O Beijo no Asfalto volta para dialogar com Brasil atual

Beijo no Asfalto de volta aos palcos; a partir da esq.: Danielle Scavone, Marcos Breda, Pamela Domingues, Alvaro Gomes, Stella Portieri, Cal Titanero e Carolina Guimarães- Foto: Victor Salviano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O Beijo no Asfalto, obra escrita por Nelson Rodrigues em 1960, ganhará nova montagem nos palcos brasileiros no segundo semestre, dirigida por Marco Antonio Braz, um dos maiores especialistas na obra do jornalista e dramaturgo pernambucano.

A obra tem estreia prevista para 31 de julho no Solar de Botagofo, no Rio, e, em setembro, no Teatro Augusta, em São Paulo.

A peça conta a história de um homem que dá um beijo na boca em outro homem que acaba de ser atropelado e, na agonia da morte, lhe pede um beijo. A partir desta situação, o texto apresenta uma discussão de costumes, preconceitos e expõe a manipulação da polícia e da imprensa do caso no afã de destruir a vida de um homem.

Frescor

A peça foi escrita no aflorar da década de 1960, marcada pela revolução sexual. Contudo, pelo nível de algumas discussões do Brasil atual sobre a sexualidade alheia, a impressão é que os avanços comportamentais dos últimos 55 anos não existiram. Daí o frescor da montagem.

Nelson Rodrigues escreveu O Beijo no Asfalto há 55 anos, mas peça segue dialogando com o Brasil de hoje mais do que nunca – Foto: Divulgação

Os ensaios já acontecem em São Paulo, no Espaço da Cia do Pássaro, no Anhangabaú. A assistente de direção, Carolina Guimarães, afirma que “a sensação é de um pintor que joga a tinta e de repente vê o quadro criando forma”.

O ator Marcos Breda vive o repórter Amado Ribeiro, “o grande arquiteto da tragédia toda”, em sua opinião. Ele define Nelson Rodrigues como “o Shakespeare brasileiro” e diz que seus personagens têm “aparência naturalista e alma melodramática”. Para Breda, Nelson expõe em sua obra “os desejos secretos e negados, as taras, as perversões e os tabus”.

Pamela Domingues, que na peça vive as personagens dona Matilde, a secretária e a viúva, concorda. E comemora seu encontro com a obra rodrigueana em sua primeira montagem adulta.

“O tema da minha monografia foi As Mulheres de Nelson”, na qual eu citava o Braz. Fazer uma peça do dramaturgo que estudei com o diretor que pesquisei é uma alegria imensa”, diz.

O elenco conversou com o blog sobre a peça, durante coquetel de lançamento do espetáculo, oferecido por seus patrocinador, Nobre Demolidora, com apoio da Cerpa Cervejaria.

O diretor Marco Antonio Braz – Foto: Francisco Cepeda/AgNews

Diretor exigente

Também no elenco está o ator Alvaro Gomes. Ele faz Nelson pela primeira vez em 40 anos de carreira nos palcos. Na peça, vive o pai, Aprígio. Ele diz que a dramaturgia “é difícil, mas instigante” e faz questão de elogiar o diretor: “Sempre quis trabalhar com o Braz. Ele tem um olhar muito interessante para a obra do Nelson”.

Stella Portieri, que na peça vive Dália, personagem “obcecada com a morte”, diz que Braz é exigente e dá bronca, mas “de forma amorosa”. “É assim que a gente pega no tranco”, brinca.

Cal Titanero viverá o protagonista, Arandir, perseguido durante toda a peça por ter dado um beijo em outro homem. Ele afirma que “Braz tem uma exigência com o texto e exige muita preparação do ator”.

Diálogo com o presente

Titanero conta que conheceu o diretor por meio da atriz Lucélia Santos, que os apresentou. Define os ensaios como “recomeçar do zero”. Por conta do peso da obra, afirma que este “é o maior desafio” em sua carreira. E recorda o caráter político da peça no Brasil contemporâneo. “Temos uma mídia que manipula, uma polícia que bate e uma forte onda de homofobia e conservadorismo. A peça, escrita 55 anos atrás, fala tudo isso. Parece que foi escrita ontem”.

Danielle Scavone, intérprete de Selminha, faz coro ao colega, sobre a atualidade da peça. E aproveita para mandar seu recado. “Não gostar é uma coisa, mas não respeitar é outra completamente diferente. Precisamos de mais respeito no Brasil”, declara.

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    De fato vivemos um momento peculiar em nossa história: o país se afundando cada vez mais, as regras previdenciárias sendo modificadas em desfavor do trabalhador (e, sendo bastante sincero, creio que lamentavelmente muitos morrerão antes da sonhada aposentadoria), e, no entanto, muitos preferem dizer que “está tudo ótimo”. Fala-se tanto contra a ditadura, aponta-se tão verozmente o dedo contra a ditadura, mas o discurso, no meu entender, é o mesmo: naquele tempo também se dizia: “- Está tudo ótimo!”. É óbvio que não estou defendendo a ditadura, mas, enquanto cidadão livre que penso ser, jamais irei concordar com a patrulha ideológica de certas pessoas partidárias do partido da situação atual. Aliás, relembro que o partido da situação atual, no passado, foi o partido da oposição. E hoje tudo mudou, não é mesmo? Quem era da situação é que hoje faz oposição e aponta as feridas abertas dos impressionantes escândalos de corrupção que varrem o país. E é o correto: historicamente, cabe aos partidos oposicionistas apontar os erros, os defeitos e as falhas do partido da situação, até como instrumento para angariar votos para a plataforma política que defende. Portanto, por uma questão de justiça, se pôde no passado, pode hoje também.

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