Crítica: Maria Alice Vergueiro morre em cena para viver mais em Why the Horse?

Maria Alice Vergueiro recebe beijo do espectador Rodrigo Eloi após estreia de Why the Horse?, na última sexta (10), no palco do Teatro do Sesc Santana, em São Paulo – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Há uma certa curiosidade mórbida por parte do público diante do espetáculo Why the Horse? [Por que o Cavalo?]. Afinal, antes da estreia, a diretora e protagonista, Maria Alice Vergueiro, afirmou à imprensa que encenaria a própria morte e velório neste espetáculo.

A notícia impactante e a coragem performática da artista em anunciá-la mexeu fundo com o público e, sobretudo, com a classe teatral, da qual Vergueiro, com mais de 50 anos de carreira, é uma das figuras mais queridas e respeitadas.

Com 80 anos completados em 19 de janeiro último, a atriz sofre de Parkinson em estágio avançado. Mas, como diz a acertada música de Gilberto Gil que soa no espetáculo sob direção musical de Otávio Ortega, Maria Alice Vergueiro não tem medo da morte.

Muito pelo contrário, transforma a proximidade do fim em cena viva e pulsante ao lado de seu Grupo Pândega.

Em primeiro plano, Maria Alice Vergueiro, rodeada pelos atores Luciano Chirolli, Carolina Splendore e Robson Catalunha, na estreia de Why the Horse? – Foto: Bob Sousa

Luciano Chirolli, seu parceiro criativo na vida real, também é o principal companheiro de Maria Alice na peça. Além de ampará-la, a confronta também, nas melhores cenas da montagem feita em formato happening nas bases de Jodorowsky e com parte do público em cima do palco do Teatro do Sesc Santana.

O cenário sóbrio criado por J. C. Serroni traz epitáfios com nomes de mortos famosos do teatro brasileiro e universal, indo desde Paulo Autran a Samuel Beckett, num prenúncio futuro do nome de Maria Alice Vergueiro entre eles.

Guilherme Bonfanti faz desenho de luz sutil e condizente com a proposta estética da obra, criando pequenas atmosferas sensoriais onde a presença dos atores por si só desenvolve a dramaturgia de Fábio Furtado. O fim inexorável também está presente nos figurinos carcomidos criados por Telumi Hellen.

Choro cala profundo

O espetáculo traz um tom de deboche com a própria morbidez que propõe. Mesmo assim, consegue inúmeros momentos de sensibilidade à flor da pele, como quando Chirolli chora copiosamente diante de Vergueiro morta, produzindo um som ininteligível. É uma cena que cala profundo em quem ama o teatro.

Carolina Splendore, Alexandre Magno e Robson Catalunha completam o elenco, servindo de representação para as novas gerações com as quais Vergueiro não se cansa de dialogar, de forma generosa. Prova disso são as selfies que tira com o público ao fim da peça; Vergueiro quer mesmo estar presente por todos os lados. Splendore representa ainda a própria explosão de juventude, contestação e força de Vergueiro de outrora, em uma linda imagem metafórica quando desnuda seus seios.

Em Why the Horse?, Maria Alice Vergueiro mostra ser ainda uma garota atrevida, que não se cansa de fazer suas travessuras artísticas, surpreendendo a todos nós. Desafiadora e performática, ensaia seu próprio fim diante de seu público, que não sabe se rir ou chorar. Mas uma coisa é certa. Ela morre em cena para, assim, viver mais.

Why the Horse?
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h; domingo, 19h. 60 min. Até 10/5/2015
Onde: Teatro do Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579, metrô Jardim São Paulo, São Paulo, tel. 0/xx/11 2971-8700)
Quanto: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia) e R$ 9 (comerciário e dependentes)
Classificação etária: 16 anos

Veja trajetória de Maria Alice Vergueiro em 7 fotos

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2 Resultados

  1. Tânia Galvani disse:

    A peça é maravilhosa, Maria Alice, a maior diva do teatro nacional!!! Recomendo SUPER, imperdível!!!

  1. junho 2, 2016

    […] No elenco estão ainda Luciano Chirolli, Carolina Splendore, Robson Catalunha, Sérvulo Augusto e Alexandre Magno. Leia a crítica. […]

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