unir um elenco tão grande. Às vezes, o palco parecia pequeno demais.

Com tanta gente em cena, uma verdadeira engrenagem acontece nos bastidores para que o musical evolua. Capitaneando o elenco gigantesco, o diretor convocou a atriz Liza Caetano para protagonizar a obra.

Ela vive a a adolescente Tracy Turnblad, cujo maior sonho é ser dançarina de um programa de TV, mas que, ao longo da montagem, amadurece ao ponto de ser uma das líderes pelos direitos dos negros na sociedade. Para dar conta das duas sessões diárias, a atriz contou com a ajuda do preparador vocal Mauricio Mangini.

—O processo de ensaio foi pesado. Mas foi aquela coisa de cair de cabeça. Tento manter uma rotina em relação ao físico para ter a resistência que Hairspray me exige. Vejo o musical como uma lição de superação tanto no físico quanto no registro vocal.

A atriz Liza Caetano: preparo vocal e físico para dar conta da adolescente Tracy – Foto: Divulgação

Além de assistir aos dois filmes, a atriz também utilizou sua experiência com o universo lúdico, já que atua na Trupe dos Brincantes, em espetáculos infantis nos CEUs da capital paulista.

— Tracy é diferente de tudo o que eu fiz. Sempre fiz personagens mais velhas. E ela é justamente o contrário: é mais nova, tem um frescor, uma inocência. Tentei construir minha Tracy com a maior veracidade possível.

Liza conta que está satisfeita em fazer um musical que mexe com a sociedade.

— O preconceito ainda está aí. Acho importante a forma como Tracy enfrenta o preconceito e luta por uma sociedade com mais equilíbrio. Diante de tanto preconceito hoje contra homossexuais, negros, nordestinos e mulheres, o Brasil parece que anda para trás. Esse musical é um simulacro da sociedade brasileira atual.

Latorre concorda com sua atriz. E também manda seu recado final.

Hairspray nos dá uma mensagem um tanto amarga, apesar de toda nuvem de laquê que parece fazer a peça ser leve e divertida. O texto nos faz lembrar que o preconceito ainda está vivo,mas que todos podem e devem lutar pelos seus direitos.

Multidão: Hairspray – O Musical tem 47 artistas no palco do Teatro Ruth Escobar – Foto: Divulgação

Hairspray – O Musical
Quando: Segunda a quarta, 18h e 21h. 100 min. 1º até 10/12/2014
Onde: Teatro Ruth Escobar (r. dos Ingleses, 209, Bela Vista, metrô Brigadeiro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3289-2358)
Quanto: grátis (musical universitário sem fins lucrativos)
Classificação etária: Livre

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Concordo em parte com algumas colocações do diretor Latorre, mas não com todas. As pessoas podem simplesmente não gostar de determinadas coisas. Admiro a arte como instrumento de reflexão, mas, como tudo o que é tocado pelo ser humano, a arte pode ser, sim, panfletária. Dou como exemplo quando um determinado partido político é demonizado através da arte, isso é um ato político e aí a arte se torna um instrumento de manipulação das massas. Aprecio a arte quando ela permite que cada um tire suas próprias conclusões acerca de um fato.

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