Crítica: Eduardo Gomes cria atmosfera agonizante em Sobressalto

O ator Eduardo Gomes, em seu quarto, em cena de Sobressalto: teatro intimista – Foto: Matheus Rocha

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Numa cidade tão dura como São Paulo, onde as pessoas se empurram umas às outras sem que sejam ouvidas as palavras “desculpa” ou “com licença”, um ator se propor a receber a plateia em seu quarto é um alento de humanidade. É isto que acontece em Sobressalto.

Talvez tamanha hospitalidade seja porque o ator Eduardo Gomes tenha um excesso de sensibilidade incomum na grande metrópole hostil. Talvez também porque seja baiano, povo que sempre soube exercer muito bem a arte de ser anfitrião.

Fato é que Eduardo deixa o diminuto público de cada sessão — são recebidas de uma a cinco pessoas apenas por apresentação, que agendam previamente sua ida com o próprio ator por meio de mensagem privada no Facebook — à vontade em seu apartamento.

Assim que adentra a sala, o espectador pode encontrar-se só ou dar-se de cara com os outros colegas de sessão. O ator não está por ali. O anfitrião apenas está presente nas letras a giz em um quadro com orientações de como proceder e encontrá-lo no espaço de encenação: seu quarto. Tudo é feito de forma exclusiva e aconchegante.

Sobressalto traz a angústia da morte à espreita. É resultado de uma inquietação do ator, que também dirige a obra, a partir do conto A Outra Costela da Morte, do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Na sessão vista pelo Atores & Bastidores do R7, em uma noite quente, cada espectador experimentou na própria pele o ar se tornar cada vez mais pesado e sufocante, enquanto o texto soava tal qual um mantra.

Quando, enfim, o ar se renovou, com a janela aberta diante de frondosa árvore em meio aos prédios, foi como se a vida voltasse outra vez, experiência sensorial que casou perfeitamente com o clima agonizante do texto narrativo saído da boca do ator.

Atento ao mínimo, Eduardo Gomes, em Sobressalto, cria atmosfera densa e propícia para que o simples respiro torne-se consciente e valorizado. Esta minúcia estética é o mérito da obra.

Sobressalto
Avaliação: Muito bom

Peça Sobressalto faz o espectador valorizar o simples ato de respirar – Foto: Matheus Rocha

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Peças intimistas são verdadeiras experiências sensoriais. Elas me atraem mais do que superproduções com subcelebridades contratadas apenas para alavancar a bilheteria por conta de sua popularidade midiática. Que o povo saiba curtir todo o esmero do Eduardo porque um trabalho tão sensível quanto esse merece o prestígio!

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