Entrevista de Quinta – Esther Góes sabe o que quer: “Uma obra tem que me deixar à beira do abismo”

Esther Góes - Determinadas Pessoas

Esther Góes fala sobre arte, teatro, entretenimento e política ao R7 – Foto: Divulgação

Por BRUNA CRISTINA FERREIRA*

Alguns entrevistados tornam a vida do jornalista muito simples. Assim foi com Esther Góes. Sua objetividade não é apenas a de quem sabe o que está falando, mas de quem sabe o que quer e suas motivações. Entre suas referências está justamente Helène Weigel, atriz, militante política e mulher de Bertolt Brecht, a quem homenageia no espetáculo Determinadas Pessoas – Weigel, que entra em cartaz para curtíssima temporada no Teatro Ruth Escobar, aos sábados e domingos, de 9 a 24 de maio.

Escrita “a quatro mãos” pela própria Esther e por Ariel Borghi, a peça fala sobre a vida da atriz que revolucionou o teatro em tempos difíceis de viver. Em entrevista ao Atores & Bastidores, Esther falou sobre a obra, teatro e ideais, sem medo de criticar a indústria que busca o entretenimento a todo custo. Para ler e reler quantas vezes puder.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Pessoas Determinadas volta aos palcos agora?
ESTHER GÓES – Sim. Nós fomos um dos ganhadores do Prêmio Zé Renato de itinerância pela cidade de São Paulo, um projeto da Secretaria de Cultura de São Paulo. Essa é uma das peças do repertório da companhia e estreou, na verdade, em 2008. A gente sempre volta para Weigel, porque ela responde ao momento que vivemos no Brasil. Encaixa como uma luva. Nós tivemos uma itinerância grande, fizemos 12 CEUs, dois espetáculos no Mackenzie e agora faremos seis apresentações, ao sábados e domingos, no Ruth Escobar. Encerrando a temporada.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Ela segue após a temporada no Ruth Escobar?
ESTHER GÓES – Será quase uma despedida do espetáculo mesmo. Não quisemos refazê-la, pois temos outros projetos, mas nada impede que, no futuro, voltemos a montá-la.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você foi para a Alemanha pesquisar a história de Helène Weigel?
ESTHER GÓES – Sim, a peça demorou dois anos para ficar pronta. Na Alemanha tivemos a oportunidade de conhecer a grande biógrafa da Weigel, a Sabine Kebir, cujos livros nos deram uma noção muito maior da realidade, nua e crua, além de toda a pesquisa histórica que já tínhamos. Foi uma pesquisa muito extensa, nós fizemos a tradução da obra dela para o Brasil, queríamos apenas a verdade sobre a personagem. Tem muita lenda em torno da história dela, queríamos fazer as melhores escolhas, se ater aos fatos.

Esther Góes - Determinadas PessoasBRUNA CRISTINA FERREIRA – Como você conheceu a personagem e por que fazê-la agora?
ESTHER GÓES – Nós fizemos Bertolt Brecht a vida inteira. Em toda a obra dele, víamos a presença de Helène Weigel, a mulher dele, cocriadora do Berliner Emsemble, inspiradora da obra dele o tempo inteiro. Tinha uma admiração por essa figura, mas não sabia muitas coisas. Foi mais ou menos em 2007 e 2008, que procurei uma personagem que fosse uma referência, falando enquanto atriz, enquanto trabalhadora na arte. Eu queria alguém que significasse um pouco mais do que vaidade e valores fictícios, que pudesse ser uma referência para mim mesma. De repente, eu tinha um retrato dela na parede de casa, que ganhei de um amigo, e dei de cara com ela.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Literalmente?
ESTHER GÓES – Literalmente. Essa mulher tinha tudo para não conseguir fazer o que fez. Ela nunca acreditou em besteira, se manteve absolutamente fiel às coisas que acreditava. Ela chegou a ser considerada a melhor atriz do mundo, depois de enfrentar tanto preconceito. Quando ela alcançou o sucesso, o Brecht dizia que “Helène Weigel desceu para a fama”. Pensei: “Ela é a minha referência. É dela que eu preciso”. Assim como todos nós, pois a fome e a sede são as mesmas.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Era um risco não encontrar tudo o que você esperava, não?
ESTHER GÓES – O que a gente encontrou foram pessoas de uma autenticidade espantosa, de um caminho na arte que deixou uma contribuição que não morre. As contribuições que são feitas com essa verdade, elas não desaparecem. A gente encontrou uma pessoa maior e melhor do que era esperado e foi uma sorte.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Esther, você se formou na EAD nos anos de chumbo. Como era fazer teatro naquela época?
ESTHER GÓES – Era o teatro da metáfora, você nunca podia falar o que era, tinha que falar indiretamente. A obra do Brecht foi um instrumento importante, a gente falava o Brasil o tempo inteiro. Também tinha uma coisa muito bonita, que nos unia enquanto artistas. Tínhamos um objetivo de luta, uma função histórica, que produziu um teatro muito importante. Depois que a situação pesada passa, vemos a redemocratização, os valores de mercado avançam. Parece que a função da arte é apenas entreter, um teatro que não entende muito bem suas razões, prevalece o que há de pior. Tudo precisa ser um produto vendável e patrocinável. Para o teatro, isso significa zerar os seus reais objetivos. Esse teatro eu não quero fazer, eu não me alinho, eu me recuso.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você acha que falta memória no País?
ESTHER GÓES – A questão da memória é exatamente um dos motivos que nos levou a pesquisar sobre Weigel e Brecht. São pessoas que não podem ser esquecidas. No começo do século XX existiu uma geração extremamente forte, que quis mudar o mundo no sentido da igualdade e da generosidade. Eles acreditavam nisso enquanto o bem do humano. Quando o socialismo se tornou autoritário e traiu os ideais iniciais, todos sofreram e tiveram suas próprias decepções. Eles sentiram tudo isso, eles tiveram que viver isso.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Isso nos diz alguma coisa sobre o momento que vivemos hoje?
ESTHER GÓES – Ao trazer esse testemunho deles, a gente funciona como um espelho do século XX. Espelho do que vivemos e as pessoas se relacionam no aqui e agora imediatamente. No século XXI, os temas são os mesmos, as discussões sobre as posturas são as mesmas, assim como as ideologias. Até formas nazistas voltaram. Helène Weigel era judia e Brecht se casou com ela quando todo aquele horror começou. Era a postura de um cara muito grande, muito corajoso. A figura humana dele é bastante incrível e você o lê no espetáculo também.

Esther Góes - Determinadas Pessoas

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Você completa 70 anos ano que vem?
ESTHER GÓES – Deus me livre, não vou falar disso. Isso é muito chato! Eu falo e logo colocam a gente em um rótulo do qual você não sairá nunca mais.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Quero saber se é possível uma comemoração da data, peças especiais, homenagens…
ESTHER GÓES – Não tenho o menor saco. É uma energia que você gasta à toa. Tem tanta coisa para se fazer agora. A vida é sempre hoje. Eu comecei no teatro com Hair, em 1970 e a luta é muito grande. O Ariel Borghi e eu estamos criando uma obra autônoma, sem os grandes patrocínios. É o caminho mais difícil.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Já tem uma peça para depois da temporada?
ESTHER GÓES – A gente tem algumas linhas que quer perseguir, pesquisar mesmo. Para nós, enquanto companhia de teatro, precisamos descobrir qual é o texto, o que a gente necessita. É um tempo de resguardo mesmo. A gente sente que o teatro é cada vez mais importante, que a função dele é essencial.

BRUNA CRISTINA FERREIRA – Quando te veremos na televisão de novo?
ESTHER GÓES – Eu sou contratada da Record e estou emprestada fazendo Questão de Família, no GNT. Tenho feitos coisas bem significativas da Record como Plano Alto e Conselho Tutelar. São grandes obras e fiquei muito orgulhosa de participar. Quando a obra é boa, ela está contribuindo. Hoje em dia, não consigo avaliar uma obra como “ai, que bonito”. Tem que me tocar, tem que me deixar à beira do abismo. Temos que viver isso junto com a população, não dá para ficar lá fora com binóculos.

*BRUNA CRISTINA FERREIRA é repórter do Portal R7 e cobre o blog interinamente durante as férias do colunista e editor de cultura Miguel Arcanjo Prado.

Determinadas Pessoas – Weigel
Quando: Estreia dia 9 de maio. Sábados, 21h30, domingos, 19h30. Até o dia 24/5/2015. Curtíssima temporada.
Onde: Teatro Ruth Escobar (Rua dos Ingleses, 209, Bela Vista – o/xx/11 3289-2358)
Quanto: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Duração: 60 minutos
Classificação etária: 14 anos

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