Crítica: Simone Magalhães dá relevância à cena off do Festival de Curitiba com show inesquecível

Simone Magalhães: ela é a grande diva dos palcos curitibanos – Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial do R7 a Curitiba
Fotos EMI HOSHI/Emi PhotoArt

O nome do show já é instigante: Por que Não Tem Paquita Preta?. De cara, é uma colocação política, étnica e performática da cantora e atriz Simone Magalhães.

Ela é um dos ícones dos palcos paranaenses e brasileiros. Como o Brasil tem complexo de vira-lata, como diria Nelson Rodrigues, ela ficou de fora da programação oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2015.

Suas apresentações se deram na cena off, a convite da sacudida turma de artistas da Casa Selvática, uma charmosa propriedade da Selvática Ações Artísticas de dois andares na rua Nunes Machado, 950, no bairro curitibano Rebouças.

O público chega ávido. Toma cerveja enquanto não começa. Logo, é convidado a se acomodar na pequena sala, preparada com luzes e até um efeito de fumaça para receber Simone, seu violão e sua grande voz.

Ela chega com tudo, fazendo os corações e mentes girarem de imediato.

Simone Magalhães mistura experiências pessoais e música em seu show Por que Não Tem Paquita Preta?, apresentado na Casa Selvática, em Curitiba – Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

A partir de experiências pessoais, a artista traz ao palco situações comuns neste Brasil cada vez menos tolerante com a diversidade, mergulhado no preconceito e no ódio.

Para ela, mesmo vítima por exemplo de uma violenta batida policial nas ruas curitibanas, o amor fraternal é capaz de vencer. E sua arte também.

Sofrendo na pele tais mazelas, Simone é um extravaso de amor no palco. Brinca e diz que, se pudesse, levava todo mundo para a sua cama. Ela se apaixona fácil. E a gente por ela também.

Dona de um carisma inigualavelmente intenso, Simone consegue fazer o público transitar por momentos duros em seu show, narrando fatos impactantes, de tristeza e também de conscientização.

Mas, ela consegue recuperar o ritmo em um passe de mágica. É inacreditável a forma em que transita por tantas emoções de maneira singular e potente, nos levando juntos.

Na cena off, show de Simone Magalhães foi uma das experiências artísticas mais significativas realizadas durante Festival de Teatro de Curitiba 2015 – Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

O show de Simone Magalhães Por que Não Tem Paquita Preta? é um das propostas mais significativas que aconteceram neste Festival de Teatro de Curitiba de 2015. E, ironicamente, não fez parte dele, oficialmente. É uma resistência underground, onde geralmente a grande arte costuma habitar.

O espetáculo de Simone Magalhães poderia ser considerado como uma versão análoga à do norte-americano Holcomber Waller – que ganhou o palco do Guairinha na Mostra Oficial com seu espetáculo Surfacing -,  só que vernácula e provocativa.

Simone é muito mais gente, muito mais Brasil, muito mais artista, muito mais interessante, muito mais talento, muito mais música, muito mais teatro. Por isso, ela deveria ter destaque não só na cena curitibana, como na brasileira e nas próximas edições deste Festival de Teatro de Curitiba. O público pede.

Ainda bem que existem os resistentes artistas da Casa Selvática para reparar que Simone merece o espaço do palco, lugar onde se encontra para dialogar com o público ávido por experiências intensas, “fazendo a gira girar”.

Simone Magalhães em Por que Não Tem Paquita Preta?
Avaliação: Ótimo

Simone Magalhães com a turma da Selvática Ações Artísticas – Foto: Emi Hoshi/Emi PhotoArt

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Acompanhe em tempo real o R7 no Festival de Teatro de Curitiba 2015!

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Depois dessa crítica arrasadoramente boa, o povo da organização do Festival de Curitiba deveria refletir mais, rever erros e acertos e incluir o nome de Simone na próxima edição.
    POR QUE NÃO TEM PAQUITA PRETA? é um título realmente instigante. Eu diria que, conforme já indicaram críticos de televisão e ativistas, porque, para a época, o que se via era a reprodução da ideia da babá eletrônica como a “fada branca loirinha”, símbolo de pureza, doçura e inocência. Isso tanto é verdade que, historicamente, vimos o destaque de Jackeline Petkovic, no SBT, Xuxa, na Manchete/Globo, Angélica, na Manchete/Globo, Eliana, na Record/SBT, Mariane, no SBT. A única que foi contra a maré foi a morena Mara Maravilha que, infelizmente, deu declarações tão lastimavelmente infelizes acerca dos homossexuais…

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