Crítica: Nêgo esfrega racismo na cara da elite curitibana com dança potente

Black power: Bailarinos do espetáculo Nêgo dançam no palco do Guairão – Foto: Humberto Araújo/Clix

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Fotos HUMBERTO ARAÚJO/Clix

A plateia do tradicional Teatro Guaíra não estava lotada para ver a apresentação de estreia de Nêgo (Eu.Ele.Nós. Tudo Preto!) no Festival de Teatro de Curitiba. E era noite de sábado (28), a mais nobre do evento no mais nobre palco.

Pelo menos a curadoria, que escalou vários espetáculos sobre a cultura judaica, lembrou-se também de escalar pelo menos uma montagem de um grupo étnico-social que também foi vítima de genocídio e que segue sendo perseguido no País: o negro.

Montagem Nêgo tem coreografias duras para denunciar violência do racismo – Foto: Humberto Araújo/Clix

Com direção de Sonia Destri Li com a Companhia Urbana de Dança, a obra é uma coreografia street/contemporânea potente e politizada, que escancara o racismo cotidiano (e muitas vezes velado) tão presente no Brasil.

De cara, joga uma luz em contra na cara do público, tal qual os faróis de uma viatura que muitos brasileiros negros trabalhadores precisam encarar na rua. Porque o racismo dói, é violento e existe. Mesmo que de forma silenciosa.

E Curitiba não fica atrás. Na plateia do Guairão, praticamente não havia negros. O espaço é comumente o da elite branca curitibana. De negros, havia este crítico, um ou outro espectador com muita sorte, alguns seguranças e os bailarinos no palco.

E os artistas merecem ser nominados: Tiago Souza, Raphael Russier, Miguel Fernandez, André Virgílio, Johnny Brito, Julio Rocha, Jessica Nascimento, Allan Wagner e Rafael Balbino.

Zumbi é evocado durante a dança de Nêgo para lembrar o genocídio cometido contra esta etnia – Foto: Humberto Araújo/Clix

Com uma iluminação na penumbra e uma trilha que mistura sonoridades urbanas da favela com sons de batuques africanos, incluindo a evocação de Zumbi na bela voz da bailarina Jessica Nascimento, o espetáculo é duro em sua concepção estética tal qual é um ato de racismo. Não quer atenuar sua denúncia com beleza plástica. O que faz muito bem.

Enquanto os bailarinos dançavam muitas vezes passos violentos, ouvia-se uma a voz a repetir as palavras repletas de discriminação que um negro precisa escutar sobre sua etnia diariamente neste Brasil racista: “neguinho, azul, criolo, macaco, moreno, moreninho, escurinho, tição” e tantas outras mais.

Corpos negros em movimento no palco da tradicional elite branca curitibana – Foto: Humberto Araújo/Clix

Ao fim, com a exaustão de uma dança repetida muitas vezes, tal qual a luta pela resistência negra, só resta uma palavra, como rebate a isso tudo: Nêgo. Um retrato da agonia de uma etnia vítima de preconceito diário.

Diante da montagem aguerrida, o R7 percebeu que alguns espectadores preferiram deixar o teatro no meio da obra. Talvez, não suportaram serem esbofeteados com a verdade do racismo que cometem cotidianamente de forma velada em nome da tal falácia da cordialidade racial.

Contudo, a maioria do público permaneceu até o fim. E aplaudiu fartamente o espetáculo. E de pé.

Nêgo (Eu.Ele.Nós. Tudo Preto!) 
Avaliação: Ótimo

Nêgo é retrato da agonia de uma etnia negra, vítima de preconceito diário – Foto: Humberto Araújo/Clix

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

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2 Resultados

  1. deisejulianadasilva disse:

    Sofri na pele o preconceito…nunca achei ke a cor da minha pele fosse falar mais alto….sou negra sim…..me orgulho disso….sou preta sim cabelo crespo pele escura…..meu maior orgulho…minha raça meu povo…minha historia…..

  2. Phillipe disse:

    Não apenas o negro, mas o índio também foi vítima de genocídio. E, hodiernamente, os homossexuais e os transexuais, dentro da comunidade. E mais triste ainda é ver, dentro da comunidade que não é heteronormativa, o preconceito de alguns bissexuais contra homossexuais, principalmente os afeminados.
    Muitas pessoas optam pelo caminho da covardia: elas simplesmente só querem ver ou saber da existência daquilo que lhes convém.

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