Entrevista de Quinta – Sou a dramaturga da masmorra, diz Dione Carlos

A dramaturga Dione Carlos: em busca de um teatro que abarque as diferenças – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A manhã é de sol e o jardim da Casa das Rosas, em plena avenida Paulista, cria uma poesia em meio a tantos prédios. É como se o lugar fosse uma suspensão poética imersa no caos ao redor. É este ambiente que a dramaturga Dione Carlos escolheu para nossa conversa. Chego e ela já me espera sentada em uma das mesas do café.

Ela tem muita coisa a contar. Afinal de contas, seu 2015 já começou pulsante no teatro. Está com duas peças suas em cartaz ao mesmo tempo, Mamute, com a Cia. do Mofo, no Espaço da Cia. do Pássaro, e Bonita, no Sesc Ipiranga. A primeira usa uma notícia de jornal sobre um corpo mumificado para discutir as relações frias nos tempos de hoje. A segunda é inspirada em Maria Bonita, mulher de Lampião.

No segundo semestre, estreia ainda outro texto: Mariposas, com direção de Vanessa Bruno. Também ainda prevista para este ano está Rubro,  peça a ser montada em Manaus, no Amazonas, por Danilo Reis.

Carioca radicada em São Paulo, dramaturga formada pela SP Escola de Teatro e mãe de três filhos, Dione Carlos encontra, aos 37 anos, a segurança de uma escolha profissional que tanto buscou.

Este foi um dos temas, entre tantos outros, nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7, na qual fala sobre sua vida e seu teatro.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu a dramaturga em você?
DIONE CARLOS — Comecei a escrever na adolescência, com diários. Nunca me vi como escritora. Achava algo distante. Venho de família simples, sem referência de artista ou escritor na família. Mas as pessoas me diziam que deveria investir. Fazia teatro na escola, mas via a carreira artística como algo distante.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você queria ser?
DIONE CARLOS — Eu queria ser jornalista e cheguei a cursar na Metodista, em São Paulo, mas não terminei. Vi que não era a minha. Uma professora me disse que meus textos eram muito poéticos e que eu estava no lugar errado [risos].

Dione Carlos: por pouco a dramaturga não foi jornalista – Foto: Angela Belei

MIGUEL ARCANJO PRADO — E aí surgiu o teatro?
DIONE CARLOS — Acabei indo para o teatro tarde. Tentei várias coisas antes. Foi difícil lidar com a frustração de não ter gostado de jornalismo, porque era uma certeza que eu tinha muito. Quando tentei medicina veterinária vi que era o fundo do poço de não saber o que queria. Aí fui fazer teatro. Ganhei um presente do meu marido: um curso no Globe-SP, com a direção artística do Ulysses Cruz. No curso vi que realmente era minha vocação. Estava com 28 anos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mas é bom começar tarde porque você não perde tempo.
DIONE CARLOS — A informação encontra a vivência e vira conhecimento. Lembro que o curso era muito voltado para televisão e propaganda. Mas o Marcos Daud, o coordenador pedagógico, me dizia que meu lance era o teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a escrita?
DIONE CARLOS — Sempre tive relação próxima com textos. A primeira vez que li Macbeth, de Shakespeare, fiquei muito impressionada. Enquanto as pessoas estavam se aquecendo eu estava relendo o texto, tentando compreender como aquilo foi criado.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos voltar um pouco. Onde você nasceu?
DIONE CARLOS — No Rio, sou carioca. Fui criada no Rio, primeiro na área rural, em Santíssimo, até os cinco anos. Tinha boi passando no quintal. Minha mãe é auxiliar de enfermagem e meu pai era vendedor. Morávamos em um lugar afastado de tudo. Aos seis anos, fui para o subúrbio, morar em Quintino, o bairro do Zico, que era outra realidade. Saí do bucólico e caí no Nelson Rodrigues, com as vizinhas fofoqueiras. Sempre morei no Rio de Janeiro que não era o das novelas de Manoel Carlos [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E São Paulo?
DIONE CARLOS — Eu me apaixonei por um paulistano, o Carlos Lima. Vim para cá e estou com ele até hoje. Vinte anos já. Tinha 19 anos quando cheguei em São Paulo, e cheguei com primeiro filho, o Danilo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Dizem que é bom ter filho cedo.
DIONE CARLOS — É… Eu também acho. Para mulher faz toda a diferença. Você vê: eu fiz o caminho todo inverso, primeiro a família, e depois a profissão. Então, agora é a minha hora [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você teve mais filhos?
DIONE CARLOS — Depois vieram os gêmeos, Dionne e Malcom , que agora vão fazer 13. O Danilo já está com 18 anos.

Dione Carlos, em retrato feito por Bob Sousa – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o teatro foi ficando mais forte?
DIONE CARLOS — Sim. Antes de terminar a Globe-SP, fiz Oficina do Teatro Promíscuo do Renato Borghi e do Elcio Nogueira. Tinham mais de 200 candidatos e eles escolheram 20 atores e fui selecionada. Passei dois anos estudando com eles. Sempre escrevia minhas cenas, acho que ali já tinha a dramaturga. Pegamos um Proac circulação e viajamos São Paulo. Foi quando descobri que minha filha tinha autismo. Aí eu tive de optar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi?
DIONE CARLOS — Foi com a menina, a Dionne. Primeiro é um luto, você sofre um baque. Ninguém se prepara para ter uma criança especial. Ela cumpriu todas as etapas esperadas até os dois anos. Então, não percebi nada. Quando tirei a amamentação, ela começou a apresentar os sintomas, ficava com olhar parado, ficava horas olhando a parede. Mãe sente. Comecei a ver que minha filha era diferente. A pediatra falava que era absurdo comparar a menina com o menino. Quando procurei a fonoaudióloga ela me disse que minha filha tinha características do autismo. Ao mesmo tempo era o momento que eu estava começando a me descobrir profissionalmente. Mas o amor de mãe é maior e eu resolvi parar para apoiá-la. Meu marido achou um absurdo, porque ele sempre me apoiou no teatro.

Dione Carlos descobriu na escrita para o teatro sua vocação – Foto: Malcom Lima

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você voltou para o teatro?
DIONE CARLOS — Meu marido me avisou que iriam abrir a SP Escola de Teatro e que teria curso de dramaturgia. Fui fazer o teste com a Marici Salomão e passei. Fui da primeira turma. Foi um presente do destino. Conheci muita gente, Rogério Toscano, Noemi Marinho, Newton Moreno, a própria Marici…

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi ter o contato com a técnica?
DIONE CARLOS — Foi fundamental. Acredito muito na intuição, mas a formação é fundamental. Você precisa de ferramentas para expandir o seu repertório. E o dramaturgo precisa de repertório. Tem que viver.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vida não te falta.
DIONE CARLOS — Não mesmo. Tem que viver, ler, se informar, conhecer outros dramaturgos, os ancestrais, se não olha para trás você não constrói nada. Sou muito ligada à oralidade, venho de família com religião de tradição africana, que é de base oral, passada de boca em boca, isso tem uma riqueza muito grande. Tenho muita admiração por essa forma poética de habitar o mundo através da fala. Para mim foi fundamental entrar em contato com o que já havia sido feito e com quem estava fazendo teatro naquele momento, foi uma troca muito grande na SP Escola de Teatro.

Imagem de divulgação da peça Mamute, de Dione Carlos, em cartaz no Espaço da Cia. do Pássaro, em São Paulo – Foto: Tathy Yazigi

MIGUEL ARCANJO PRADO — Tem o dramaturgo de gabinete, o dos processos colaborativos… Qual tipo de dramaturga é você?
DIONE CARLOS — Eu brinco que sou a dramaturga da masmorra. É a masmorra interior em que eu me coloco, da crueldade artaudiana. O primeiro desafio que eu crio para mim é aceitar as sugestões e os desejos dos diretores. E, uma vez na masmorra, que não chega a ser uma masmorra medieval, mas é dura e necessária para a criação, eu consigo me desafiar e me expandir. Porque, quando sento e escrevo, sempre o texto vai para lugares inesperados.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como surgiu Mamute?
DIONE CARLOS — Eu fui assistir a Hotel Trombose, a peça anterior dos meninos da Cia. do Mofo. Na saída, o Fernando Gimenes, o diretor, me procurou e me disse que havia lido uma noticia de jornal de uma mulher que ficou mumificada 42 anos em um apartamento. Fui atrás da noticia e encontrei várias histórias semelhantes, inclusive em São Paulo. Disse que queriam fazer uma peça a partir disso. Pensei no mamute que foi encontrado ainda com sangue. E pensei na indiferença nas relações na sociedade que a gente vive. Quis trazer para a cena a alteridade no sentido da diferença.  Eu tenho uma filha autista e sempre vou trazer a diferença para o meu teatro. Quero que as pessoas se acostumem a ver coisas que elas não reconhecem. Para não ficarem só acostumadas a visões estereotipadas do gay, da criança especial, do gringo com sotaque. É importante ter quebras, expandir o “realismo”.

SERVIÇO DAS PEÇAS:

Mamute, de Dione Carlos, com direção de Fernando Gimenes e Carla Zanini (Cia. do Mofo)
Quando: Sábado, 21h, domingo, 20h. 60 min. Até 29/3/2015.
Onde: Espaço Cia. do Pássaro (r. Álvaro de Carvalho, 177, metrô Anhangabaú, São Paulo, tel. 0/xx/11 94151-3055)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

Bonita, de Dione Carlos com direção de Alex Araújo (Teatro Mínimo)
Quando: Terça e quarta, 21h30. 40 min. Até 15/4/2015.
Onde: Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, Ipiranga, tel. 0/xx/11 3340-2000)
Quanto: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia-entrada) e R$ 6 (comerciários)
Classificação etária: 14 anos

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