Entrevista de Quinta – Talento não acaba quando envelhecemos, diz atriz Arllete Montenegro

Arllete Montenegro faz parte da história da TV e da dublagem no Brasil – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

É fim de tarde, os carros avançam pelo Minhocão e a chuva começa a cair em São Paulo quando a porta do apartamento no 11º andar no prédio na praça Marechal Deodoro se abre. Do outro lado está a atriz Arllete Montenegro, ícone da história da televisão.

Ela estreia nesta sexta (24), no Teatro Bibi Ferreira, a comédia De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, com texto de Ronaldo Ciambroni e direção de Jacques Lagoa [veja serviço ao fim].

Com um sorriso no rosto, conta que acaba de retornar de uma dublagem. Estava aproveitando o tempinho livre para ver Ghost – Do Outro Lado da Vida na Sessão da Tarde. “Adoro este filme”, conta, enquanto vai buscar a revista Contigo! que o porteiro acaba de entregar. Vez ou outra, vendo TV, escuta a própria voz.

Arllete foi uma das criadoras não só da teledramaturgia brasileira como também da dublagem. Começou no rádio, no fim da adolescência, quando inscreveu-se no concurso Procura-se uma Estrela da Rádio São Paulo. Tirou primeiro lugar.

Logo, virou realmente estrela de radionovelas. Daí para a televisão, foi um pulo. Começou na extinta Tupi, em 1956. No ano seguinte, foi contratada pela Record. Fez novela ao vivo e clássicos como a primeira versão de Éramos Seis. Em 1960, já muito famosa, foi contratada pela Excelsior, que vivia seu auge. Foi lá que fez A Muralha, sucesso absoluto em 1968, onde era nora de Fernanda Montenegro, sua xará duas vezes, já que o verdadeiro nome de Fernanda é Arlete.

Em 1971, retornou à Tupi, onde fez clássicos como A Viagem, em 1975, e permaneceu até o triste fim da primeira emissora brasileira.  Fez mais de 50 novelas. A partir daí, viu todos os seus colegas se transferirem para o Rio, para trabalhar na Globo.

Por precisar cuidar do marido e da mãe doentes, permaneceu em São Paulo, fazendo apenas participações esporádicas nas novelas. O teatro acabou sendo sua forma de manter viva a atuação em sua vida. E a dublagem, que nunca a abandonou.

Histórias não faltam para ela contar nesta Entrevista de Quinta ao Atores & Bastidores do R7. Leia com toda a calma do mundo.

Arllette Montenegro, ao lado de Milton Levy, Cláudio Andrade e Dani Marcondes, colegas de elenco na peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, em cartaz no Teatro Bibi Ferreira – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi o convite para fazer a peça De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco?
ARLLETE MONTENEGRO — A peça é um pouco nonsense, bem louca, é uma coisa do Ciambrone. É bem atual. Muita gente me disse que tem parente assim. Sabe gente que está despirocada mesmo? Ela é assim. As pessoas morrem de rir.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está feliz?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. O Jacques Lagoa, que é o diretor, é meu amigo de muito tempo, mais de 30 anos. Fizemos a peça Descalços no Parque, de Neil Simon, que ganhou todos os prêmios. Ele me convidou e fiquei muito feliz. Ano passado eu fiz La Mamma como stand-in da Rosi Campos. Esta é a volta dele ao teatro. Jacques é o rei da comédia. É um excelente diretor de comédia.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua personagem é uma mãe possessiva?
ARLLETE MONTENEGRO — Mãe possessiva tem aos montes. Essa, além de possessiva, é louca mesmo. Acho que ela tem Alzheimer, porque esquece coisas, inventa coisas…

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você gosta de fazer teatro popular?
ARLLETE MONTENEGRO — É excelente encontrar o grande público de comédia. Eles são muito receptivos. Tenho notado que o público quer ver isso. Quando é algo mais complicado, de pensar um pouquinho, o público não tem paciência. Isso está acontecendo muito na dramaturgia.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Por quê?
ARLLETE MONTENEGRO — Sei lá… Acho que o mundo anda tão estranho que o pessoal está querendo rir de qualquer coisa.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Estava falando há pouco com uma outra atriz, a Cléo De Páris, justamente sobre isso, sobre essa desesperança. Como você vê isso hoje?
ARLLETE MONTENEGRO — Tem de tudo. Eu sou espiritualista. Acho que faz parte de um processo de limpeza e purificação. Então, está havendo avanços. É que a gente só ouve notícia ruim. Porque a mídia só divulga coisa ruim. A notícia ruim dá ibope. As coisas boas que acontecem não são divulgadas. Isso é que cria esse clima. Acho que os jornalistas deveriam encerrar o jornal com alguma notícia boa, para não deixar o povo tão desesperançado.

Arllete Montenegro com Edgar Franco em A Muralha, na década de 1960, na Excelsior – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi sua relação com a ditadura?
ARLLETE MONTENEGRO — Na época eu era muito alienada. Eu me lembro que no dia 31 de março de 1964 os militares entraram com metralhadoras no estúdio da Excelsior. Estávamos gravando a novela e eles, que eram tão burros, acharam que a gente iria botar a estação no ar. Eles nos prenderam a noite inteira. Até para ir ao banheiro tinha de ir acompanhado. Mas eu era muito criança, muito bobona, não tinha noção da gravidade de tudo aquilo. De manhã é que fomos saber que havia sido dado o golpe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você se lembra de alguma perseguição?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não fui perseguida, porque era muito boba. Mas eu me lembro do Dionísio de Azevedo queimando livros no quintal junto do Lima Duarte, porque se eles encontrassem um livro de capa vermelha já diziam que você era comunista.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que você acha dessa gente que pede a volta dos militares?
ARLLETE MONTENEGRO — Isso é loucura, é uma ignorância crassa. Imagina, voltar àquele estado de terror? Isso é absurdo. Assim como pedir o impeachment da outra, porque não vai adiantar nada, a gente só vai perder tempo e desestabilizar o País. Temos de fazer as passeatas e reclamar, sim. Eu até fui em umas aí. Mas de outro modo, forçando os políticos. Essa coisa de impeachment é bobagem. Ela entrou agora, vai gastar um dinheirão de novo, paralisar tudo. É preciso fazer o Congresso mudar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar de TV, porque você ajudou a criar o veículo no Brasil.
ARLLETE MONTENEGRO —Eu brinco que sou da época da TV movida a lenha.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você vê São Paulo ter perdido a teledramaturgia para o Rio?
ARLLETE MONTENEGRO —São Paulo deu bobeira. Porque quando a Tupi faliu era obrigação do SBT ter pegado aquela herança de teledramaturgia. Mas deixou o Rio tomar conta de tudo, com a Globo. Até a Record faz novela no Rio. E ninguém chama a gente. Só querem gente nova.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu, particularmente, gosto dos personagens feitos por atores com trajetória, da antiga, talentosos.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem pouca da terceira idade. Hoje em dia nas novelas ninguém mais tem mãe, tia, avó, cunhada. Ninguém tem família. É tudo jovem. O próprio jovem fazendo papel de pai e mãe.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Eu me lembro da Camila Pitanga fazer mãe de gente de 20 anos. Ficava até engraçado.
ARLLETE MONTENEGRO — Tem acontecido muito isso. Só tem jovem nas novelas.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você acha disso?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu fico muito triste. Mando e-mail para eles me oferecendo para trabalhar, porque tem de ter mais terceira idade nas novelas. Eu quero trabalhar. Não é porque a gente envelhece que o talento acaba.

Regina Duarte, Susana Vieira, Maria Izabel e Arllete Montenegro em 1966 – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você não foi para o Rio como os colegas da sua geração fazer novela na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu não pude fazer. Na época recebi vários convites, mas estava com marido doente, tinha filho pequeno. Não tinha como ir. Todo mundo foi, menos eu. Teve novela de eu terminar sem o galã, que ele pediu demissão e foi para o Rio.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que ficar em São Paulo lhe trouxe de bom?
ARLLETE MONTENEGRO — Foi bom porque eu fui fazer teatro. Porque eu não tinha feito teatro… Antes eu só estava fazendo televisão. Eu fazia novela ao vivo na Record, que ainda era no Aeroporto de Congonhas. Na Record eu fiz locução de cabine, telejornal, tudo! Só fui fazer teatro com 20 anos de televisão, mas eu já dublava…

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é uma das dubladoras mais tradicionais.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu faço a voz da Meryl Streep. Fiz O Diabo Veste Prada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você dubla muito?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublo em todos os estúdios de São Paulo. Até a professora do Bob Esponja eu faço.

MIGUEL ARCANJO PRADO —É difícil dublar? Qual o segredo?
ARLLETE MONTENEGRO — Dublar é um paradoxo: você tem que estar zen e ligadão. Você já viu isso? Só gente louca consegue. É uma coisa que você tem de ter muito controle motor. Você ouve uma língua no seu ouvido, emboca na tela com um ator que não tem o seu tempo e precisa fazer com a mesma emoção. É uma coisa de gente louca. Quando começou a dublagem eles foram buscar a gente na rádio. Tentaram com o povo do teatro da época, mas não deu certo, porque eles falavam alto, para a última fila, com a voz empostada. Então, foram buscar a gente na rádio, que falava baixinho, sussurrado.

Arllete Montenegro com Flávio Galvão na extinta TV Tupi – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua família achou ruim de você ser artista?
ARLLETE MONTENEGRO — No começo foi uma briga, porque achavam que era tudo puta e viado [risos]. Eu me inscrevi no Procura-se uma Estrela. Na época eu morava na Casa Verde, que naquela época era na China, e trabalhava numa ótica na rua São Caetano. Mas me inscrevi na rádio São Paulo e ganhei primeiro lugar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o seu nome, com surgiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Era Arlete Branco, mas eles acharam que não tinha sonoridade. Queriam tirar o Arlete também, mas eu não deixei. Aí eu escolhi o Montenegro. Na época não sabia da Fernanda. Ela já estava trabalhando, mas no Rio. E, naquela época, São Paulo e Rio eram mundos muito distantes. Se eu soubesse que já tinha o dela não teria escolhido.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vocês trabalharam juntas?
ARLLETE MONTENEGRO — Fizemos A Muralha, ela era minha sogra, foi um sucesso estrondoso. Foi aí que descobri que tínhamos o mesmo nome. Porque eu comprei ovos de páscoa na Record, no corredor, que descontava no holerite. Aí um dia a camareira levou a Fernandinha, filha dela, para brincar com meu filho, que era mais novinho, o Fábio, aí ela me falou: A Fernanda pagou todos os seus ovos. E eu: como assim? Ela me respondeu: Ela se chama Arlete Pinheiro Torres. Viram Arllete Montenegro e pensaram que era ela dela. Olha que engraçado. Até aniversário fazemos juntas. Ela faz no dia 15 de outubro e eu no dia 16.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O povo pensa que vocês são irmãs?
ARLLETE MONTENEGRO — Pensa. E ela fala que sim, porque ela fala que tem preguiça de ficar contando a história.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual tipo de teatro você gosta?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu gosto muito do teatro americano. Gosto de Tennessee Williams e Neil Simon.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando você entrou na Globo?
ARLLETE MONTENEGRO — Eu só fui nos anos 1990, depois que minha mãe morreu, para fazer Cara & Coroa. A mais recente que fiz na Globo foi O Profeta.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que as emissoras de São Paulo deveriam investir mais em teledramaturgia?
ARLLETE MONTENEGRO — Claro! Tudo começou aqui. O SBT deveria investir mais e a Record deveria trazer as novelas para São Paulo. Temos um mercado ótimo de atores aqui. Tenho gostado muito da GNT, que tem feito muito dramaturgia. Coisas excelentes. Eu vejo tudo. Também quero fazer um bom filme. O cinema brasileiro está ótimo. Cineastas, podem me chamar que eu topo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Falta nos produtores, diretores conhecer a história da TV e quem a construiu?
ARLLETE MONTENEGRO — Sim. Se eu vou em alguma emissora agora, me perguntam: trouxe book, tem três fotos? Eles não fazem ideia da minha trajetória. Quando fui fazer Cara & Coroa, que foi o Wolf Maya quem me chamou, junto do Luis Mello e da Marilena Ansaldi, muita gente achava que eu era só de teatro. Quando me viram gravar a primeira cena ficaram impressionados porque eu fiz de primeira, não tinha dificuldade nenhuma. Eu falei, gente, mas eu faço novela desde os anos 1950! [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO —Você é mestre. E esse curso que você fez não tem em lugar nenhum.
ARLLETE MONTENEGRO — Eu aprendi fazendo. Nós criamos tanto a dublagem quanto a televisão. Só o teatro que a gente não criou [risos].

Arllete Montenegro: “Só o teatro que a gente não criou” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

De Artista e Louco Todo Mundo Tem um Pouco
Quando: Sexta e sábado, 21h, domingo, 20h. 70 min. Até 28/6/2015
Onde: Teatro Bibi Ferreira (av. Brigadeiro Luís Antonio, São Paulo, tel. 0/xx/11 3105-3129)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 12 anos

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    1. Amei a entrevista. A Montenegro foi muito sincera, natural.
    2. É de uma verdade absurda o que a Montenegro comentou, sobre essa onda de só pôr ator novo nas telenovelas. É algo mentiroso e discriminatório, pois dá a falsa ideia de que é importante sempre estar belíssimo e jovem e, na vida real, não é nada disso. Isso é coisa de nosso mundo ocidental, uma má bagagem americana (mais uma). Deveríamos aprender com o Japão, que respeita muitíssimo seus antepassados e sua experiência de vida.
    3. Eu concordo com a entrevistada quanto a não querer o retorno da ditadura, mas já discordo quanto ao “impeachment”. Não houve abertura de “impeachment” para Collor de Mello? Por que não pode haver abertura de “impeachment” para Dilma? Se o Brasil é de fato um país democrático, o “impeachment” deve ser utilizado em favor de nossa democracia. No passado, como o Collor de Mello era de outro partido, o PT fez vários comícios em prol do “impeachment”. Não é irônico?

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